MY ONLY FRIEND: THE END.

Aquele número telefônico. De vinte anos atrás. Aquela série de seis números. Aquela esperança de te encontrar um dia. Voltou tudo. Mexia nas gavetas e encontrei aquele guardanapo. Pedaço. Ponte entre mim e você. História que não aconteceu. Um beijo apenas que nos separou. Tudo voltou. Por um segundo. Por um minuto. Tudo apareceu de novo. Como se existisse algo ainda entre nós. Algo como aquele beijo. Aquela noite de beijos. O número estava lá para ser digitado e liguei e você não estava lá. E o telefone não era mais seu e por que eu havia encontrado aquela memória naquele dia? Aquela circunstância. Eu liguei de novo. Percebi que não sabia seu nome. Você podia ter filhos. Família. Marido. Namorado. Percebi que tudo só podia ser lembrança. E fogo ardendo agora para que o nunca mais esteja entre nós. Eu queimei o guardanapo e enquanto via o azul do fogo e o amarelo Gogh consumindo o meu passado com você, percebi que você era minha musa. A mulher que sempre quis. A mulher que não falou comigo. Só me beijou ardentemente enquanto uma banda de roque tocava. Uma banda que eu gostava e você também. Será que você ainda gosta? Eu não gosto mais. Tudo mudou e nada mudou. Os cabelos brancos no peito que estão subindo pela barba e descendo pelo púbis. Tudo é o nosso desencontro. Como se nunca existisse um nós. Não. Existiu. Por uma noite. Algumas horas. Éramos tão jovens que nem percebemos que aquela seria a nossa primeira e última vez. Finito como um eletro-choque. Puro. Fim. In.

Friday, June 06, 2008

Crispim Duarte era uma menina doente. Pelo menos era o que ela descobriu depois de fazer alguns exames de rotina. A rotina eram os exames de rotina. Até ser abduzida e curada por um et. O et se casou com ela e eles foram felizes até ele morrer dois dias depois de ela ter sido curada. A doença passou pra ele. Ele passou. Hoje ela ta casada com um elefante que lhe dá banho todo o dia. Assim ela vive com uma tromba: duas trombas, pois nasceu na sua boceta um pau em formato de tromba. Eles se comem e são felizes. Pelo menos foram felizes até o elefante morrer de cirrose. Casou de novo e ficou grávida de um pterodátilo. Que saiu de seu corpo voando. Levou-a para Terra do Nunca. O Peter Pan se apaixonou por ela e a Sininho fugiu com o pterodátilo. Crispim Duarte aguardou o nunca como sempre. Até que o nunca aconteceu e eles foram felizes. Pra sempre foi muito tempo. Todos morrem. Inclusive quem me contou esta história morreu ontem de algum mal ingrato. De alguma dor que aconteceu do nada. Morrer do nada é a melhor morte. É como se nunca tivesse existido nada aqui ou nunca aqui. Cacofonia é o nome do caqui que como agora entre uma palavra e outra.

Thursday, June 05, 2008


meu e de Paulo de Toledo

Wednesday, June 04, 2008

Carie.

Dentro de mim há algo podre
algo
algas verdes que flutuam
na química cerebral

Alguma coisa estranha nisso tudo
como um dente com chip
que a CIA colocou

Aquela dentista era minha amiga
era
e hoje ela me telefonou

Disse coisas com sentido
q a vida era um perigo
era
e isso eu já sabia

O que ela não me disse foi o q me deixou triste
Não disse que eu estava podre
Mas sei tudo isso tão bem
q não acredito em mim

Gostaria que existisse
a pílula
anti-paranóia

Assim eu estaria
curado
Seria a Glória

Tuesday, June 03, 2008

ANTIPENSAMENTO.

Às vezes o que a pessoa pensa é só uma coisa que a pessoa pensa e só ela pensa. Outras vezes outras pessoas pensam outras coisas sobre o que existe. E ainda muitas vezes todos pensam a mesma coisa: o que de fato dá mais força para a coisa em si. Mas a coisa em si não fica mais forte quando há uma unanimidade. Somente quando um pensa e aquele que pensa sobre a coisa em si é uma pessoa especial para a flor da espécie, somente aí o que a pessoa pensa sobre o objeto em si valoriza o objeto em si. Mas não penso sobre o que pensam de mim. Não importo muito com o que pensam, mas o pensamento nulo é chato. Talvez seja fundamental não pensar. É o que busco mais no meu dia a dia. Viver não é pensar. Há um tempo para tudo. Tempo de viver. Tempo de pensar. Nem sempre estes tempos caminham juntos. Quase nunca há um caminho em comum. Por isso procuro não pensar: sou quase sempre antipensamento.

Monday, June 02, 2008

PIERROT

Escorrendo sangue de tinta óssea
Olhos que choram uma inexistência

Punhado de confetes e serpentinas azuis
O carnaval tem cores de felicidade curta

Escuta-se um berro uníssono canto
Sobrancelhas verdes de quem já foi um et

Aqui ali borrões que podem ser tristeza
Um sobrevivente triste feito uma pilastra

Uma tela em branco seria tão expressiva
que a formiga motorizada dirige o ocaso

Tudo flutua no limite de cada cor inacabada

Sunday, June 01, 2008

Nuvens de Gardelona
Algum sagüi joga purrinha
Na minha mão digo lona

Enquanto enquantos crio
Palavras surgem pelos olhos
Mastigo meus dentes

Alguns entes do meu lado
Insistem em brigar com o cuidado
E aparecem como lobótomos

As cores insistem em a si pintar
E o infinito aqui não é azul
Um dromedário corcunda defeca

As flores no vaso nascem crocantes
Mastigo junto com ossos
Petróleo no mar: não há fossos:

a fórceps fósseis

Friday, May 30, 2008

ORÁCULO.

De novo Proust vem me indagar:
o
q
é
pó-
ética?

Eu respondo a Proust:
pô-
Emma

Thompson dá um caldo

Descon-
verso/mudo/inconvexo
Afinal/ele é Proust e deveria
Saber tudo sobre tudo

CÍRCULOS.

meu e de Paulo de Toledo

Thursday, May 29, 2008

O CAÇADOR.

Dê-me mais uma dose
Mais uma dose de fim

Para que tudo possa começar
É preciso que acabe

Para que outro em mim nasça
É preciso que eu desabe

E assim se faça
O dia natural da caça

Wednesday, May 28, 2008

alt-
a
r

algum Ogum e
proust e seu quarto:

cor
tição:
cura pode ser ler

cura pode ser tudo
inclusive você

só não pode o não
em uma fôrma redonda
assim dita fora da boca

como quem só pensa
in-
censo indo pelo a-
roma de vulcano
(vc e seus k-
belos curtos)
pode me beijar os tímpanos
com um
sin-
o

Monday, May 26, 2008

meu e de Paulo de Toledo.

DE CIMA PRA BAIXO.

Sou o melhor que posso
Possuo o melhor que sou

De mim sei não restará nada
Nenhum caroço, nenhuma empada

Às vezes me jogo do sexto andar
Às vezes me jogo do quinto

Mas nunca passo do chão
Do chão onde um fogo extinto

De um mendigo que me acudiu
É aceso toda noite

Toda noite um anjo cai
E um outro abismo cospe labaredas

Talvez o dragão seja hoje
O melhor amigo do fogo

Talvez seja o deus pra quem rogo
O último ateu suicida

Sunday, May 25, 2008

meu e de Paulo de Toledo

Saturday, May 24, 2008

de dia me lembro
o quanto setembro
freqüentou os dias

é que quando rosas
os dias choram
na iniqüidade da vida

a vida é um osso
ou um espinho na pata
de um cão albino

a vida é um eqüino
um cavalo alado
bunda chamada desejo

Friday, May 23, 2008

meu e do Paulo de Toledo

Thursday, May 22, 2008

O CHÃO.

Soco naquela parede
Aquela parede branca que não me fez nada

Agora a parede está um pouco vermelha
E há sangue na minha mão

Então aquela parede que não me fez nada
Me fez sangrar a primeira vez

Me jogo no abismo entre os apartamentos
O chão nunca me fez nada

Wednesday, May 21, 2008

DO CAIS AO CAOS.

vitória régia flor
regendo a orquestra

maestro régio: o tempo
das flores é o da chuva

regendo o silêncio: os
filósofos: os filólogos

abrem os guarda-napos
os perdigotos são troca-

dos: algum beijo via ar
elevado à potência de

Won Kar Wai dirige
entes lentos de seres-

teiros: boleros e la
barca: todos partem

Monday, May 19, 2008

GOGH.

A aparição por si
nequan
on(m)
só fez desligar

O andador anda só

Volta no quarteirão

Algum(a) en-ig
nigção

outra

qualquer poema paira
sob
o sol a si desbota
tbm terra: cor do ofício:
amarelo

Sunday, May 18, 2008

THIS IS OUR SONG.

Ontem ela me disse que
me ama
mas eu não acredito mais

A chama de uma vela
só se inflama
com o amor que o fogo faz

O fogo baila bailarina
nos olhos
tão azuis desta menina

Quando me diz que ama
só reclamo
porque não a amo

Quando digo eu amo
minto
porque não é o que sinto

TELA.


Friday, May 16, 2008

Krâneo e seu neurônio no programa roNca roNca.

Quem quiser conhecer o meu trabalho musical, é só ir no site da Oi FM. Uma música nossa (PORTAS FECHADAS) tocou no programa roNca roNca, de Maurício Valladares. Foi uma surpresa. Por volta das onze e meia da terça passada, estava com o meu radinho de pilha ouvindo o programa: que é de uma desorientação sonora total. De súbito sem falar nada escuto minha voz anunciando PORTAS FECHADAS. Foi uma puta surpresa. A Gizza Negri - que é quem faz este trabalho musical comigo -, já está preparando material para um video clip demo e também vai montar uma página no My Space para a gente. Fica o agradecimento ao Mau Val. Quem quiser ouvir o programa é só ir no site da Oi Fm e clicar em roNca roNca no menu a esquerda. O endereço é este http://www.oifm.com.br/

SE JOGAR.

Matei um homem e
Uma mulher
Comi-os de colher
E vomitei um poema
Outro dia também me mataram
Mas me comeram de garfo e faca
Saí pelas fezes
Calmamente
Como quem nasce
Lentamente
Usando um disfarce
De gente
Vestia Negro como a noite era negra
Me confundia com ela
Até que viramos a cadela
Que defecava no tapete
Um bilhete
Ela me veria de estilete
Um outro Valete
A queria de sapatos altos
Alguns fatos são menos exatos
A poesia é um fetiche
Quando ela existe
E o poema é só o princípio
De um precipício

Wednesday, May 14, 2008

CANÇÃO PARA UM AMOR NAUSEABUNDO.

Inspira um segundo o ar da manhã
Sente o olfato dos carros passando
Daqui de cima não dá pra lhe ver direito
Você é tão minha que é quase a ponte inteira
Um abismo de leões e dragões rugindo
Um caminhão de suicidas pedindo auxílio
Um beijo que o chão me deu aos sete anos
Depois: algum flanelinha flanando o amarelo
Dizendo pr`eu botar meu carro aqui
Bato parado carreiras de insanidade
Me dizem para pular em mim mas é um lugar tão deserto
O escuro da noite sobe pelas escadas
As sirenes do bombeiro
O escudo da tropa de choque
O choque que já levei um dia
Tudo isso lhe circunda e você foge de mim como de uma locomotiva
Eu venho vindo em direção contrária
Ainda encontro tempo para sentir o seu perfume
Dedico um segundo a guardar o seu cheiro
Depois vomito tudo antes que me beije
Tão decentemente que me enjoe

Tuesday, May 13, 2008

TELA & CIA.

O inferno é o sinônimo
De manicômio

O homem é o homônimo
Eu, só Rodrigo Antonio

Monday, May 12, 2008

BISCOITOS MIRABEL.

Lá depois das seis
Começa o meu tormento
Me sinto tão bem
Que nem em mim me agüento

Logo vem a memória
E a memória vem com o mamute
Atormentar-me com sua carícia
Que me açoita a cicatriz

Se o tempo parasse agora
Diria que está tudo bem
Dentro de sua pegada
Há uma banheira

Dentro da banheira
Na forma de um oito
Meu corpo morto
Comendo biscoito

Friday, May 09, 2008

TRECHO DE TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS.

Tudo ficou Van Gogh


Engoli um chip ontem. Danei-me a falar sobre o sistema que me cerca. Havia um eletrodo em minha testa, não sei se engoli o eletrodo também junto com o chip. Os cavalos estavam galopando. Menos o cavalo-marinho que nadava no aquário.
Ele tem um problema mental. Será que tem alguma seqüela? No fundo deste meu mundo, lá no quarto escurecido por doses de Litrisan, veio um psiquiatra e baionetou uma química na minha celha esquerda. Enquanto outro puxava a minha banha, esticando e esticando para que não sentisse a injeção de Benzetacil.
Benzeta.
Benzeta.
Uma dor imensa na bunda. Tudo girando ao meu redor e eu girando também. Tiro uma meleca e coloco na mesa do canto, bem longe da escuridão no quarto. A escuridão é asséptica. Só o pessoal de branco pode freqüentar aquela linha impura. Seguram-me de novo. Recebo o beijo de minha mãe. Deve ser dia de visita. Acordo e como uma lasca de goiabada com o sanduíche de atum que mamãe trouxe para mim. Escuto uma música tão alta que não entro nos meus pensamentos e estou fora, agora a cocaína não vai chegar. A conexão foi interrompida.
Mamãe mal chega, mal vai.
Ele continua achando que engoliu um chip.
Ela diz que tudo começou há uns dez anos, quando eu achei que havia engolido um grilo.
Quantos grilos você me fez engolir, filho.
Minha mãe disse isso afagando meus lábios e me dando um beijo na bochecha. Por alguns segundos lembrei-me de algo que havia acontecido no dia anterior. Eu havia quebrado toda a casa com uma fúria gigantesca. Nunca mais tomo Haldol na minha vida.
Foi por você não ter tomado o Haldol que você ficou assim, diz o chip. E eu começo a falar: Só no Anhembi é tupi. Só no Anhembi é tupi.
O engolidor de espadas engole uma nesga de fogo por vez. Tá todo mundo engolindo alguma coisa neste exato momento. É hora do jantar. Mamãe se foi. A música volta a me colocar fora de mim.
Entro no quarto. Tiro o pau pra fora e começo a bater uma punheta. Dança da motinha. Dança da motinha. Eu engoli um grilo quando tinha meus 15 anos de idade. Foi a primeira vez que consegui conviver comigo mais intensamente. Salvei uma casa do cupim maldito que queria destrui-la. Eram cupins gigantes. Tenho certeza de que salvei aquela casa. Tenho certeza de que por alguns segundos fui Jesus Cristo.
Ainda continuo na jaula. A minha boca está fechada com uma mordaça. Meus pés estão presos.

CONSIDERAÇÕES ALEATÓRIAS SOBRE ANIMAIS E HOMENS.

azul veludo sobre azul piscina
olhos que piscam o caribe inteiro
outro meteoro
outra crina de cavalo que voa sozinha
ele segura a cabeça de alguém
olhando mais de perto podemos ver o vírus
matamos seres vivos quando tomamos banho
ah, as bactérias e os mínimos seres que habitam a nossa pele
rubro olhar que exorciza o ritual
maconha e veias dilatadas do olho esquerdo
a tecla delete do computador
tem certeza que deseja deletar tudo ou
salvar como
ou cuspir na tela
ou ouvir Mozart
mais uma vez antes das cinco
que é a hora que você desmaia todo o dia
e não sabe se volta
com costeletas estranhas
estas de porco
o porco berra tanto quando é castrado
o porco berra e berra o porco que berra
e o homem ri e enquanto sorri se ferra
quem é a fera?

Thursday, May 08, 2008

soul.

“Listem to Marvin all night long”
True, Spandau Ballet

trôpego
te dou
um abraço

amaço
a fumaça
fumo

um maço
fumava
o que faço

cantava
bebia
o espaço

em mim
existia
o palhaço

hoje
traço
traças

transas
tranças
ondas

mansas
mudei
mudou

o que
sou
soul

fui

Wednesday, May 07, 2008

ELA.

ela fez lipo na vaidade
era um hipopótamo

ela tirou as rugas
era um maracujá

ela fez ginástica
era uma cardíaca

ela ficou bela
pegou febre
a amarela
e desbotou
até morrer

Monday, May 05, 2008

Rir.

Dente tende
A virar músculo

Antes varo
Vara e másculo

Depois frouxo
Roxo e carne

Antes branco
Total Mármore

Sunday, May 04, 2008

ERAM SÓ COTOVELOS.

Silêncio. Ela está falando pelos cotovelos.
Cada cotovelo diz uma coisa. O esquerdo
diz que não. O direito diz que sim. Apesar
de ser um segredo o que os cotovelos pensam.
Existe um segredo ainda maior dentro dela.
Ela diz que me ama e isso seria o suficiente.
Mas como preciso de enquantos vários. Vou
enquanto fogo me queimando de silêncio.
Enquanto água vai deixando que o contorno
de meu corpo vá se aproximando e tocando
aos poucos as bocas dos cotovelos e vendo
que assim evito um pouco que ela fale que
ela diga o que quer porque sai do cotovelo
para fora. Para dentro há o fogo que consome.
Há os filhos de um outro homem que também
lhe fala melhor. Os cotovelos têm ouvidos
também. E os tambéns não têm sentidos iguais.
Os cotovelos, os tambéns são as bocas dos
enquantos. Enquanto isso nasce um ventre do
chão. E o chão é onde começa a filiação.
Enquanto caibo em mim vou bem e o problema
é quando deixo meu cotovelo perto do dela e
ele menstrua um silêncio eterno contido num
dó de peito. Aí o cotovelo canta. É o fim.

Saturday, May 03, 2008

CHEIRO.

A arte do enfarte
Faz da morte um desastre

Um desastre de cigarros
E pressão alta

Algo escuro me ataca
A dor do peido

Que dilata
É só uma cola na lata

Friday, May 02, 2008

HOSPÍCIO.

Eu não vou tomar o remédio
Pra que me chamem de louco

Só louco toma estes remédios
Eu prefiro os meus infernos

Quando um louco é um fardo
Eles querem internar

Que me internem quando há mar
E uma maré com ondas altas pra surfar

Eu que odeio este lugar
É o lugar preu piorar

Preu melhorar chama o abismo
E não me chama de louco

Quando eu me jogar

Thursday, May 01, 2008

POMBOS NA PRAÇA DA LOUCURA.

Psiquiatra sempre quer dar um remédio
E acha que cura

Psicólogo sempre quer bater um papo
E acha que cura

Quando a cura
Não existe para a loucura

O que o louco tem é que fazer
É conviver com um freezer

E com um micro ondas
Com um mundo cor de rosa

E com uma negra bomba
Quem saiba um dia pomba

Bata asas e voe
Toda a minha loucura numa revoada

Wednesday, April 30, 2008

espaço.

azul-crinado
o cavalo de caos
escapa às rédeas

azucrinado
o homem de prata
come o nada

assim quase-juntos
o nada e o caos
nadam

sob o assoalho
negro de estrelas
o crepom de abismo

invade a sala

o sol sem nuvens
tele-transporta uma orquídea

quem receberá esta flor de vento?

vênus?

Tuesday, April 29, 2008

A VELHA.

a mulher olha o parque
a mulher olha a menina

a menina no balanço
no balanço, a menina

a mulher se aproxima
e o que vê é uma velha

era ela quando menina
no balanço da memória

Monday, April 28, 2008

INTERNO RETORNO.

INTERNO RETORNO.


Eu ando em círculos e paro:
às vezes na metade do círculo.

O círculo é só um movimento
e o movimento é uma onda.

O círculo. O movimento. A onda.
São todos tão redondos assim

como quase um ovo que nunca
consegui colombar em pé.

Colombo é um nome cheio e redondo.
Desses que circula em círculos.

Desses que o mar traz para descobrir:
o movimento o Círculo a onda.

Tudo que faço é mesmo circular:
um ponto qualquer no infinito.

Um ponto também é um círculo.
Tudo é círculo, onda e mar.

Apenas alguma sarda que tinha
não era totalmente redonda.

Por que um círculo precisa
de um compasso? A Terra

nua no espaço é onda é mar
é círculo: sou eu no meu cubículo.

Sunday, April 27, 2008

AINDA ONTEM.

Havia um louco
No século passado
Que via dois sóis
E se curou lendo Rousseau

Quando fecho os olhos vejo muitos sóis

Quantos sóis há em nós
Quantos livros pra ler
Quando a cura virá?

Saturday, April 26, 2008

PROUST ELA.

Flores flandres flocos
andam pelos flancos.

Sua forma redonda e
árida: aguarda qualquer

quietude. Aquela França
que não tenho: é sempre

o seu local: sua paisagem
reflete em mim sua língua

gen.

Friday, April 25, 2008

CONFIDENCIAL.

Tenho um segredo que ninguém conta
Nem eu sei

Thursday, April 24, 2008

tremula o sol

a humanidade é tão velha que quase
escondo a minha face
ao olhar no espelho de minha consciência
os meus atos falhos

a humanidade em mim é menos velha
quando percebo agindo de novo
dentro do corvo que devora espantalhos vários
e estou aqui formatando mais um hd mental

e limpando de minha mente uma quantidade
enorme de vírus
que eu poderia até ser mais uma estátua
de braços abertos para o mundo
ou de tocha petrificada e acessa na eternidade
de um país que dominará eternamente
o que nunca foi dominado

no parque bancos voam em círculos
e minha avó compra um picolé de sangue
abortam formigas suas carapaças protetoras
as crianças estão deitadas
e é tudo mais uma simulação do exército para caso guerra
nasça dali
entre os coqueiros
os únicos que restaram em ipanema
onde foi arpoador
onde as pedras retiniam as ondas que eu furava feito baioneta
e surfava no caos do meio-dia
era tudo brincadeira

sapatos na parede de meu quarto
grudados para que eu possa andar pelas paredes
silêncio na silueta dos retratos
retardados em fila os soldados
recalcitarando sua vontade de dopaminas
cada vez mais induzidas
e menos fabricadas pelos orgãos vitais

pão vick bold mofado e verde musgo na geladeira
será que existe vida naquela cápsula de complexo b?
garrafas de mineirinho espalhadas entre os baseados
e uniformes esportivos
uma meia fedorenta exalando necrotérios vários

e eu deitado lendo gibi
e eu ligado na cnn
e globo e você
e de repente um silêncio misterioso relembra o meteoro
que eu não vi
a bomba que eu não vi
as estrelas que eu não vi
e só ouvi pela boca dos velhos que me disseram
pela boca dos livros que escarraram no meu ouvido aquela anti-paz

tudo que eu não vi serve para eu não ver mais?
ou eu ainda quero aprender mais com os meus erros?
ora quem sou eu neste planeta tão belo e com poetas tão velhos e ilustres
capazes de falar várias línguas e inclusive latir?
ou ainda é necessário que eu me chame ramister
e espere num laboratório
a hora do ofertório
em minha missa de sétimo dia

todo mundo que foi para a cama comigo
reclamou que demorei a gozar
e eu não posso reclamar
da velha bandeira branca amor que está sempre esfacelada
dilacerada
e fora de lugar

enquanto o silencio era feito de uma certa neblina
de uma costura de porta aberta
de olhos que abanavam o ocaso
piscando seus cílios como leques estroboscópicos
epileticamente amorzinho
ardendo até o princípio da ignição de um gozo
de uma anti-míssil direcionado a tremular
as entranhas de alguns móbiles
que guardavam minha infância de criança

e eu fui justamente neste dia
me entregar a nilza
para que naquele jardim de casa
em meio aos playmobils e seus mamilos
arrancar alguns discos voadores
de suas ancas
e decalcar a manchete da primeira lua
que o homem nunca foi
(é o que acreditam aqui)
quando as escamas do peixe brigam com o lago
para ver quem brilha mais
no trêmulo e eterno sol do dia eterno
balanços da memória

Wednesday, April 23, 2008

a imobilidade diante dos fogos.

parado, o silêncio me confunde
imóvel, teu laço de amizade
toda a mobilidade parada ainda

só pra te ouvir soltar cachorros
e engolir toda a pólvora de luz
cuspir o nosso amor em fogos

Tuesday, April 22, 2008

DOIS POEMAS CURTINHOS.

selinho

a
boca
que
ousa
na
boca
que
usa


flores peladas

juntos
defuntos
de húmus
em húmus
flores
e abelhas
e rimbaud
e suas moscas
toscas
roscas
em amarelo
e cinza
ela
e sua pinta
na nuca
flutua
no nunca

Monday, April 21, 2008

crepúsculo.

quando ermo penso
quando cheio grito
quando azul estrela
quando triste choro
quando medo explodo
quando amor vermelho
quando setembro negro
quando verão inverno
quando sim não
quando não talvez
quando pensamento
sei que só instantes
fazem o monumento

Sunday, April 20, 2008

Ana Conda.

Ele tinha a pica maior do mundo.
Era uma jeba de 3 metros que o sufocou até a morte.

Saturday, April 19, 2008

SEXO.

silêncio: o lexotam vem vindo
cuidado que a calma vem vindo
e o que vem vindo vai indo
enquanto nós estamos sorrindo

tudo está tão inerte no deserto
como se tudo fosse de concreto
duro como meu pênis ereto
comandado por alguém discreto

discreta diria eu melhor agora
por que prefiro uma forma sonora?
alguma mulher que me implora

outra gentileza na genitália
vendo o cair de uma mortalha
e as moscas com seus olhos-navalha

vão cortando a carne da morte
daquele ser humano de sorte
que não vive mais por esporte
e cavalga no mesmo trote

como se fosse um cavalo eunuco
que não pode controlar o oco
durante horas falará bem rouco
buscando a paz e seu caroço

alguém então dirá durma silêncio
na eternidade de um incenso
no ritual sagrado eu bem que penso

em fazer amor com este cadáver
e depois de tudo pôr um revolver
na minha cabeça e a tudo resolver

Friday, April 18, 2008

ESTAREI LÁ?


Saiu a Inimigo Rumor 20. Tem um fragmento de Todos os Cachorros são Azuis na revista. O lançamento será no dia 26, na livraria Beringela. Estou preparando o Rivotril para ir. Será?

Thursday, April 17, 2008

clarice chopin.

o infinito se inflama no crepúsculo
aos poucos a tempestade vem entupindo as artérias
de trovões elétricos
e papagaios derreiam o vento de fim de tarde

me chamo tempestade
e o cinza que irei derramar se chama nuvem
e a lágrima que irei esculpir nos telhados
se chama chuva

alguns dias são tão parecidos como hoje
que quase navego na exclamação que provoca em mim
de tanto me exclamar e declamar e declarar minha paixão pelo silêncio
e a nova porta que se fecha
para decupar o declínio de hades em mim

em mim resta a tempestade
a que sou algema que silencia o filho anti-pródigo
que vai para a prisão de seu eu
sem levar as chaves que o prendem
ao pai, a mãe, a irmã, ao irmão
e a todos que sobreviverão
ao dilúvio que virá depois da tempestade

a tempestade é só um escada para o infinito
é só um ramo no bico da pomba branca
é só uma bomba atômica explodindo todo dia dentro do quintal

e toda a vez que explode
colore o horizonte com novos fantasmas
monges que se vestem de branco
e assinam o atestado de óbito daquele que queima
seu fim na ponta de uma agulha de vagonite
costurando o aborto na manta de penélope
desfazendo os sapatinhos do neném

alguém um dia lembrará
que os irmãos marxs só fizeram catapultar
e quem vôo foi mesmo santos dummont

e que claudio manuel da costa era maior mesmo de joelhos
do que o teto onde dizem que plantou uma forca

e que gaudino não queimou por brincadeira

algum dia como este dia que se chama tempestade
trará de súbito
uma tara pela vida

transaremos na chuva infinita de nossas salivas
esbugalhadas em olhos perdidos
e brincaremos de autorama
eu e meu filho e eu e meu pai

ah, são marcelo
como pode dar sua vida por outro homem?
como pode, por ouvir vozes
construir em si algo tão perfeito
como uma catedral de espelhos que não se refletiam
mas refletiam todo o amor que tinha para com o outro

ah, são marcelo
por que deus não vive em mim assim?

algum dia como este dia em que a tempestade se encolheu
agora quase às três da tarde
recolhi os cacos de minha existência
e tentei construir um poema
envolto no oitavo cigarro
no sexto andar
no milhão de madalas turvas
que formam o contorno do meu rosto
dissipando-se nas trevas de um acorde menor
nas grandes grades mãos da divina deusa

que me interrompe no piano de caudas do vestido de clarice
chopin

Wednesday, April 16, 2008

TELA & CIA.



as unhas na nuca

as unhas na nuca de mim
de mim nuca caduca

desejo que me talhe
picotando todo o desejo

papel picado lá fora
neve na bruma do cabelo

desgrenhando todo o em si
que eu fui um dia meu

Tuesday, April 15, 2008

Porrada.

é muito fácil inventar um futuro
basta olhar um murro

Monday, April 14, 2008

PISCINA AQUI DO PRÉDIO.

Todo mundo sabe tudo
Quem não sabe
nada

Saturday, April 12, 2008

1 Litro de Loucura, 500 Gramas de Razão.

Venho me perguntando por que de poeta e louco todos temos um pouco. Será mesmo? O que faz a poesia e a loucura figurarem no adágio de forma paralela?

O que é poesia e o que é a loucura? O paralelismo pode residir na manifestação discursiva de cada uma. Como a primeira lida com metáforas e linguagem conotativa, é fácil pensar que existe uma dose de loucura na poesia. Não acredito no vice-versa, na loucura discursiva de um texto. Toda narrativa que se auto-define louca já tem a razão em si. Portanto, não que seja impossível, mas para um louco é muito difícil fazer poesia, apesar de discursivamente estar despejando linguagem conotativa e metáfora full time.

Quando um poeta como Junqueira Freire diz: "Beijar-te a voz que soltas / Beijar-te a luz que visas", fica claro que ele não está falando em verdadeiramente beijar a voz ou a luz, a menos que fosse um louco, no hospício. O poeta emprega a linguagem conotativa, a qual a poesia está vinculada. Assim, podemos dizer que a poesia, se tem um parentesco com a loucura, é devido a este elo. Loucos também fazem uso desta forma de linguagem para se expressar. Só que para o doente, esta é a forma de se comunicar. Ele não a vê como objeto artístico. Já o poeta parece ser o ordenador da loucura.

Taí. O poeta destila no papel o possível e o impossível, o real e o imaginário, o seu eu, e, mesmo perdendo por momentos a razão, para fazer poesia é necessário ainda outros requisitos. Outros temperos para o molho poético. O interessante é notar que, desde Homero, tenta-se apreender o conceito de poesia. Alguém já conseguiu? O paradigma da poesia não é mutável, mas cada estilo de época acrescenta ou retira aspectos da linguagem. Quanto à loucura, nenhum tratamento consegue dar cabo desta afecção.

Poesia, segundo Hênio Tavares, é a linguagem de conteúdo lírico ou emotivo, escrito em verso ou em prosa. Ora, é essencial certa ordenação para se escrever um poema. Por isso, quando defendem a hipótese de que loucura e poesia são parentes parece-me tratar-se da loucura relativa, usando o termo popularmente. Mas e os grandes poetas loucos? Eles poderiam estar loucos todo o tempo, menos quando escreviam. Para a atividade escrita é preciso muita concentração, dedicação, raciocínio... coisa que, em surto, é impossível.

O que existe é uma glamorização da loucura. Há quem ache bonito ser doidão. Estar doidão com batida de limão. Loucura não é isso. Definitivamente, não é felicidade. Mas podem a loucura e a poesia andar de mãos dadas? Pode a poesia auxiliar em tratamentos? Sim, pode-se muito com arte. A arte redime o homem, eleva-o. Faz o espírito se agigantar, sair de sua pequenez. Acredito que a poesia pode ser profilática. Um indivíduo surtado é uma nau desgovernada. Mal os medicamentos podem ajudá-lo. Nem ele mesmo pode fazê-lo. Mas só o fato de evitar a loucura para uns, faz com que escrever seja um remédio. Por isso, salve a poesia. Saúde, poesia!!!

Friday, April 11, 2008

Compulsão.

Um poema só um poema a mais
Na barriga só mais um problema
Na cabeça alguma coisa dizendo
Que eu estou me repetindo e
Vivendo na barriga do problema

Um poema que comece com tudo
Que termine com o universo confuso
Aquele caos que belisca o umbigo

Dois poemas agora num só poema
Um pra dizer que eu estou assim
Outro pra dizer que eu estou assado

Três poemas e uma tatuagem
Algum enigma e uma canção triste
Talvez todo o poema seja um cemitério

Thursday, April 10, 2008

amarelo.

dentro de mim
explodem comigo

fora de mim
implodem comigo

fora e dentro
sou fragmento

dentro e fora
cimento de aurora

Wednesday, April 09, 2008

Me bate.

Me bate um pouco
Me bate um pouco mais
Eu não sei o bastante
Sobre a minha dor

Cuidado não fure
Nem meus olhos
Nem meus tímpanos
Deixe que eu toque

Os cinco sentidos
Que eu perco toda a vez
Que você me bate
Eu não sou masoquista

Mas me bata com a mão
Para que eu tenha
O calor de outro corpo
No veludo de minha dor

Tuesday, April 08, 2008

Cadafalsos.

E o lexotam do dia a dia
O chá de calmaria
Mente em banho Maria

Preparada pros esporros
Pelo vento dos morros
Do que vai dentro do gorro

Existe sempre na mente
Um cego delinqüente
Geralmente vidente

Vai guiando os passos
Pelo cada falso
Sol escondido dos mormaços

Quando vem a ruptura
O médico não tem cura
É só você e a sua loucura

Monday, April 07, 2008

SEXO VERBAL FAZ MEU ESTILO.




Salve Pessoal


Contrariando o Renato Russo, meus poemas eróticos (alguns) estão em Germina. Clique no link:

Saturday, April 05, 2008

CRIANÇA.

abismo
sinto pela boca

a propensão
ao caos também

incerta
minha mente absorta

combina com os dentes
como encarnecer

tecer novos juízos
e absintos

correr um quarteirão inteiro
atrás do vento

que se quer na frente

Friday, April 04, 2008

Mas nada faz com que o pterodátilo em minha boca lata. Nada como a busca por labirintos novos. Alguém algum dia me entenderá e já é tarde. Hoje é passado. Outro enigma percorre – feito scan – o meu panorama. Ela está deitada com um labirinto na cabeça. Com dor de cabeça. Depois de ter tocado o corpo dela e perfurado seu tímpano, percebi que era culpado. Por que matar alguém é tão fácil? Difícil é percorrer os corredores a procura de uma colisão. Outro trem que venha vindo tão rápido em direção contrária. Alguém pra amar é o que todos buscam. E eu só quero me esconder num outro corpo. Como se cada dia passasse assim tão rápido que já é ontem. Depois de ontem é hoje. Agora quero bocejar porque não dormi. Por que matar alguém é tão fácil. É só deixar que alguém se mate. Calibro o tempo e ponho uma bala no passado. Miro você e aquela estátua e acerto nela. Agora é comigo e você. Só algum décimo de segundo me assalta. Sou inacabado. Em processo. Vivendo duas vidas em você. Aquele que você queria que fosse e o que eu sou e sinto que não sou suficiente. Sufoco o prisma de sua fala em ré menor. Quem sabe calada diga mais do que o rádio da polícia e possa descobrir porque você morreu naquele dia, naquela hora, naquela parte da cidade escura. Tomo um milésimo de segundo. Bebo o retrocesso. Esta manhã está apagada. Depois de tudo nada aconteceu. Só estou um pouco nervoso e me falta só um miligrama. Eu acordo você e eu saio. Em direção contrária a sua. Quem sabe o labirinto esteja aí para todos verem por um segundo o que querem. Quer se ver no outro. Querem amar o outro, mas o que acontece é o oposto. Algum ser tosco e brutal pode corromper o silêncio como quem tira da vida o sangue todo o sangue. Alguma opção melhor do que sentir você sangrando em mim?

Thursday, April 03, 2008

UM POEMA PARA UM FILME MENOR.


FEITIÇO DE AQUILA

P/ Andrea

Parte de mim parte,
Quando te olho
No lábio dos olhos.

Parte de mim, exata,
Desata o nó de ti,
Orna o pomo de Adão.

Parte do alarde enfim,
Desola meu triste ser,
Ao se evadir de mim.

Parte de mim arfa
Na aurora da solidão.
Quando tu pantera

E eu Sol só brilho
Para o que passamos:
Falcão e Lua no cio.




Wednesday, April 02, 2008

Assim foi feito. Alguém caía. Alguma outra
forma de vida. Algum et. Algum Ogum.
As palavras cresciam em torno de um lugar:
: algum lugar diferente e igual a tudo.
Fui levado mudo para fora do mundo.
: soube que no inverno isso acontecia com
mais vagar: um vagar que quase a manhã
acode. Por que só escrevo sobre isso e
me deito com os remédios para fazer amor
com eles. Eles conseguem segurar meu tigre.
Eles sabem o que eu preciso da esfinge.
Algum problema pinta e pinto de negro os
Meus cabelos são pororocas indo e vindo
e algum tisunami me pega pelo pé e como
sou feio pelado: você me diz isso, mas diz
que não tem problema: o amor é uma algema.

Tuesday, April 01, 2008

CANÇÃO E APOTEOSE.

Coisas distantes
como os planetas
me deixam ofegante
só penso na sua boceta

Coisas bem perto
como a alquimia
me deixam esperto
como toda vilania

Coisas só coisas
que me tiram do sério
entre elas as mariposas
subindo feito hélio

Coisas não sei mais
acabou todo assunto
ninguém nada faz
e eu quase um defunto

Sunday, March 30, 2008

Você é só um satélite
Uma nuvem na internet
Um carnaval sem confete

Saturday, March 29, 2008

a bela da tarde, do dia e da noite.

enfermeira gritava um interno
gritava dia inteiro
enquanto os outros choravam

dinheiros gritavam os médicos
gritavam dia inteiro
enquanto se masturbavam

enfermeira gritava a noite toda
e ela bolinava os dias

bolinava todas as velhas tias
castigava os tios
com as flores e o coquetel

Friday, March 28, 2008

TELA & CIA.



prozac lexotam tomava
isac piportil no haldol
risperdal para riquinho
gardenal para doido total
assim amplictil polenta
assim foi o meu carnaval

novalgina no pintinho
mertiolate corpo inteiro
pijama sem bolinhas
e um céu que poderia
esconder qualquer estrela

a bula dos alquimistas
os enfermeiros comemoram
injetando morfina em ratos
ratos que são sem ser cobaias
loucos sem camisa ao sol

sob o sol muito haldol
pipas no vento de haldoperidona
galáxias cheias de endorfina
dentro de mim toda a química
se vicia sem a si viciar

Thursday, March 27, 2008

psiquiatria.

ampulhetas douradas
na cauda da sereia

seriam os brincos
nos lóbulos de vênus

ou uma alucinação
ou coisas de santo

depois do haldol
ninguém viu deus

Wednesday, March 26, 2008

a mente só.

subo
escadas
sem
degraus


desço
ruas
sem
ladeiras


a
mente
só
navega


quando
só
de
nada

Tuesday, March 25, 2008

Atomic.


Monday, March 24, 2008

lápides.

amplidão
ter
asa
imenso
imerso
mar
e pouso
avião
anfíbio
pássaro
planando
rente
ao mar
navegando
star(lactites)
livres
caindo
ficando
lápides
sem bula
no solo

Saturday, March 22, 2008

SINUCA.

Rosane Vilella, eu e Suzana Vargas.


Os cheiros que eu escuto são cheiros de oito ventos.
O nada também tem seu cheiro. Todos têm o cheiro
da morte. Ontem vieram duas amigas aqui em casa.
Ontem mesmo me aceitei como eu sou. Estar numa
sinuca não é para qualquer um: ainda mais para um mau
jogador como eu. Não é que seja mau, pelo contrário,
é que não entendo nada de sinuca e só sei que devo
tocar uma outra bola de cheiro que não está na minha
frente. Alguma angústia pode virar paranóia e algum
dia destes não estarei por aqui. Outro cobertor de cheiros
pode me cobrir até a morte. Pouco importa se tem cheiro
porque já disse aqui (neste poema ridículo) que o nada
tem seu cheiro e em mim tudo cheira e pra mim tudo
também cheira. Só não sei como acertar essa bola que
esta diante de mim (tão redonda) (tão bonita) e (tão azul).
É o planeta Terra que me abandona todo o dia cada vez mais.

Thursday, March 20, 2008

no fundo
do ser
em fosso

estampas
ornadas
em osso

fogo.

contemplo
a lua

e o templo
todo

se perpetua
no tempo

flutuante
em que flutua

a mente
arfa

ardentemente

Tuesday, March 18, 2008

CONCERTO PARA GUERRILHA NOTURNA E DESPEDIDA.

Primeiro o tato
Depois a tatuagem

Tudo agride e oprime
Um camburão de nuvem

Alguma gota de um remédio
Principalmente os que eu tomo

Me dizem algo quando nada me dizem

A tensão então de roldão assume
O lugar de um marca-passo

Trituro meus dentes relembrando antes meus entes
Queridos

É como se todo o meu passado estivesse ali
Célula após célula

Me dizendo que cada fantasma que vejo faz parte de um só

Monday, March 17, 2008

TELA.


Sunday, March 16, 2008

ELES TE PÕEM UM ANTOLHO
Uma camisa de força
Açoitam volts na alma

Eles te tiram a fauna
Deixam-te vivo
Que é pra lembrar deles

Eles vão voltar
E repetir tudo de novo
Cada vez ainda pior

Saturday, March 15, 2008

O FILHO DE MEU INIMIGO.

O som da vertigem é um arrepio
Que desce na alma sinuosa
Verde que nem uma escarpa
Neva nesta fratura exposta

Um índio é escalpelado
General Custer está com frio
O que eu faço com o seu filho?
A mesma coisa que fez comigo

É muita covardia minha

Sou apenas seu maior inimigo

Friday, March 14, 2008

A LUA TATUADA NO LAGO
depois o sol depois
seus olhos depois
você mergulha
e asendorfinas todas
se banham de sangue

depois
ainda sob o efeito da água
você se esconde na lua
seus olhos assim flutunuam

como este seu corpo
que bóia devorando o hábito
de soltar esguichos pela boca depois

ficar feito um animal aquático
(diria um golfinho ou quem sabeum polvo)

mas você está mesmo é na banheira de casa
na piscina do bebê

feito Godzila
destruindo as maquetes de papel

ou na verdadeTóquio

Thursday, March 13, 2008

CREMAÇÃO LÍQUIDA.


Tensão nas trevas do meio dia. Algum trocado balança no bolso. Alguma esmola que foi dada. Alguém de mãos arregaladas. Uma crosta de sujeira nas extremidades dos dedos. Cata o feijão. Depila a bunda de uma cenoura. A costureira costura um bolso dos fundos. Algum sonho me acorda e ainda tão cedo estou caindo de mim mesmo. O barulho da cama acorda seus gemidos. Nunca fui mais ao barbeiro. Minha juba está cada vez mais os cabelos da medusa. Quanto mais corto mais nasce cabelo. A baba do quiabo é nojenta e viscosa. O arroz virou uma papa. E continuo a cair de mim. Só posso cair de mim. E me escorrer pelos degraus feito líquido. Me dissolvo num bueiro nas portas do edifício. Alguém está varrendo a calçada. Levando – com uma ducha de água – uma poeira para o ralo. Quanto gasto com o que sobrou de meu corpo.



Wednesday, March 12, 2008

AUSÊN&CIA.

Eu falto de mim alguns dias
Não vou a encontros marcados
Em certos horários
Estou tão ocupado comigo
Que sinto de mim uma falta
Sou eu mesmo quem me mata

Desato o nó da gravata
E deixo assim habitado
Meu mundo cheio de abismos
Flutuando no limbo saudável
De mais uma nova cura
Pois quando não estou em mim
É que sinto a sua falta
Sei que a miragem flutua
Na minha alma
Quando passa a ser tua

Tuesday, March 11, 2008



Flores do Mal

A florista convenceu Waltinho de que a margarida era a flor exata para dar de presente de noivado a sua futura esposa. Afinal Ana era uma garota moderna que morava no décimo andar de um apartamento cheio de vasos e plantas. Por isso quando ela recebeu aquela flor magistral que emanava uma luz própria e solar não encontrou local melhor do que a sua sacada para colocar aquela preciosidade. O que brilha para mim brilha para o mundo. Passou uma noite de amor maravilhosa onde fez sexo em duzentas e cinqüenta e quatro posições diferentes chegando a gozar vinte vezes enquanto seu parceiro adepto de práticas orientais alcançou o ápice cinco ponto dois na escala de prazer sexual do livro de Raduv Galanoide. No café da manhã comeram o que mais gostavam, pão de queijo. Café com leite. Geléia. Mel. Depois assistiram a um filme tão lindo que, quando ouviram o vizinho cantar Perdão Emília, perderam a compostura e rolaram dezenas de vezes por sobre o tapete persa cheio de nuvens branquinhas. Foi o que precedeu o céu. O telefone tocou chamando Waltinho para que ele fosse ao hospital, pois um caso muito urgente requeria a sua presença no local. Ele foi rápido. Sapecou um beijo que durou exatamente um minuto e quarenta segundos dizendo que havia uma vida em jogo e pedindo para Ana que parasse com aquilo que quando voltasse o amor iria fluir pelas artérias e eles iriam se irmanar como um só corpo fazendo daquele ato animal algo transcendente como a pintura de Michelangelo na Capela Cistina ou a poesia de Baudelaire. Ele desceu pelas escadas e cumprimentou o porteiro que lhe disse para olhar para o alto, pois a Ana queria lhe dar um tchau. Waltinho olhou para cima e lá estava a sua mulher, a Senhora com quem havia escolhido se casar tropeçando num passo e deslocando o vaso de flores o suficiente, para que depois de uma queda livre, criar um enorme galo na cabeça de Waltinho. Ou galho? Porteiro fdp!

Monday, March 10, 2008

PAPEL DE PAREDE.

Um poema pra você
é muito menos do que você.

Dois poemas depois,
ainda escuto sua voz.

Atraso o segundo e
capturo sua imagem:

só pra lhe fazer de minha
única paisagem.

Saturday, March 08, 2008

ANJO.

Distante agora e sempre
Na voz que atropela o fogo

Você soletra um nome raro
E engole as gotas que sangram

Dias escuros e novelos de lã
E gatos passando na sutileza

E alguém me prepara um jantar
Antes que eu acorde a luz

Antes que o remédio me acuda
E fique distante de tudo

Antes que eu fique mudo
E comece a babar e a tremer

Friday, March 07, 2008

a humanidade diante do computador

existe sempre um programa novo
e de programa novo em programa novo
a humanidade penetra no computador do outro
e descobre um mundo novo surgindo do ovo
e se for possível fritar um ovo no hd alheio
e descobrir na sua privacidade algo que possa
deixa-lo cômodo como um são bernardo que só surge
quando neva tanto
que o frio que iria congelá-lo, congela o micro e
é dado mais um but e o uísque quente cai sobre o teclado

ou depois de um papo chato no icq alguém disse que quer
ver você
e você é a quem deseja menos ser naquele momento
pois faz parte de uma estranha humanidade que quer só ser só

ps.:Esse poema é tão antigo q é da época do icq. Ainda existe isso?

Thursday, March 06, 2008

SÉRIE HUMANIDADE.

a humanidade diante de um caixão

uns riram
outros choraram
mas nem todos serão suficientemente grandes
para entender que aquele lugar
será de quem olha um dia
(o arsenal de pesadelos que carrega um morto
só é comparável ao oceano
e a imensidão de sonhos que não foram possíveis
de se tornarem concretos)
alguns ainda carregaram ainda âncoras de mortos em si
ainda aqueles que se acham eternos morrerão
não conheço ninguém vivo que nasceu em 1820
e queria tanto conhecer van gogh
quão íngreme e insano é o céu

Wednesday, March 05, 2008

TELA.


Tuesday, March 04, 2008

no lado de flores havia flora,havia flora em
elevado grau.dentro gente dependurada em si
feito uma gota de gardenal na ponta da agulha
de uma seringa. fora a flora amazônica. dentro
a zona sinfônica. dentro a esquizofrenia em tom
menor cinza de cigarro.


será que a vida flora é a de dentro ou a vida
dentro é a de flora.

defloro
a virgem
pétala
de
meu
eu
com
o sêmen
de
minha
loucura

Monday, March 03, 2008

DOMINGO.

Tudo é cheiro nesta esquizofrenia inoculada.
De viver cansado (e com alguém para amar)
também me canso. Este céu que eu respiro,
a quase um pulo, é todo decadência. Os deuses
todos provaram todos que não estão nem aí
para nós. Peido na farofa e sei que vou morrer
asfixiado. Tipo um suicídio quase tão presente
quanto este domingo. Quando algum efeito
colateral provocar em você (não me provoque).
Quando o quase toque vai se aproximando
sei que me afasto. Talvez não queira só um
simples contato imediato. E sim colocar na
boca coisas várias como Eros e Tanatos,
Ogum e Cristo rei: ou algum deus Inca
que não sei o nome. O que será que Platão
queria dizer ao certo não sei nada. Alguma
espada vem se esforçando para degolar-me
e a primeira coisa que quero quando chegar
é uma vitamina de banana: banana engorda e
faz crescer. Tostines só é bom fresquinho
e ele está sempre bem fresquinho e pronto como eu.

Sunday, March 02, 2008

HOJE, NO JB, UMA RESENHA DE MINHA AUTORIA.

Hoje, no JB, uma resenha de minha autoria. http://jbonline.terra.com.br/editorias/ideias/papel/2008/03/01/ideias20080301007.html

Saturday, March 01, 2008

cid.

cid desenhava no vício dos outros
fazia retratos nos papéis de cigarros
tornava ouro embalagens fúteis

ele fazia da minha ressaca de sonhos
uma calmaria na minha cama rebelde
quando esticava os lençóis

cid não era tão louco assim
mas era muito mais louco que eu
diziam os doutores da lobotomia

cid não sabia escrever muito bem
e só desenhava com giz de cera
eram tão lindos retratos que sinto

saudades de mim e saudades de cid

Friday, February 29, 2008

pergunta.

as respostas
não estão
nas hóstias

as respostas
não estão
na bula

simplesmente
não há
respostas

nenhum
deus
que se engula

Thursday, February 28, 2008

FOTO E POEMA.

se chama
chama
a si chama

alguém a
in
flama

flâmula

Wednesday, February 27, 2008

O pêssego

“e a puta engole ofensa todo o dia.”
Glauco Mattoso

nua como pêssego
disforme e inerme na compota

a puta aporta na foto
tudo sorri

algum sonho na calma-
ma-
ria
inflaciona a neurose

quão podre está a mente
que diz que a puta pode sorrir

quando goza a puta pode
amputar tudo
e cuspir a glande: grande e gigante

a puta pode ofender Gandhi
não a mim: a puta pode pagar pr,eu
um dia

a puta pode fugir da ventania
de perdigotos

sou só mais um esgoto

Tuesday, February 26, 2008

here.

here


partir do infinito
para além de ir
ficar

mico leão

comprei o mico
prendi o mico
paguei o mico

Monday, February 25, 2008

TELA.


Sunday, February 24, 2008

aceitando o sempre.

sinto
sempre
o
cerco
circundando

em
mim
metáfora
tênue
de mim

de mim
respostas
dúbias
ouvirão
todos

que
esticaram
os corpos
de meus
estilhaços

Saturday, February 23, 2008

TELAS>








4 telas, pintadas por mim, q formam uma pequena série em acrílico. Ainda sem nome.





Thursday, February 21, 2008

síndrome de plumas.

ao vento plumas
na relva escura
de minha sanidade

no tempo dunas
cobrirão meu corpo
não espero santidade

a vida roubou-me
segundo perpétuos
nas escadas da ampulheta

nos escombros de mim
fundei meu médico
na poesia da receita

Wednesday, February 20, 2008

FOTO E POEMA.


pessoa


posso
navegar

armar o céu
de mar

Tuesday, February 19, 2008

 
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