AS FOTOS CONTINUAM.








Os três patetas: Bruno, Lugão e eu.

Thursday, November 06, 2008

ENTREVISTA.

Por Ramon Mello
Com um texto atraente e incômodo, Rodrigo de Souza Leão afirma sua condição: poeta. Sua prosa está contaminada de poesia.No livro Todos os cachorros são azuis, o autor narra, através de uma experiência autobiográfica, a trajetória de um homem internado no hospício. E destaca três momentos da vida do personagem – infância, adolescência e fase adulta – para costurar uma narrativa marcada pela fragmentação do ser humano, característica que dialoga com a produção de alguns autores contemporâneos. Não leia o livro à espera de linearidade, pois é justamente a ausência dela que prende o leitor. A escrita de Rodrigo torna-se mais valorosa quando lembramos que trata-se de uma autor esquizofrênico – como ele gosta de deixar claro. O escritor tem a generosidade de mergulhar no seu rico inconsciente e nos apresentar personagens que não conseguimos enxergar em nosso cotidiano.Personagens delirantes apresentam momentos de lucidez. Rodrigo durante a entrevista concedida em sua casa, na Lagoa, apresentou o avesso de sua criação: lúcido com emocionantes instantes de delírio.Ler esta entrevista e os livros do autor é abrir uma janela a inúmeros estados de consciência, mergulhar no desconhecido, enxergar através de uma lente azul – como propõe o narrador. Desejo que Rodrigo Souza Leão tenha sempre facilidade para publicar seus escritos; os leitores agradecem.
Por que o título do seu livro é Todos os cachorros são azuis?
Rodrigo Souza Leão – Na minha primeira infância eu tive um cachorro de pelúcia azul. Depois esse cachorro sumiu e nunca mais eu vi. É forte lembrança desse tempo. Como o livro fala de três fases da minha vida, resolvi fazer o link com minha infância. Mas nenhum cachorro é azul, é bom deixar claro. Só os cachorros de pelúcia são azuis.
Você tem alguma cor predileta?
Rodrigo – Eu gosto de azul e preto.Você escreve prosa e poesia.
Como surgiu seu interesse pela Literatura?
Rodrigo – É uma história longa. Você tem tempo?
Sim, pode falar.
Rodrigo – Eu comecei escrevendo poesia. A Suzana Vargas foi minha professora na Estação das Letras. No meu primeiro dia de aula, ela pediu que os alunos escrevessem um texto para ser comentado. Mas meu texto não foi escolhido para ser lido. Fiquei muito triste. O texto era assim:
a bomba é a solução / pra essa situação / pra crise geral / pro imposto territorial
Fala dos problemas políticos do país. Depois virou um hino punk através do grupo Eutanásia, onde meu irmão tocava bateria. Meu irmão me roubou essa parte da letra e colocou na música dele. Eu nunca quis ser escritor, meu plano era ser vocalista. Na década de 80, tive uma banda chamada Pátria Armada. Fizemos show no Circo Voador, na Metrópolis, no Made in Brazil – casas de shows da época. Minha meta de vida era ser músico.Você toca algum instrumento?Rodrigo – Eu toco um pouco de violão, mas só para compor. Minha voz fica boa impostada, perdi muito poder vocal por causa dos remédios que eu tomo.
Porque você toma os remédios?
Rodrigo – Para controlar o meu distúrbio delirante, minha esquizofrenia. Aos 23 anos tive um sério problema, identificaram a esquizofrenia. Hoje em dia usam muitos eufemismos para essa doença.
A Dra. Nise da Silveira batizou a esquizofrenia de ‘inúmeros estados do ser’...
Rodrigo – Nise da Silveira é maravilhosa, uma mãe. Mas voltando aos 23 anos: Tive um problema sério quando trabalhava na assessoria de imprensa da seguradora da Caixa Econômica. Foi uma crise de estresse muito elevado. Eu já era esquizofrênico, mas nunca havia manifestado a doença. Aos 15 anos, eu achei que tinha engolido um grilo – esse episódio está no meu livro. Aos 23 anos, no dia 03 de setembro de 1989, eu fui internado pela primeira vez, se não me falha a memória. Fui internado numa clínica, que não vou dizer o nome para não ser processado. Me colocaram camisa de força, me jogaram num cubículo e me deram um ‘sossega leão’. Mas o hospício em si não é a pior coisa do mundo. Porque, geralmente, não se sabe lidar com a loucura. Para família é muito complicado, ela se ver impelida a internar. O louco quebra a casa toda, faz um monte de merda, como aconteceu comigo na segunda internação. E pra onde você vai mandar esse cara? Eu sou a favor da luta antimanicomial. Acho que manicômio não resolve o problema de ninguém, só piora. Aqui está meu irmão, que é bipolar de humor, para comprovar. Na minha casa há histórico familiar de problemas mentais. Ele teve duas internações, na segunda vez ele ficou totalmente fora de si.
Se pudesse caracterizar o estado mental em que se encontra, o que diria?
Rodrigo – Eu falaria que eu sou esquizofrênico. Isso quer dizer que sou uma pessoa que necessita de certos cuidados: preciso tomar remédios específicos, viver uma vida diferente das outras pessoas e conseguir viver dentro das minhas ‘nóias’. Tenho que saber que a minha paranóia é paranóia e aprender a conviver com ela. A palavra-chave é convivência. É a convivência com a diferença. O meu ser é diferente dos outros. O esquizofrênico tem que ter uma sensibilidade para entender que é diferente. E sobre os eufemismos, isso é besteira. Falam “clínica” ao invés de “hospício”.
Não é difícil falar e escrever sobre doença?
Rodrigo – Hoje em dia é tranqüilo. Mas teve um tempo em que eu nem tocava no assunto. Até começar a minha relação com a internet eu não falava da doença. Escrevo mais poesia do que prosa. O meu primeiro livro chama-se Há Flores na Pele, só há um poema que fala de loucura. Eu falo da doença porque nunca gostei de psicólogos. Psicologia não resolve nada. Você fica batendo papo, conversando e nada. Fiz análise dos 12 aos 18 anos e não resolveu nada. Eu já tomei eletrochoque, mas com sedação. E esse eletrochoque é muito bom porque melhora muito o doente. Sério! Não é aquele eletrochoque tenebroso que era aplicado no tempo da Dra. Nise. Aquilo era um absurdo. Quem tirou o meu irmão da fase ‘abobalhado’, durante a crise psicótica, foi esse eletrochoque.
A arte tem um papel importante na sua vida. Certo?
Rodrigo – Justamente. Eu comecei a pintar há pouco. Mas escrever é uma coisa que vem. Eu só comecei a falar após a minha segunda internação. Fui internado duas vezes em 1989 e 2001, acho. Sou péssimo com datas e números, não sei nem meu telefone decorado. Essa segunda internação foi difícil, traumática, mas foi muito boa pra mim. Eu conheci lá dentro um cara chamado Gilberto Sabá, que foi guitarrista do Serguei, e gente tocava o terror. Ele que fez aquela música: ‘Toca um, toca dois, toca três. Toca, toca, toca rock and roll...’ A gente arrumava um violão e tocava para maluco dançar. (RISOS) Eu e ele éramos as pessoas mais lúcidas. Essa clínica onde fiquei era muito bonita, cheia de flores e árvores. Costumo dizer que hospícios são lugares tão bonitos que lembram cemitério. Eu ficava muito tempo fora do quarto vendo a paisagem, vendo a copa das árvores e escrevendo algumas coisas.
Sua prosa me lembra a poesia da Stella do Patrocínio. Conhece?
Rodrigo – Sim. Uma louca, lançaram um livro pela editora Azougue. Isso acontece porque a loucura é igual para todos. O bipolar de humor tem momentos de euforia e depressão, com momentos tristes e maravilhosos. Se o bipolar tomar remedinhos, como Lithium e Haldol, ele consegue se curar em longo prazo. A cura não é imediata porque precisa da conscientização da doença. A pessoa que tem distúrbio delirante acha que está sendo perseguida por agentes e policiais. Você acha mesmo que está sendo perseguido! Eu nunca tive visões. Ou melhor, tive visões quando fiquei uns cinco meses sem comer em casa porque achava que estava sendo envenenado pela minha família. Eu só comprava comida fora, fiquei muito tempo sem dormir.
(BRUNO, IRMÃO DE RODRIGO, SE APROXIMA E COMEÇA A PARTICIPAR DA ENTREVISTA)
Você tem uma lucidez muito forte em relação a isso.
Rodrigo – Não sei se é lucidez ou excesso de sofrimento. Eu sofri muito com minha doença, só eu sei o quanto eu sofri. Meu irmão também sabe.
Bruno – Sou assessor dele.
Rodrigo – Ele é meu assessor para assuntos estratégicos. (PAUSA) O sofrimento fez com que eu tivesse um insight. Mas minha vida tem muitas limitações, por exemplo, não saio de casa, sou recluso. Tenho medo de ser perseguido por agentes. É uma coisa absurda. Você está vendo um cara lúcido dizer que tem medo de ser perseguido por agentes. Mas essa é a minha doença. O que eu posso fazer?
Bruno – Quando arranja uma namorada ele sai. Pra ir ao motel...
Rodrigo – Só saio um pouco quando arranjo uma namorada.
Você namora muito?
Rodrigo – Namorei muito até os 23 anos. Eu era muito bonito, mas não sou mais por causa dos remédios. E não vejo no relacionamento a solução para os meus problemas. Se eu quiser ficar com uma garota, ela vai ter de se adequar muito a mim. Porque o problemático da relação sou eu. É difícil conciliar uma relação com alguém que não pode sair. Gosto de ficar na minha casa vendo filme e jogos de futebol. Sou 'flamenguista doente'. Hoje em dia as pessoas só querem ir para festas e barzinhos. Eu não posso beber porque tomo remédio tarja-preta, tomo Haldol.
Bruno – Mas faz sexo...
Rodrigo – Mas isso não tem contra-indicação. Eu já tomei muitos remédios. Mas me dei bem com esse remédio, embora dê tremor, mão fria e salivação. Você é formado em Jornalismo.Rodrigo – Sim. Me formei em Jornalismo pela Faculdade da Cidade (atual UniverCidade). Eu não consegui me formar por uma faculdade federal, mas tive bons professores: Fernando Muniz, Lúcia Padilha, Ítalo Moriconi... Tive uma formação muito interessante. Meu lance nunca foi jornalismo, eu queria ser locutor de rádio. Ouvi muito a Rádio Cidade e a Rádio Fluminense com Maurício Valladares. Mas o que restou na minha vida foi escrever. O que sobrou? Escrever. Eu já fazia letra de música, depois passei a escrever poemas. Acredito que algumas letras de música são poemas.
Há letristas que são poetas.
Rodrigo – Sim. Caetano Veloso, Arnaldo Antunes, Gilberto Gil e Chico Buarque são maravilhosos.
Você sempre gostou de ler?
Rodrigo – Não. A leitura foi um hábito que adquiri após minha primeira internação. Eu fiquei muito tempo em casa e devorei Proust e James Joyce. Li muito o Rubem Fonseca, gosto muito dele.
Você tem um livro de poesia chamado Carbono Pautado – memórias de uma auxiliar de escritório.
Rodrigo – Sim. Mas esse livro só foi importante para que eu pudesse ver como foi a minha vida.Sua escrita é muito fragmentada, uma característica muito presente no texto dos autores contemporâneos...Rodrigo – Nós vivemos em tempos esquizofrênicos. Muita gente tem depressão ou síndrome do pânico. É uma sociedade que está doente porque dá valor ao que não se deve: o dinheiro. O ser humano viveria muito mais se parasse com essa babaquice de querer dominar o outro.
No seu livro, Rimbaud e Baudelaire são influências?
Rodrigo – Mais Rimbaud do que o Baudelaire. Li a obra completa do Rimbaud, que é bem curta. Gosto muito da "Canção da Torre Mais Alta":
Juventude preza / A tudo oprimida / Por delicadeza /Perdi minha vida.
Acho essa poesia sensacional! O Rimbaud é muito presente na minha vida. Eu tive muitos livros. Mas teve uma época em que eu achei que ia morrer, então fiz uma grande liquidação de livros. Peguei todos os meus livros, separei, dei os que eu queria dar e vendi todo o resto. Dei um disco incrível do Roberto Carlos, Nas Curvas da Estrada de Santos, para um cara que estava num sebo.
Bruno – Meus discos do Iron Maiden foram juntos...
Rodrigo – É, os discos do meu irmão, que gosta de heavy metal. Eu só fiz essa grande liquidação porque eu achava que fosse morrer. Mas eu sobrevivi. A minha condição de vida é a seguinte: vivo o presente. Como estou vivo, faço um melhor dia pra mim. Eu não faço projeto a longo prazo. No edital da Petrobras eu deixei claro que o meu livro estava quase todo pronto e eles aceitaram assim mesmo. Mas o meu livro foi rejeitado pela Casa do Psicólogo. Eu pensei: Nem os psicólogos estão do meu lado? Logo na Casa do Psicólogo? Num lugar em que eu deveria ser tratado a pão de ló.
Mas você conseguiu aprovação na Petrobras.
Rodrigo – Esse projeto foi muito importante. Eu não tinha dinheiro para bancar meu livro. Apesar de viver nesse apartamento na Lagoa e parecer rico, não tenho muita grana. O dinheiro vai para serviços, remédios e outras despesas. Fui aposentado por invalidez aos 23 anos, não recebo muito. Eu consegui publicar graças à Petrobras e à 7 Letras. Mas no início a Petrobras não acreditou muito, mandaram duas psicólogas para me avaliarem. Elas diziam: ‘Ele tem problemas cognitivos, problemas X, problemas Y’. Foi ótimo porque depois dessa avaliação “não preciso” ter mais problemas.
Você é otimista em relação a sua carreira de escritor?
Rodrigo – Não. Mas acho que fiz um livro bom, intenso e mágico. Estou escrevendo outro livro: Tripolar, um livro de mais confronto com a linguagem. São três novelas que não se comunicam. Tenho uma postura positiva, mas não sou ufanista em relação a vida. Não acho que vou viver de literatura. Mas acredito no que eu faço. Vou ganhar prêmio? Isso é imponderável.
Bruno – Vai ganhar o Jabuti.
Rodrigo – Não vou ganhar.
O que é mais importante na sua vida?
Rodrigo – O mais importante, no momento, é eu não saber o que é a coisa mais importante na minha vida. É saber colocar importâncias variadas. É importante que eu continue estável e consiga viver o máximo de tempo possível.
Você quer viver muito?
Rodrigo – Não. Eu espero viver pouco. Se eu conseguir viver até 50 anos ficarei contente. Porque viver muito é para quem não tem problemas. Quando a pessoa tem muito problema é até melhor morrer cedo porque se livra um pouco dos traumas e angústias. Sou uma pessoa muito traumatizada. Mas feliz! Eu sou feliz. Posso dizer que sou muito feliz, mais feliz que a grande maioria das pessoas. Eu sou feliz. Eu não estou realizado porque ainda estou no meu primeiro livro. Estou na batalha para publicar um livro há muito tempo, desde os 27 anos.
Você acredita em Deus?
Rodrigo – Por muito tempo eu li Nietzsche: Assim falou Zaratustra. Li todos os livros de Nietzsche quando eu tinha vinte e poucos anos, eu adorava filosofia. Então a minha relação com a religião é mais calma. Eu rezo três orações antes de dormir, minha avó que ensinou: Oração a São Miguel de Arcanjo, Pai Nosso e Oração a Nossa Senhora da Cabeça.
Salve Imaculada, Rainha da Glória, Virgem Santíssima da Cabeça, em cujo admirável título fundam-se nossas esperanças, por sedes...
Agora está me faltando, não estou conseguindo lembrar.
Sem problemas.
Bruno – E ele vê a Igreja Universal do Reino de Deus, todos os dias comigo no quarto.
Rodrigo – Só vejo porque ele vê. Isso não tem nada a ver. Não vejo Igreja Universal.
O que é a morte?
Rodrigo – Eu torço para que exista algo além. Gostaria de ver o que as pessoas acham de mim quando eu estivesse morto. Sabe? A reação das pessoas. Para saber se meu melhor amigo iria chorar, se alguma namorada ia lembrar de mim, se meu livro ia vender depois de morto... Por que depois que morre todo escritor vende.
O que é loucura?
Rodrigo – Isso é engraçado. Porque quando se é um louco folclórico, cheio de indumentária e adereços – tipo Bispo do Rosário, Plínio Marcos, Gentileza –, aí ele é bem-vindo. Eu quero acabar com esse folclore porque eu me visto como uma pessoa normal. Não tem como definir loucura. Loucura é uma coisa perigosa de ser definida, por isso as pessoas falam tão pouco. As pessoas têm uma idéia mitificada da loucura, o Michel Foucault falava disso. Definir loucura é não saber como se está no mundo. Não posso crer que só existam loucos como eu, que têm noção do que é a doença. Têm loucos como o Bruno, que são menos capacitados a isso. E também têm os agressivos. Acho que os hospícios não deveriam misturar os loucos. Assim as clínicas se tornam um depósito de gente. Os oligofrênicos deveriam estar separados dos outros loucos. Eu não vou ser mais internado, eu acho. Vou ser internado só no cemitério do Caju. (RISOS).
O que é a vida?
Rodrigo – A vida é excepcional. É o lugar onde tentamos construir sonhos. Vida é algo que foi dado e só você pode tirar, se você se suicidar. Ou Deus, que também pode tirar. Mas nem sei se Deus existe. Eu sou meio revoltado com Deus. Por que eu fui nascer esquizofrênico? Por que eu não nasci mais alto como o fotógrafo (Tomás Rangel). Eu nasci com 1,70. Eu queria 1.85. (RISOS) Ramon também faz parte da família dos ‘gnomídios’. Você deve se achar um anão. (RISOS).
Por que escrever?
Rodrigo – Escrever foi o que me sobrou. De tudo que tive, foi o que me restou a fazer.
A escrita trouxe vida?
Rodrigo – A leitura me trouxe vida. Eu lia o Proust, anotava umas palavras num papelzinho e no final do dia fazia um poema. Saía uma coisa sem pé nem cabeça. Na prosa eu trabalho o psicológico dos personagens.
Sabe alguma poesia de cor?
Rodrigo – Sim. Vou falar:
“Mulheres”Canetas compro e somem / Não são mulheres num só homem.
E tem outra que eu gosto:
“Surto”
Pânico no circoaladodas têmporas
Endorfinas macaqueando
a goiabada pineal
Volts em volta
Eletrodos todos
De branco culpados
culpas pecados
Haldol no leite
Ralo do tempo
Clitóris de plástico
na sopa de adrenalina
Nódoas nuas cristalizadas na nuca
Nunca injete tudo
Camisa sem mão sem mangas
Nos olhos apenas antolhos
Na janela áurea de peristilos
punção de morte fode
Peixes fisgando anzóis comicham no corpo
Baleias de chupeta
Na veia sossegada o leão caminha
inválido de juba cortada, cuspindo
vida curta
Em curto circuito fechado
faixas vendas ferem as paredes
Sem degraus as pilastras
Sem grade degrade
Degradado de sol
de lua
Chuva desbotada
Eletrochoque natural
Enguias guiam os volts
na cabeça dos cegos de si
Que escritores você admira?
Rodrigo – Gosto do João Gilberto Noll.
Há quem pense que ele é esquizofrênico.
Rodrigo – Sério? Então ele não se assume? (RISOS). Sai do armário, Noll! Gosto do Wilson Bueno e do Ademir Assunção – adoro o livro Adoráveis Criaturas Frankstein.
O que você diria para um jovem que deseja ser escritor?
Rodrigo – Primeiro: Viva ao máximo! O que importa são os momentos. Se o livro for rejeitado, não desista! Se você gosta de escrever, então escreva para você mesmo. Eu só fui publicado quando escrevi para mim mesmo.

Wednesday, November 05, 2008

MAIS FOTOS - A MISSÃO 2


Eu e Marcos Lugão

Sob a proteção do Core.

ENTREVISTA NO PORTAL LITERAL. CONFIRA.

Fragmentos humanos - Entrevista com Rodrigo Souza Leão

Por Ramon Mello

Com um texto atraente e incômodo, Rodrigo Souza Leão afirma sua condição: poeta. Sua prosa está contaminada de poesia.No livro Todos os cachorros são azuis, o autor narra, através de uma experiência autobiográfica, a trajetória de um homem internado no hospício. E destaca três momentos da vida do personagem – infância, adolescência e fase adulta – para costurar...

Tuesday, November 04, 2008

FOTOS DO LANÇAMENTO I - A MISSÃO.

cascata de cachorros com telas ao fundo

Eu e Serjão

Elaine Pauvolid, Dulce e eu

sócio-atleta do Pinel

O CÉU ESTÁ MORTO.

Por Victor da Rosa

O olho que narra é azul e vê tudo a seu modo – na falta de nome, quase nada, água: todas as coisas azuis. Desaparece a distância que antes separava o olho e as coisas: azul. A voz assim desaparece nas coisas. O céu está morto.

Certa distorção cromática nomeia de início a primeira novela do escritor Rodrigo de Souza Leão: Todos os cachorros são azuis (7Letras, RJ, 78 páginas)– e talvez reflita de início a imagem que atravessa toda a narrativa: um cachorro azul, de pelúcia, objeto afetivo de infância, que retorna em vários momentos do livro, quase sempre como uma falta, mas se derrama também para a imaginação de um cenário deformado e delirante. “Eu não tinha culpa de ver a luz das coisas”, diz o narrador. Em linhas gerais: trata-se de um sujeito que narra sua experiência em um hospício – e, segundo as palavras de Sérgio Medeiros, que assina a orelha do livro, estamos diante de uma experiência autobiográfica.

Parece haver durante todo o livro uma variação narrativa entre o delírio mesmo e instantes de lucidez, se aceitamos esta dicotomia – e o comovente (ainda devemos pensar esta palavra em sua literalidade: como aquilo que move junto, arranca o leitor de seu lugar) é que isto não nos é representado, mimetizado por uma voz que acompanha todo o acontecimento em sua distância, e sim narrado pelo corpo mesmo no interior da experiência. Há um sujeito implicado em tudo. Desta maneira, a escrita abandona sua função de entendimento e passa a se constituir enquanto marca na página: cisão. Em outras palavras: a prosa de Rodrigo talvez não aconteça na continuidade, ou no retorno – características fundamentais da prosa - mas principalmente no corte.

continua em http://www.cronopios.com.br

Sunday, November 02, 2008

UMA PAUSA NOS CACHORROS PARA CORTAR O CABELO POR CRISTINA CARRICONDE.















Dizem que com este cabelo fico com cara de louco, mas eu sou louco!!!!!!!!! A Cristiana Carriconde {fotógrafa} acha o clima das fotos meio o do filme "O iluminado". Caos. Crise.

Saturday, November 01, 2008

LOCAIS ONDE O LIVRO PODE SER ENCONTRADO.






http://www.paubrasil.com.br/descricao.asp?cod_livro=L10793

http://www.livrariacultura.com.br/


Arlequim
Praça XV de Novembro, 48 Parte 01
Centro (21) 2220-8471

Bolívar Cultural
R. Bolívar, 42 Loja A
Copacabana (21) 3208-3600

Dona Laura
Av. Vieira Souto, 176
Ipanema (21) 2522-8362


Entretexto Livraria
R. das Laranjeiras, 363 Lj. B
Laranjeiras (21) 3502-9440


Livraria do Museu
R. do Catete, 153
Glória (21) 2556-5828

Moviola
R. das Laranjeiras, 280 Loja C
Laranjeiras (21) 2285-8339


Ponte de Tábuas
Rua Jardim Botanico 585 A e B (21) 2259-8686

Prefácio
Rua Voluntários da Patria 39
Botafogo (21) 2527-5699

Timbre Livraria
Rua Marquês de São Vicente 52 loja 221
Gávea (21) 2274-1146

Wednesday, October 29, 2008

OVERDOSE DE CACHORROS. MAIS TRECHOS.

Uma vez, virei uma planta por uma hora de sessão. A mulher pensou que eu estava em estado catatônico. Ela ficou nervosa. Foi a mesma coisa que fiz com uma namorada, e ela teve a mesma reação. Fiquei sem falar e parado. Como se tivesse engolido uma baleia. Durante uma hora, a baleia que estava dentro, estava fora, e eu vivi preso dentro de um manicômio. Os manicômios são lugares muito bonitos. São lugares com muitas flores e árvores. Não fiquei num lugar cinco estrelas, também não fiquei no pior lugar, mas vi muita coisa quando Alfonso me dizia que ia para Paracambi. Paracambi é aqui.

Monday, October 27, 2008

RESENHAS.

Há duas resenhas no cyberespaço sobre o meu livro Todos os cachorros são azuis:

A primeira em Cronópios:
O céu está mortoO ensaísta Victor da Rosa estréia no Cronópios escrevendo sobre o livro Todos os cachorros são azuis, de Rodrigo de Souza Leão.http://www.cronopios.com.br/site/resenhas.asp?id=3604

A segunda em Amálgama:

http://www.amalgama.blog.br/ Clicar em literatura.

Visitem e o abraço amigo
do Rodrigo

Sunday, October 26, 2008

MAIS FOTOS.

Suzana e seus olhos azuis que estão no livro.

Dulce, Bruno, Minha tia Rita e eu não tô tão gordo assim.

Friday, October 24, 2008

FOTOS TIRADAS PELA FAMÍLIA.

Eu e Suzana
Todos os cachorros são azuis mesmo.





DIA 18. NO PLAY.

O lançamento do livro foi bem legal. Amigos presentes, família e etc. Fiquei calmo dentro de minha tensão e tudo correu bem. A fotógrafa Cristina Carriconde foi me prestigiar e tirou algumas fotos. Em breve serão postadas aqui. Obrigado a todos que estiveram presentes. O livro agora está à venda no site da 7Letras: http://www.7letras.com.br/detalhe_livro/?id=691
Inclusive há uma resenha escrita por Daniel Lopes sobre meu pequeno livro.
Coisa boa: NÃO PRECISEI TOMAR RIVOTRIL OU LEXOTAM. TINHA-OS NO BOLSO.

Wednesday, October 22, 2008

RELEASE DO LIVRO.

Todos os cachorros são azuis apresenta uma narrativa fragmentada e vertiginosa com toques de sarcasmo, crítica e humor. O romance, dividido em quatro partes, conta a história do protagonista desde a internação em um hospício até a sua saída e a fundação de uma nova religião.
A escrita hábil de Rodrigo de Souza Leão permite que a leitura vá muito além da superfície, e apresenta, através do ponto de vista do paciente, uma visão apurada da sociedade, família, política e o tratamento dado aos internos dos hospícios.
Permeando os pensamentos do personagem, os flashes de sua infância e adolescência aproximam ainda mais o leitor de um mundo profundo e complexo, pouco tratado na literatura com tanto talento e seriedade.

A primeira liberdade é sair do cubículo. A segunda li­berdade é andar pelo hospício. Liberdade, só fora do hospício. Mas a liberdade mesmo não existe. Estou sem­pre esbarrando em alguém para ser livre. Se houvesse liberdade o mundo seria uma loucura com todo mun­do. Eu podendo sair por aí com Rimbaud e Baudelaire. Viajando pra Angra dos Reis.
ISBN 978-85-7577-519-6
80 páginas R$ 25,00
onde comprar: www.7letras.com.br

Tuesday, October 21, 2008

ORELHA DE “TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS”.

Gênero não prende mais Rodrigo de Souza Leão, que, neste admirável Todos os cachorros são azuis, narrativa de estréia do autor, passa por muitas maneiras de narrar, sem se fixar em nenhuma. Por isso, é difícil etiquetar esta narrativa autobiográfica, filiando-a a uma única tradição: decerto é um diário e um libelo contra a doença mental, aparentado com o consagrado romance Hospício é Deus, de Maura Lopes Cançado, porém, é também um relato policial desconcertante, como o Molloy, de Samuel Becckett. Um crime é cometido, mas o crime ocorre no hospício, o assassino e sua vítima são loucos e quem narra a história é um esquizofrênico com distúrbio delirante, como ele mesmo o declara. “A vida é assim: louco com louco”, diz um dos muitos aforismos saborosos que povoam a narrativa.
O humor é um traço a ser destacado, um humor freqüentemente desabusado, cuja inspiração são as histórias em quadrinhos e as comédias antigas, como as do Gordo e o Magro. Todos os homens e todas as culturas convivem no hospício, um lugar amplo e florido, mas que longe está de ser paradisíaco: é lindo como um cemitério. Ali, entre numerosas citações literárias, cenas de filmes e telenovelas, clichês, grosserias e delicadezas, deparamos, num dos pontos altos do livro, com uma alegoria carnavalesca, carioca: o hospício é a modernidade “louca”, a América Latina de hoje. Baudelaire, um dos personagens mais sombrios deste texto, assiste, mas “não deixa seu olhar fundar a modernidade” – já estamos na pós-modernidade terceiro-mundista.
Num tom cada vez mais alucinado e contagiante, a narrativa conclui com chave de ouro: entre ficção científica e fábula nonsense, Rodrigo cria uma impagável linguagem inumana, digna de Lewis Carroll. É a língua que um promissor líder religioso, curado ou ainda mais louco, divulga para seus infinitos adeptos, cada vez mais fervorosos: os humanos e os não-humanos da América do Sul enfim se irmanam – e uma catástrofe sobrevém. Como o leitor descobrirá.

Sérgio Medeiros

Monday, October 20, 2008

HOJE É O LANÇAMENTO DE MEU LIVRO.



Botaram tubos em mim e começaram a fazer sucção. Fui abduzido por extraterrestres.
Eu via uma luz passando pelo meu corpo de menino de cinco anos e segurei meu cachorro azul. Desmaiei por alguns segundos. Depois Fronsky estava lá.
Voltaremos para te buscar quando você tiver 18 anos.
Macas por todo o campo. Gente andando com soro dependurado. Tubos saindo da boca de extropiados. Tudo ali era Acneton. Da minha veia, tiraram o meu sangue. Eu agora estava indo tirar uma chapa torácica. Como é que um cara gordo como eu pode sofrer com algum problema que não seja obesidade? Eu deveria estar num spa, e não no Miguel Couto com aquela crise de dengue. Uma samambaia começou a crescer do meu lado, feito um pé de feijão. Eu fui subindo as escadas, ancorado por dois médicos fortes e gordos como eu. Havia toda aquela gente pobre, superpobre: aquilo era o Brasil. Uma zona total. Gente caída no chão. Gente chegando morta. Gente morrendo. Uma fileira de corpos deitados com etiquetas nos pés. Todos munidos de seus prontuários. E aqueles médicos tão jovens, que não sabem muito mais do que eu sei de biologia, fazendo gozação com a sua cara.
Olha que cara gordo!
Que homem gordo!
Que baleia!

Saturday, October 18, 2008

TRECHO DE TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS.

Quando cheguei em casa nunca havia ouvido tamanho silêncio no meu quarto. Havia recebido alta há poucas horas. Dessa vez o nosso carro não foi seguido por ninguém. Não via Rimbaud e Baudelaire há alguns dias. Quando se têm companhias tão fortes assim, e se tem uma vida em comum, sentimos falta dos amigos. Meu cachorro azul estava lá, encardido pelo tempo, contando muitas histórias.
Andava pela casa e me sentia um ser livre. A liberdade estava nas pequenas coisas: ver os e-mails, abrir a geladeira. Agora era preciso ser mais saudável. Abrir as coisas. Fui abrindo a caixa de fósforos. Abri o gás. Abri o fogo. Abri a caixa com incenso. Fui abrindo, abrindo, abrindo como se estivesse abrindo e descobrindo as coisas pela primeira vez. Parecia que tinha ficado um século fora de casa. Estava tudo igual, mas diferente.
Era uma borboleta borboleteando pelo campo minado, pela zona de força, pelo local onde ocorreram todos os meus escândalos. Estava de volta à minha vida.
Botei uma pizza no forno. Finalmente, ia comer alguma coisa que me apetecia. Devorei a pizza feito um viking comedor de codornas assadas. Depois, deitei-me pra dormir.
Os remédios me faziam tremer e babar.
A noite chegou veloz. Bati um prato de legumes e salada, de lanche. Fui para o meu quarto e dormi.

Friday, October 17, 2008

Lançamento de meu livro. Dia 18.


Thursday, October 16, 2008

O TEMÍVEL LOUCO E OS CACHORROS.

O Temível Louco começou a comer tudo o que via. Mordeu a falangeta de um outro louco. Foi repreendido por enfermeiros. Todos os enfermeiros eram gordos. Os que não eram gordos eram fortes.
Eu sempre dava um cigarro para um louco que, na hora do almoço, dava cabeçada nas paredes. Imagina se esse doido fosse jogador de futebol. A cabeçada dele ia ser poderosa. Acostumado a cabecear paredes, ele ia estourar todas as bolas que cabeceasse. Quem sabe a seleção brasileira não o convocaria?
Toma um cigarro. Fuma o cigarro todo. Vê se não dá mais cabeçada na parede.

Wednesday, October 15, 2008

MAIS TRECHOS DE TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS.

Um dia completei um triatlo e terminei entre os primeiros da minha categoria. Estou gordo agora e dormindo como no dia do triatlo. Vivo sedado e cheio de doses altas de remédio na veia. Tudo para ser invadido por uma música, tudo pra manter a boa ordem do estado. Somos a minoria, mas pelo menos eu falo o que quero.
O bom do cachorro azul era que ele não crescia e não morria. O negócio era eu cuidar para que ele não envelhecesse. No ano 2000, vou ter 35 anos. Estarei tão velho que mal saberia disso. Eu escovava a pelúcia do bicho. O cachorro azul era a minha melhor companhia. E se existisse mesmo um cachorro azul? Seria do grande caralho ter um. Será que se ele tivesse um filho, nasceria azul também? Se ele pudesse latir e pudesse comer, o que comeria um cachorro azul? Alimentos de sua cor? E quando adoecesse, tomaria remédio azul? Muitos remédios são azuis, dentre eles o Haldol. Eu tomo Haldol para não ter nenhuma ilusão de que morrerei louco, um dia, num lugar sujo e sem comida. É o fim de qualquer louco. Uma oligofrênica, dos seus setenta anos, uniformizada, surge diante dos meus olhos e me dá um beijo na boca. Vejo estrelas cor-de-rosa. Elefantes carregando Rimbaud na África. Verlaine comendo sua mulher, mas pensando em Rimbaud. Eu estou pensando em Nastassja Kinski e seus seios pequeninos em flor. Eu estou no lado escuro e mal posso me mover, mas dá para eu me masturbar muito devagarinho. Eu gozo e minha mão fica toda branca, tomada de sêmen. Minha mão vira uma luva branca. Eu acordo às cinco horas da manhã com o esporro colossal de um enfermeiro. Durmo mal. Acordo mal. Não sei qual dos dois pesadelos é o pior: acordado ou dormindo. Saio da jaula. Já estou na jaula há um bom tempo. Quando me tirarão de lá e me deixarão ficar com os outros? Entro na fila para tomar um café da manhã. É um café com leite que tem mais água do que leite e um pão com uma passada de manteiga na ida. Eu pago para estar neste lugar, mas só a ida da faca com manteiga no pão está nos custos. Hoje eu acordei querendo dizer coisas bonitas. Aproveitei um pouco de tempo que me deixaram livre do lado de fora e apanhei uma flor no jardim. Levei a flor para o quartinho. O enfermeiro encrencou com a flor. Deu-me outro esporro.
O LIVRO PODE SER COMPRADO NO SITE DA 7Letras: http://www.7letras.com.br/

Tuesday, October 14, 2008

SEMANA DE LANÇAMENTO DO MEU LIVRO TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS.


Tudo ficou Van Gogh


Engoli um chip ontem. Danei-me a falar sobre o sistema que me cerca. Havia um eletrodo em minha testa, não sei se engoli o eletrodo também junto com o chip. Os cavalos estavam galopando. Menos o cavalo-marinho que nadava no aquário.
Ele tem um problema mental. Será que tem alguma seqüela? No fundo deste meu mundo, lá no quarto escurecido por doses de Litrisan, veio um psiquiatra e baionetou uma química na minha celha esquerda. Enquanto outro puxava a minha banha, esticando e esticando para que não sentisse a injeção de Benzetacil.
Benzeta.
Benzeta.
Uma dor imensa na bunda. Tudo girando ao meu redor e eu girando também. Tiro uma meleca e coloco na mesa do canto, bem longe da escuridão no quarto. A escuridão é asséptica. Só o pessoal de branco pode freqüentar aquela linha impura. Seguram-me de novo. Recebo o beijo de minha mãe. Deve ser dia de visita. Acordo e como uma lasca de goiabada com o sanduíche de atum que mamãe trouxe para mim. Escuto uma música tão alta que não entro nos meus pensamentos e estou fora, agora a cocaína não vai chegar. A conexão foi interrompida.
Mamãe mal chega, mal vai.
Ele continua achando que engoliu um chip.
Ela diz que tudo começou há uns dez anos, quando eu achei que havia engolido um grilo.
Quantos grilos você me fez engolir, filho.
Minha mãe disse isso afagando meus lábios e me dando um beijo na bochecha. Por alguns segundos lembrei-me de algo que havia acontecido no dia anterior. Eu havia quebrado toda a casa com uma fúria gigantesca. Nunca mais tomo Haldol na minha vida.
Foi por você não ter tomado o Haldol que você ficou assim, diz o chip. E eu começo a falar: Só no Anhembi é tupi. Só no Anhembi é tupi.
O engolidor de espadas engole uma nesga de fogo por vez. Tá todo mundo engolindo alguma coisa neste exato momento. É hora do jantar. Mamãe se foi. A música volta a me colocar fora de mim.
Entro no quarto. Tiro o pau pra fora e começo a bater uma punheta. Dança da motinha. Dança da motinha. Eu engoli um grilo quando tinha meus 15 anos de idade. Foi a primeira vez que consegui conviver comigo mais intensamente. Salvei uma casa do cupim maldito que queria destrui-la. Eram cupins gigantes. Tenho certeza de que salvei aquela casa. Tenho certeza de que por alguns segundos fui Jesus Cristo.
Ainda continuo na jaula. A minha boca está fechada com uma mordaça. Meus pés estão presos.

Monday, October 13, 2008

O PUMA.

1
criar é espetar o silêncio
ouvi-lo gritar de dor e continuar
a tirar do ar: o silêncio

nunca me ouço quando escrevo
a não ser quando não sou, sou
se sou alguma coisa não é pra mim

eu sou um nada cheio de nadas
e cortes e nervuras e tonturas
que me torturam e a quem me lê

escravo do que digo: não me esquivo
no que sei pois se sei nada: tudo serei
breve encanto no olhar do puma

breve vôo de chão da pluma

2

no olhar do puma
há um desejo enorme
pelos bolos pullman

no olhar do puma
algo que me guia
como um ima-

nhã

no olhar do puma
um desassossego
como um olhar fóssil

filho do inexato
no olhar do puma
que me olha dócil

mente

quer olhar pra mim
para burilar-me
no infinito suado
daquela chuva

pois quando me atacar
que azar

darei asas ao quasar

fugirei do puma
sairei dessa para uma

mônada melhor

Friday, October 10, 2008

Lançamento de meu livro. Dia 18.


Tuesday, October 07, 2008

NU.


Sobre tudo
o sobretudo
não sabe nada
Sobre corpo
o sobretudo
caiu bem

Sunday, October 05, 2008

ALGUNS.

Não adianta nada
Ser
Uma grande
Pessoa
E um péssimo
Artista

Não adianta nada
Ser
Uma péssima
Pessoa
E um grande artista

Adianta menos ainda
Ser
Um péssimo artista
E uma péssima
Pessoa

Saturday, October 04, 2008

O NADA AO QUADRADO.

Roubaram os óculos de D.
Na praia ele já não vê o mar.

Também, por que está de costas
para as ondas ou meio de lado?

D. está de pernas cruzadas q
se misturam como se fossem

uma só. Que se desequilibram
equalizando: toda madrugada é

uma só. Passo por ele e sento ao
seu lado. Dou uma topada numa

pedra portuguesa quando levanto
e digo tchau. Empresto-lhe meus

óculos. Mesmo assim ele não me vê
e nem o mar que é todo você.

Thursday, October 02, 2008

OVO.

Ela eu nunca disse
Algo raro enigma
Talvez apenasmente
Possa saber agora
Que o que circunda
A noite azul é outra
Coisa como ela é
Talvez ouvir seja a
Parte que lhe falta
Mas só estar lendo
Já parece algo novo
Agora é colocar pêlo
Em cabeça de ovo

Tuesday, September 30, 2008

OLHOS.

O infinito é tão lindo
que esquisito eu me sinto.

O infindo me aflige ao
saber que o que é lindo

também é findo e
tem o fim onde meu olhos

não podem tecer o horizonte:
olhos diante de minha fronte.

Sunday, September 28, 2008

poeira.

na tomada fico bem
o led vai e vem
vermelho ascende o branco
mente
quando não tem o pó
do tempo

Saturday, September 27, 2008

comi.

como
luar desesperado em engolir o fim das escarpas
como
habitat do dinossauro que engolia flores
tudo
está esquálido na tela de meus olhos
tudo
esqueleto de computadores fazendo a minha engrenagem
fim

Thursday, September 25, 2008

VEM AÍ!


Tuesday, September 23, 2008

ana conda anda sobre as ondas.

alguém como
não sabe quem
pode dizer
o que quer

somente só
poderá querer
um falar
tubular

feito onda
feito mantra
ana conda

abril.

Pegou uma lâmina de barbear e escreveu depois de cortar os pulsos:

a lâmina percorre entra e depois perfaz algum hiato cândido que outrora ressaca de si já foi para outro mar de ardósia arder nefastos crimes como quem teceu sua troca

a lâmina ardeu urdiu semipousou na mão do alicate que a manuseando como uma pinça foi incisiva ao ponto g e futucando arrancou-lhe as orelhas poros ventas e ventanias que colocou no colo de um tigre de bengala

a lâmina tinha só o dom de percorrer aqui e ali aquele bigodinho de casimira que se abria em meio à boca de uma pica nua de si e sem perdigotos brancos por perto e algum escarro verde ou lacrimogênio desterro em fezes se acabou

a lâmina serviu para dar o principal caminho para as balas perdidas que refletidas em si despencavam bolinhas de sabão e saíam gotas cristalizadas de algodão doce

Falou para o que só ouvia:

— Escuta espelho. Abril entrou pelas pupilas trazendo um jogo cedo do vento que invadia que dizia que tremia muito pelas cortinas de enguias e volts e palavras na testa do ontem. Alguma notícia circundou o jornal, mas não entrou ali de última hora somente a manchete escarrando o sangue no café da manhã melita: medito editando sempre as faíscas de pensamento que surgem com aquele homem detrás do outro e além do outro. É a verdade e a outra verdade e a outra verdade — sem se comunicar não dão um samba bom o positivo punque de boutique que seja um pouco positive punk. Agora o agora sucumbe ao inerme e exato circo dos sistemas e dilemas como se a angústia decalcada e podre fosse somente só somente angústia só somente só somente só assim vou lhe chamar assim você vai ser melita e mais café no leite e leite quente na refeição que é bom: e o queijo no café e no café o queijo fétido e aquele queijo com o verde do escarro e aquela verde cor-de-palmeiras e da cor do sistema brasileiro de emblemas — o sbe. Sonho de uma noite. Sete de abril de 2000. Acordo e idéias subtraem idéias. A gente vive muitas angústias na vida. Se uma mulher que se diz minha não quer beijar a minha boca porque se diz triste e porque diz que estou fedendo quando tomei um banho por ela para vê-la e receber seu beijo. Será que a morte me beijará antes que você? Quanto será que custa um beijo na boca? Não consigo entender por que uma mulher não quer beijar a minha boca. Devo eu estar com problemas e será que os problemas são meus ou ela estará fingindo que se apaixona pela pessoa certa e só se apaixona pela pessoa errada. Acho que é hora de romper com uma amizade que está sendo o que o outro quer, mas não o que eu quero. Tudo muito marasmo, muito coisas assim: totalmente liberdade pra ela e nenhuma liberdade pra mim. Ela me prende e não deixa que eu saia de mim mesmo eu não me iludo e eu sei que não há futuro para nós e muito menos para mim. Será que juntos vamos viver mais ou menos ou será que este discurso louco é louco demais para o meu tempo louco? Eu me sinto muito pequeno quando quero pedir um minuto de sexo e não sei se eu sou tão pequeno porque penso em sexo se eu gosto de sexo e se é no sexo que eu me sinto bem com ela. Já não tenho assunto pelo telefone. Não sei mais conjugar os verbos e eu fico pensando se ao invés de falar ela estivesse me usando sexualmente porque quero ser usado desordenadamente como esta fala mal falada, entende?

— Entendo.

— Entende o quê?

— Sou pago para entender.

Então o que falava levantou-se e pegou o que só ouvia pelo braço e deu-lhe um beijo na boca. Saíram camundongos pela orelha do que só ouvia que disse:

— Caralho do céu. Saiu um bacuri morto do meu ouvido.

— No seu ouvido só entra — disse o que só falava.

O que só falava sentou a porrada no que só ouvia que a esta altura falava:

— Eu não falei nada.

O espelho quebrou-se. O que só falava e o que só ouvia eram a mesma pessoa. 13 anos de azar porra.

tudo o uvirou sangue ouvirá impávi doqnem sangue

a lâmina percorre entra e depois perfaz algum hiato cândido que outrora ressaca de si já foi para outro mar de ardósia arder nefastos crimes como quem teceu sua troca

a lâmina ardeu urdiu semipousou na mão do alicate que a manuseando como uma pinça foi incisiva ao ponto g e futucando arrancou-lhe as orelhas poros ventas e ventanias que colocou no colo de um tigre de bengala

a lâmina tinha só o dom de percorrer aqui e ali aquele bigodinho de casimira que se abria em meio à boca de uma pica nua de si e sem perdigotos brancos por perto e algum escarro verde ou lacrimogênio desterro em fezes se acabou

a lâmina serviu para dar o principal caminho para as balas perdidas que refletidas em si despencavam bolinhas de sabão e saíam gotas cristalizadas de algodão doce




Thursday, September 18, 2008

A cidade tem cheiro de puteiro
O puteiro tem cheiro de banheiro
O banheiro tem cheiro de esgoto
O esgoto tem cheiro de morto
O morto tem cheiro de rato
O rato tem cheiro de mato
O mato tem cheiro de bosta
E mesmo assim todo mundo gosta

O pão tem cheiro de mofo
O mofo tem cheiro de patrão
O patrão tem cheiro de estado
O estado tem cheiro de ladrão
O ladrão tem cheiro de roubada
A roubada tem cheiro de privada
A privada tem cheiro de bosta
E mesmo assim todo mundo gosta

Todo mundo gosta da própria bosta

Tuesday, September 16, 2008

A GOTA SUSPENSA PELO MEDO.

A concha guarda em si segredos
E todo o mar do mundo
Cabe dentro dela

A garrafa jogada ao mar
Leva uma carta

A mensagem veio anexada
Com um vírus
Que não tinha cura

A concha A garrafa A mensagem
Estão para o mundo
Assim como os devaneios estão para os medos
Sempre contendo algum segredo alguma onda
Outra agonia

Por isso há que se ter cautela com a navegação parada
De uma vaga suspensa pelo fogo
No fogo dessa lareira que nunca se apaga

Sunday, September 14, 2008

EXPLOSÃO.

Há uma porção de fritas sobre a mesa
E há colesterol
Há um cigarro a fumar
E há a pressão alta
Tem umas pílulas azuis
Tudo pra estabilizar
Há uma voltagem a tomar
E um fio desencapado no chão
Há a coleira no cão
E uma volta no quarteirão
Só não há amor
Isto eu não sei o que é
Por isso vivo só e contente
Feliz com uma gengivite
Triste com uma dor
Que não dói na carne
Muita para uma alma
Pouca para um corpo

Friday, September 12, 2008

Bico de lacre.

Ana era um tesão. Mulher gostosa para homem nenhum botar defeito. Todo mundo na faculdade queria come-la. Não havia homem vivo que não fizesse reverência à beleza de Ana. Eu sempre gostei de mulheres que falassem algo de inteligente, pelo menos de hora em hora. Não cobrava uma mente brilhante o tempo todo: o que eu queria era um corpo brilhante como o de Ana. Possui-la seria algo muito especial com certeza.

Passei a sentar perto dela na sala de aula. Mas eu corava um pouco diante daquela mulher. Era tesuda. Linda demais para mim. Era tudo que eu queria; tanto que babo enquanto escrevo estas linhas mal traçadas. Além do tesão, fui construindo dentro de mim uma mulher maravilhosa: capaz de recitar Rimbaud de cor. Capaz de soletrar em alemão. Capaz de traduzir para o francês parte da obra de Joyce.

Ela só crescia em mim enquanto pessoa e enquanto mulher. Como pessoa mostrava-se militante da causa do mais pobres e como mulher estava cada vez mais maravilhosa em sua minissaia babante ao chão. Eu não agüentava mais o meu pênis e a minha cabeça. Meu corpo e minha mente estavam fascinados pela mulher maravilhosa chamada Ana.

- Ana qual è o seu nome?
Perguntei pra ela o nome dela que eu sabia. Que gafe. Vai me reduzir a esterco.
- Como sabe o meu nome?
- Todos sabem o seu nome.
- Todos?

A filha da putinha estava me dando mole. Vaca profana: toda mulher gostosa gosta de saber que é gostosa.

- Todos somos seu fã.
- E você vê: eu estou sem namorado há mais de um mês.

Não sei o que eu tenho, mas ela estava me dando mole. Enquanto falava gesticulava. Adoro mulheres que gesticulam. Elas passam uma verdade para a gente. Passa uma sensualidade toda própria. Adoro mulheres que sabem falar. Falar é primordial e Ana falava bem:

- Sabe, você fala tão bem!
- Quero ser professora de Português e escritora. Meu sonho sempre foi escrever um livro do tipo do Patavina Angústia.
- Patavina Angustia! – eu não conhecia porra nenhuma do Patavina – eu adoro Patavina – falei mentindo, óbvio.

E Ela ficou ali meia hora falando do Patavina Angústia e de como a linearidade discursiva poderia ser substituída pela tensão estrutural no texto do tal escritor. Fiquei gamado e nos dias que se seguiriam leria toda a obra do Patavina Angústia.

Era amigo de Ana. Um amigo distante e – com medo de ver o meu planejamento de aproximação – cair por terra, não fazia nada fora das dadas planejadas para que eu traçasse Ana ou não. Ana era tão gostosa que dei um prazo a mim de um ano para que comesse a mulher mais gostosa da faculdade, que eu saiba virgem indevassada ainda nas bocas das matildes da facu.

Fomos estudar junto o tal do Patavina na biblioteca quando ela pegou na minha mão. Havia uma barata andando perto da mesa e de sua bolsa. Eu tremi de medo. Se há uma coisa que detesto é barata, mas se eu mostrasse toda aquela minha porção viado a ela, meu deus! correria o risco de perder meu bem para sempre. Fui macho e matei a kafquiana. Ela, Ana me elevou momentaneamente a condição de herói grego e ainda bem que eu percebia que aquela mulher estava se afeiçoando a mim: porque estava chegando no final do meu prazo de varredura e eu não havia liquidado a promissória, sequer me aproximara dela. E o pior: estava apaixonado. Vivia o dia todo escrevendo Ana no caderno. Fazia balõezinhos com a palavra AMOR. Estava caído de amor. Quedado.

Passava horas a fio em busca de uma idéia salutar que me fizesse chegar a aproximação de minha deusa. Cantava aquela música; “Eu pensei em tanto pra dizer enquanto esperei pela chegada triunfal desta deusa”. Enquanto não a possuía maritalmente e enquanto ela não era a minha mulher e a mulher de meus filhos e a mulher mais perfeita quase a virgem Maria, eu me masturbava libidinosamente pensando em seu corpo. No que me falava. Na sua voz. Nas suas coxas. Na sua zona do agrião. Cheguei – de tanto descabelar o palhaço – a conviver com uma dor de cabeça tão forte que só vinha na hora em que o meu sexo tremia de amor mais sincero: a hora do gozo eufônico. Eu gozava recitando o soneto da fidelidade e minha vida era feliz.

Suficientemente perto do natal fui acometido de uma dor que me ofuscava a entranha, uma dor rimbauldiana mesmo: nós iríamos entrar de férias e resolvi partir com tudo antes que mais um fim de ano chegasse e eu ficasse a ver navios, ou melhor, a ler revistinhas do Hary Jone, a ver os filmes da coleção Sex Hot ou a fazer o plano total de aquisição da tv a cabo, só por causa dos quatro canais de sexo. Estava doido. Quicava dentro de mim. Era a última prova do ano. O tema da prova era Patavina Angústia. Pronto!

- Ana quer estudar o Patavina Angústia lá em casa?
- Tudo bem. Eu vou. Que horas?

Eu não acreditei. Ela iria. Ó Ana Júlia aahaahh ahhahhahahahha/Ó Ana Júlia ahahahahahahah”.

Preparei todo o ambiente da minha casa. Cheguei a chamar uma amiga decoradora – que tive de traçar por conta dos palpites que me deu – e decorei a casa com flores e fragrâncias florais. Botei um espelho no teto para dimensionar todos os ângulos do sexo selvagem que iria rolar. As tamancas vão quebrar, eu dizia a mim mesmo. Era que o meu pai dizia quando me levou pela primeira vez nas termas Santo Amaro.

Ting dong, tocou a campainha. Eu já estava puto de tanto esperar. Ela estava numa calça tão grudada que chegava a ver o âmago da sua xaninha. Meu pau logo endureceu. Eu era um garoto e tinha só vinte e poucos anos: o que potencializava a minha força sexual.

Ela era doce, meiga, bonita, gentil, delicada, bondosa e usava um Pierre Merdon: o melhor perfume do mundo. Sentamos e ela fez questão de ficar bem distante de mim. Li vinte e cinco páginas de um texto que havia feito sobre Patavina. Falei e falei. Dei aula do assunto. Dentro dela eu sentia que ela pensava: “COMO ESTE CARA SABE DE PATAVINA”.

Eu sabia de Patavina para caralho. Não gostava tanto do Patavina quanto da Rosecler Lisboa Prado de Almeida e Fragon, mas tudo pelo sexual.

Conversa vai e vem. A cada meia hora me aproximava vinte centímetros: o que deu no final de duas horas, uma quase coxa a coxa com Ana.

O tempo estava passando e o assunto se assuntando e se espargindo, indo pelo ar. Resolvi partir para o ataque. Botei minha mão sobre as coxas dela. Ana tirou as mãos. Toda a mulher recatada é mais gostosa. Depois de meia hora de tira e bota a mão pra lá e pra cá, eu resolvi parar tudo:

- Pára tudo!
- Por que?

Resolvi me declarar.

- O amor é o fogo que arde sem se ver.
- É ferida que dói e não sente.

Falei por meia hora e olhei por meia hora no azul piscina daqueles olhos e mergulhei na sua boca. Bingo. Vitória. Gol do Mengão no Maracanã.

Ficamos quinze dias saindo e levei dois meses para que fizéssemos amor. Eu não faço sexo. Eu só faço amor. Fizemos de tudo menos o tal do boquete: sexo oral. Ela alegou que exigia uma melhor “enturmação” com o meu ser e que um dia chegaria e nós faríamos o tal do boquete.

Eu estava amando e havia achado a deusa da minha vida e a mulher que iria guiar o meu carmanguia vermelho. A senhora do meu sono. A perfeita. A deusa. A formosa e a imaculada: Ana.

Passeávamos de mãos dadas na praia. Íamos ao cinema. Fizemos todo o roteiro de amor do Rio de Janeiro. Tudo vale a pena quando a pica não é pequena, dizia ela em seus momentos de maior aproximação... Só havia um problema: ela não fazia o boquete. Não chegava perto do Godofredo. Não beijava o bichinho.

- Um dia será o dia em que tudo se revelará e nós faremos sexo oral.


Aguardava este dia tanto que resolvi, pelo fato de ter encontrado a mulher de minha vida, a deusa de meus caminhos, resolver aquele problema com uma profissional. Aquilo não era traição. Era só uma fissura minha que estava aumentando e podia terminar prejudicando o amor da minha vida. Para o meu relacionamento não sucumbir em discussões de relação, procurei uma mulher no jornal. Eu era contra. Juro que sou um homem que preza o amor como algo superior. Não sou do tipo que só pensa em carne. A única carne que como é boi ralado. Com mulher eu faço amor. Desculpe meu bem, mas lá fui eu para a RAINHA DO BOQUETE, um antro de perdição mais conhecido como termas Copacabana.

- Quero conhecer a rainha do boquete. Falei a recepcionista que me olhava.

Pedi desculpas a Ana. O fiz internamente. O fiz por nós dois. Eu não iria beijar. Não iria fazer sexo. Eu não iria me prostituir às avessas e me entregar a luxuria. Era só uma chupadinha. Fui ao reservado e tirei a roupa enquanto pensava numa boca mecânica, numa dessas ordenhadoras de tetas de vaca automática. Eu estava fazendo aquilo pelo meu amor.

A barraca estava armada. O sangue pulsava. Só de pensar que o meu fetiche, algo que não fazia há muito tempo ia ser concretizado, me fazia babar.

Virei-me e fiquei de bunda para a porta e me olhando no espelho. A recepcionista chegou trazendo uma mulher à tira colo. Ela disse que a garota com o véu era a Rainha do Boquete.

Me aproximei. Olhei nos olhos dela e uma lágrima caiu. Tirei o véu e ela era Ana. Ana Júlia era a rainha do boquete. Meu pênis broxou na hora. Cai fulminado com um ataque cardíaco. Hoje me encontro no CTI sexual do céu. Fui condenado a viver de pau duro esperando Ana para consolidar meu desejo mais ulterior.

Tuesday, September 09, 2008

DEUS.

Sem mim não sou ninguém
Tenho um umbigo que só pensa em si
O nada só me comove
Quando se opõe ao tudo
Tudo que quero é ser eu
Ser tanto eu que suma de mim
Tão fartamente
Para existir em mais coisas
Para existir em tudo

Sunday, September 07, 2008

orquestra

som sob a estação
sobre
posição

sombra sobre sombra
orquestra
no ensaio de fellini
tomba

Thursday, September 04, 2008

VC.

Vc vai vivendo indo pronde não sabe
Vc vai com o bonde do abade
Vc e mais ninguém além de vc indo além
Vc não come o fim não corta a cena
Vc é de uma posteridade póstuma
Vc só cheira a uma vc q é igual
Vc quem sabe é bem pior do q pensei
Vc quem sabe sou eu também

Tuesday, September 02, 2008

POEMA.

prenhe de poesia
cataplasma

catapulta o poeta
sampleador

da rima

nasce o poema
e a armadilha

e dentro do alçapão
a poesia

Saturday, August 30, 2008

brincar.

1
a sinceridade das nuvens
que choram quando se encontram
comove meu olhar que transita hospedeiro
de algum azul que não tenho e quero

quando negra a manhã
açoita ainda a alvorada com espadas de sol

eu venho para brincar
com as nuvens que vejo nascer no dia
arrepiado de sombras
e sobras de cadáveres que guerrearam ontem

dizem que foram
para onde ninguém sabe onde vai quem não tem fim
aqui
ou quem tem um fim que não quis ter
pois ambos morreram na folia
e era carnaval
e se devoravam feito dois antropófagos
letrados
letárgicos
litúrgicos
se ofertando ao prazer demiurgo
de um beijo de florete ardendo entre o colo
e o reto

diziam que os índios americanos achavam que a maior humilhaçào
e pior que morrer
era verem seu cu tocado pela lança alheia
o que por muitas vezes acontecia
e fez com que milhares de índios morressem até entender
que uma bala perdida é igual a uma direcionada
e mata do mesmo jeito

2
jasmins descendo pela guela
via sangue arterial O positivo
e glóbulos
e hemácias e
leocemia a beira dos dias de fim de ano
índio de si
indiana jones e james bond e zumbi
fundando palmares nos tumores
covardes cavando covas no queixo de um morto
ou aquele afegão chutando um afegão
em rede
via televisão
ah, quanta cooperação
e eu só queria morrer na arena entre os leões
feito um gladiador suicida
pruridando sua última volúpia
arrancando os contornos das unhas
da primavera
incêndio em meu corpo e fogo no louco asilo
que velho escolho
como escopo
me esculpir do nada
as veias poluídas onde algas e fetos boiam
amalgamados pela vitrea chama
de meu cordão umbilical
vida, vida, vida, vida!
vomito tudo pra dentro de mim

Friday, August 29, 2008

CAFÉ EXPRESSO COM POESIA.

A poesia é só linguagem? Há muitos escritores que abrem mão do conteúdo em prol da linguagem e vice-versa. Talvez o mais difícil seja aliar um conteúdo apolíneo com uma forma dionisíaca. Este equilíbrio exige muito mais do poeta do que abrir mão de obter uma igualdade de forças no poema. Por isso valorizar e exaurir todas as possibilidades de uma peça poética seja o objetivo de todo o poeta. É a dificuldade de enfrentar a batalha entre essas duas aparentes dicotomias – hoje em dia – que impulsiona o bardo pós-moderno. Se tudo já foi feito, resta restaurar, religar os pólos que se apresentam como forças opostas dentro de um discurso em versos ou em poemas em prosa. Dar apenas um recado nunca aproximou nenhum artista da verdadeira arte, também amontoar palavras numa discursiva transmitindo nenhum sentido não irá levá-lo a um projeto literário sólido. A atmosfera idílica é tão importante quanto o interior da discursiva. Assim o bom poeta é aquele que consegue aliar e atrair para a sua poesia toda uma gama de aspectos que lhe propiciem alcançar o que deseja: cônscio das ferramentas necessárias para tal. Ter uma meta e partir em direção dela. Chegar a tudo aquilo que é necessário racionalmente e irracionalmente, por que não. Doses de loucura combinada com pitadas de realidade são bem-vindas a este habitat.

Neste cadinho tudo deve estar alquimicamente balanceado para que o poeta não embarque numa canoa furada e comece a encharcar seu barco poético com muitos recursos que não dirão nada a ninguém, correndo o risco de tornar-se mais um em meio à multidão e não um raro exemplo de quem sabe fazer versos inovadores e impactantes.

Pensando assim é que podemos avaliar a poesia de Greta Benitez. Ela tem o que dizer e o diz de forma inovadora e de uma maneira feminina. Também é necessário aqui afirmar que a tendência de mostrar o universo de mulher não enfraquece o trabalho da poeta, pelo contrário, mostra como funciona a mente criadora da artista em tempos de crise, em dias em que não é necessário mais debater se existe ou não escritura feminil. Aliás, este debate pode nos levar a lugares pouco interessantes. De que importa assinalar se é o escritor ou a escritora quem escreve o livro? O importante é saber se – através de seu repertório – o autor em questão consegue decolar e alçar um vôo nobre e um olhar arguto sobre os temas escolhidos ou eleitos para serem abordados em seu opúsculo.

Greta consegue e o faz de maneira ímpar mostrando que uma mulher não precisa escrever como homem e nem deve ser tratada como tal por ter uma estética forte. O conteúdo bem elaborado nos coloca em contato com um mundo onde a paixão e o amor são necessários e podem ser vistos por um olhar aguçado e exacerbado no que tange a diversas categorias do enamoramento. Desde paixões platônicas até amores perdidos em copos de cólera ou ainda desencontrados em esforços de tentá-los duradouros. Trata-se de um delicioso painel da vida romântica em dias onde vale quase tudo quando falamos da questão amorosa.

Ela lança luz sobre temas obscuros e também faz o contrário: elabora um relicário onde o desafeto conduz muitas vezes a uma solidão tão profunda quanto o sentimento de angústia tão comum nos nossos dias. Greta Benitez não está sozinha. Monta toda uma espécie de quebra-cabeça em seu Café Expresso Blackbird, que é freqüentado por uma gama de seres meticulosamente envolvidos ou ainda em desenvolvimento de afeto. A lírica amorosa é a praia da escriba que parece não se esforçar muito para colocar no papel o dia-a-dia ao qual estamos acorrentados. Benitez solta todos os grilhões e nos mostra com quanta metáfora e linguagem conotativa se faz um labor de nível alto.

Antenada com tudo de novo que está acontecendo, ela se insere numa espécie de fronteira onde o clássico e a invenção fazem detonar a mesmice que podemos encontrar em outras poéticas puramente estetistas. Não que a estética da artista fuja a noção cabralina de que um poema deve conter o necessário e nada mais que ele para alcançar patamares elevados de criatividade.

Vê-se também na autora uma forte ligação com o blues, no que tem de mais melancólica esta manifestação. Ela se ampara no canto dos negros americanos para construir seu próprio arsenal de melancolia irônica. É a fina ironia do cotidiano de bares onde os freqüentadores são seres estranhos que fazem de Café Expresso um livro muito original. Sem cair nas banalidades e com toques de sensibilidade rara vamos devorando cada um dos poemas, e é uma novidade após outra que não faz do conjunto desta obra algo desnivelado, pelo contrário: a coesão temática é que junto com o lirismo difunde o cantar blueseiro da moça. Tudo com leveza e propriedade de quem vive em Curitiba e num dos bairros onde a vida cultural e gastronômica é bastante intensa.

Engana-se quem ao dar de cara com este exemplo de poesia venha a acreditar que existe muita facilidade em concebê-la. Trata-se de um olhar todo próprio e que demanda vários recuos. Várias leituras dentro de uma leitura. É um livro intenso em sua sensualidade e erotismo. Isto sem cair no lugar comum. De um modo peculiar é traçada uma vida que muitas vezes esbarra na tristeza, mas de uma maneira sempre leve, como se a escritora se esforçasse em não criar o terror onde há espaço para celebração.

Com tudo isso, com todo este conteúdo poético, Greta Benitez se insere dentre as vozes mais criativas da poesia brasileira atual e levanta algumas questões salutares: existe ainda amor em tempos pós-modernos? Pode haver polifonia no lirismo amoroso? É possível ser simples e sofisticado ao mesmo tempo? Onde se encontra o apolíneo e o dionisíaco em doses homeopáticas e bem equilibradas?

A resposta está em Café Expresso Blackbird (Ed. Landy/2006).

Wednesday, August 27, 2008

Eu acho que estão me matando
Não acho: tenho certeza

Eu acho que tudo acaba
E o nó em minha mente desata

A morte é só mais um caminho
Para quem não tem nenhuma certeza

Já fiz das minhas e ponto
Não espero de ninguém o pranto

Sunday, August 24, 2008

CONSTATAÇÃO PRIMEIRA.

Há um colibri naquela flor
Há algemas para prender os animais?

Há camisas de força pra enforcar
E um varal cheio delas no meu quintal

E há ainda uma quinta-feira por viver
E talvez nada mais importe tanto assim

Do que o colibri naquela flor
Porque ela sabe dar e ele sabe receber

Se alguém (inclusive eu) soubesse disso
Evitaria internar alguém em um hospício

Saturday, August 23, 2008

DIAPASÃO.

Entre a tatuagem e a pele
Está a minha loucura

Às vezes se aproxima da pele
E eu me visto de louco

Vez se aproxima da tatuagem
E estou tomado de mim

Minha loucura vibra
No diapasão do corpo

Minha loucura é escriba
Sempre me imita

Sempre me irrita
Essa minha loucura

Wednesday, August 20, 2008

MACACOS.

Às vezes ele tapa o ouvido
Tapa o olho
Tapa a boca
E leva um tapa

Não quis ouvir
Não quis ver
Não quis falar

Às vezes é melhor às vezes

Monday, August 18, 2008

Eu não quero nenhum favor que te agrida
Todo mundo tem o direito de não gostar
Inclusive você. Rodrigo. E ela
Alguém me surge de repente num átimo
Ou poderia ser um simples átomo
Quem sabe alguém venha me socorrer
Talvez seja tarde demais
As angústias só se calam de manhã
Depois que como Eva e a maça
Talvez alguma massa no rosto
Venha desvendar o que digo
Mas o mundo é cheio de intrigas
E me chamo Rodrigo

Saturday, August 16, 2008

ILUSÃO DE ÓTICA.

Ela teclou comigo e me mostrou uma foto bonita. Era uma estrela. Um cometa. Uma galáxia e um furacão em forma feminina. Uma mulher bonita conquista o que quiser e geralmente, é a beleza o que mais encanta um homem. Uma cobra encantada pelo faquir. De flauta em punho e tudo. O que você gosta de fazer nas horas vagas? Quantos quilos você têm? Você gosta do Arpoador e de música? O que você gosta de ouvir? E assim depois de cada resposta precisa e uma baforada de cigarro, eu me apaixonei. Liguei pra ela. E ela disse que queria me ver (um dia) e sentir a brisa fresca da manhã abraçada a mim, perto da praia. Havia o céu e o azul e a nuvem e um monte de coisas bonitas que pensamos em fazer junto. E eu com aquela foto dela na cabeça e me masturbando enquanto fazíamos sexo virtual. Eu ligava para ela e ouvia sua voz bonita e ela me falava flores. Me dizia flores até o dia em que – sem conhecê-la – mandei flores virtuais pra ela e ela disse que não abriu as flores porque estas poderiam estar com vírus. Eu não lhe conheço direito. Não sei do que você gosta. Escolhi um tema para o nosso amor que estava apenas começando. Era uma música batida. Mas eu gosto de músicas que tocam no rádio. Gosto mais do meu passado que do meu presente e do meu futuro. Na verdade só temos o passado e eu não gosto de perder memória e o que eu vi nela além da beleza era uma coisa que me fascinava: a sua inteligência. Mulheres inteligentes e bonitas são ainda mais inteligentes e bonitas.
Às vezes penso nas estrelas, nas constelações, nos planetas. Eu cheguei a descobrir uma estrela no céu do meu quarto e batizei-a com o nome dela. Não vou dizer aqui que meu quarto tem muitas estrelas. Mas coloco uma estrela no teto toda a vez que me apaixono e fico olhando aquelas estrelas todas e as estrelas lá fora e acho as do meu quarto mais bonitas. São estrelas cativas. Não podem fazer mal a nenhum planeta. Eu sou um planeta e ela é um planeta. Às vezes sou hostil com novos planetas que orbitam a nossa existência. Fumo um cigarro e teclo com ela no computador e vejo aquela foto linda, maravilhosa e quase um pôster que queria ter no meu quarto. Sorrindo com seus dentes divinos. Com sua boca de Angelina. Com sua bunda de Beounce. Com seus olhos de Ana Paula Arósio. Que mistura intrigante era aquela mulher.
Eu andava no deserto de uma existência meio fria – apesar do calor do deserto – até encontrá-la. Tudo estava tão perdido e sem fim. Passamos a nos ligar todo o dia. Como foi seu dia? O que você me conta de novo? Com quantas metáforas se faz um poema? Qual o papel do escritor na sociedade? Sim, ela era escritora também. Formada em letras. Mestrado. Doutorado. Professora. O que eu mais queria era ela. Passei a convidá-la insistentemente para sair. Passei a freqüentar novos silêncios quando ela dizia que depois e que era cedo e que tudo nos unia e ela não escondia nada de mim. Contou que foi mãe cedo e tinha 38 anos e era uma balzaquiana e as balzaquianas são à flor do mundo para um homem e eu queria aquele encontro como tudo.
Enfim, num dia frio no Rio de Janeiro onde as pombas defecam na existência e os porcos soltam pum molhados em suas cuecas. Num dia em que parecia tudo normal. Num dia como todos os outros. Um dia que não era especial. Uma quarta-feira. Numa hora par fui me encontrar com ela no metrô aqui perto de casa. Ela disse que estaria toda de branco e viria toda linda feito à música do Jorge Bem. Eu tirei os óculos. Me achava mais bonito sem óculos e sem óculos sou meio cego. Olhei ela e só percebi que era gordinhaa. Botei os óculos e veio a decepção. Aquela linda mulher não era linda. Era uma quimera e uma sombra. Ela tinha vinte anos há mais que na foto. Beirava os 60 anos e estava detonada, talvez por uma vida difícil, talvez por ter esquecido de se cuidar e eu broxei em mim. Meu sentimento de amor deu lugar ao ódio. Tirei do coldre meu trinta e oito. Eu havia sido enganado. Havia feito sexo com uma mulher que não era aquela e talvez fosse a filha ou a vizinha ou a prostituta mais próxima. Tudo não passava de uma ilusão. Uma ilusão que fez com que começasse a chover naquele exato momento. Eu, broxa. Completamente broxa e completamente apagado e com um revólver na mão.
Não segui o conselho de um amigo mais velho que sempre me dizia que boceta não se rejeita e desferi quatro tiros nela. Era a única coisa a fazer. Ela havia me enganado. Eu que só havia dado plumas para ela, que estava apaixonado: na verdade estava apaixonado por outra mulher. Por aquela da foto.
Cheguei em casa e abri o computador e o arquivo com a foto dela e bati uma punheta gostosa. Fui gozando tão devagar quanto havia desferido os tiros nela. Depois apontei o revólver para a minha cabeça e pensei em me matar. Pensei tanto que concluí que uma boceta não se rejeita e dei um tiro na própria cabeça do meu pau.

Wednesday, August 13, 2008

CONSIDERAÇÕES SOBRE ESPAÇO E TEMPO.

Tatuagem como o enigma de uma lembrança que se repete e vira um trauma,
colada ao corpo como uma roupa de látex escura, quase-negra ou quase-branca,
decalque fácil de alguma figurinha de que me lembre quando criança,
dessas que estavam no chiclete bola e que me faziam criar uma lágrima toda a vez que explodia.
Marasmo envolto neste dia em que me lembro de lembranças que se repetem.
Alguns tatuís na mão do garoto que fui estão indo para a panela do sempre.
E estão a circular na memória passiva dos dias que virão.
Saudade é a palavra mais exata para este instante de criação. Já fui melhor em todos os sentidos vários.
Já fiz zigue-zagues imperdoável feito algumas moléculas de hidrogênio e oxigênio.
Hoje quero escrever nas águas do ontem e só apenas relembrar que fui um dia alguém.
Não sendo o nada e sendo o sempre o poeta pode olhar no espelho e não ver refletida nenhuma imagem.
Abre-se em alguma palavra alguma canção alguma nota de dez reais.
Fechado no oriente ocidental e tentando ser mais que uma quimera do hoje.
Sonâmbulos de alguma forma somos todos vampiros de emoções furtivas.
Há alguma avaria no cérebro que aqui escreve esta novidade sem novidade e
então é cair no ostracismo de mais uma manhã.
Talvez alguma estrela possa brotar do chão no céu do sol. Também esperamos que você se encontre em alguma noite dessas e feche o circulo.
Em algum idioma que não entendo minha lucidez está perdida.
Era como se eu quisesse falar as coisas que sempre falei de outras formas: na forma de um relâmpago ou da estática profunda que provoca um acordar sempre até o último dia.
Não entendo o que quis escrever, mas está escrito e se é algum enigma para mim e se o poeta não entender que estou falando dele, foda-se.
Interceder: ser ao mesmo tempo o ser e o não ser.

Monday, August 11, 2008

Há degraus de fora
Na sua coxa implume
Há abismos e ventres
Na ponta dos cabelos

Na sua coxa implume
Na ponta dos cabelos
Há abismos e ventos
Há degraus de fora

Tudo para colibri
Coibir com seu corpo
Qualquer sutileza
Ou mosca de sombra

Qualquer degrade
Que urtigue tua pele
Feito uma nuvem negra
Nunca puritana

Saturday, August 09, 2008

OLFATO.

Os acidentes do espelho e seus cacos de vidro e seus cactos que ferem e seus desertos que unem pontes podem possibilitar a mim um corte ou tornar-me alguma mulher que se movimenta despetalada nas minhas entranhas. Essa mulher sou eu no outro dia em que fui homem mastigando o delírio olfativo que um cigarro provoca: cheiro de merda.

Thursday, August 07, 2008

CATACLISMO POR TIÃO NUNES.

CATACLISMO EM BURACO NEGRO

O choque inicial provocado pela poesia de Rodrigo de Souza Leão é o embate entre o título, que sugere convulsões tremendas, e o tom quase intimista dos poemas. Basta ir ao dicionário para saber que “cataclismo” significa “grande inundação, revolta” ou ainda “convulsão social, grande desastre, derrocada”. Assim, o leitor começa sendo puxado para dentro de revoluções, sociais ou telúricas, pronto para se deparar com um Castro Alves aos berros, um Rimbaud se descabelando ou um Ginsberg clamando no deserto. Isso para ficar na poesia escrita e não procurar sarna pra coçar no mundo da música, que Rodrigo também freqüenta, onde o espetáculo exige convulsões tremendas, e quando mais tremendas, melhor.
Mas cataclismo, no caso, é outra coisa. Trata-se na verdade de uma convulsão tremenda, mas inteiramente silenciosa, instalada na cabeça do poeta, ou daquele que finge por ele, do poeta que se revela torturado. E cataclismo se torna tortura mental, a angustiante prova dos nove a que se submete o poeta em seus desvarios, obsessões, angústias.
Se cada louco é um universo fechado, podemos comparar o cérebro de um louco com o universo infinitamente maior das galáxias e buracos negros, mas não menos redundante, caótico, gratuitamente destrutivo. O pânico espreita, a morte bate à porta, as dentaduras sorriem cúmplices, o medo é uma constante. Serve de parâmetro este curtíssimo poema dedicado ao grande pintor inglês, que enxergava tempestade onde outros viam serenidade:

DENTADURA NO COPO

A Francis Bacon

Há uma escultura dentro do copo
Sorrindo pra mim

É um cataclismo intimista, freqüentemente em tom menor, lembrando a auto-ironia de Manuel Bandeira ou a aparente simplicidade de Mário Quintana. Vale dizer bem depressa, para evitar mal-entendidos, que menor, no caso, se refere ao propósito explícito do poeta por manter o ritmo baixo, por não elevar a voz, não se queixar aos gritos. Há quem prefira ser mais cantor que ator, mais Lennon que Dylan, mais Chico que Gil, para ficar entre meus contemporâneos e não ir buscar lã em berçário ou creche.

OS PSIQUIATRAS

No fundo são boas pessoas
Mas é preciso conhecê-los a fundo
Para fundá-los como amigos

Eu já tive um amigo assim
Ele conversava muito comigo
E eu gastava muito mais com cerveja

Do que dizer lá deitado no divã
Que sou uma mistura
De prozac com lexotan

É quando entram em cena os anti-heróis de Rodrigo: psiquiatras, prozac, lexotan e o resto da turma, com sua carga de terrores que todo bom maluco conhece de sobra. Enfim, essa é uma poesia do beco sem saída, da circularidade, do tentar enxergar através das brumas do invisível. Mas sempre, e olhando de banda, a morte espreita. Surpreende como Rodrigo, ao usar uma linguagem tão intimista, de palavras simples e claras, revele a profundidade da angústia que bate à porta dos cérebros em convulsão, e transforme essa simplicidade – agora sim – num cataclismo que dói fundo, e tão mais fundo quanto aparentemente mais leve.

Sebastião Nunes
Ex-poeta e eterno candidato a doido

Tuesday, August 05, 2008

VÍRUS.

Mármore
Anexado ao e-mail
Num sei quantos K bytes
E uma vírgula
Um hiato
Um sopro
E o computador foi pro espaço
E eu querendo ser astronauta
Ou voltar a pedra lascada

Alguns coturnos me cobrem de porrada
Algum urubu em sobrevôo
Tudo que eu disse virou fórmula
E a minha poesia só discorda
É uma corda
No pescoço
Que não me deixa ir
É um estilhaço na omoplata que é um beijo
Um buraco
Algumas baratas que resistirão?

Monday, August 04, 2008

Húmus do amor.

quando enquanto flor
você ainda for
seremos

Saturday, August 02, 2008

FUMAÇA.

Pedaços

De voz

Vem me dizer

Sobre nós


Alguma coisa

Está errada

Neste estilhaço


Algum maço

Fumo só


O outro os outros

berram

Friday, August 01, 2008

 
Wordpress Themes is proudly powered by WordPress and themed by Mukkamu
Templates Novo Blogger