ILUSÃO DE ÓTICA.

Ela teclou comigo e me mostrou uma foto bonita. Era uma estrela. Um cometa. Uma galáxia e um furacão em forma feminina. Uma mulher bonita conquista o que quiser e geralmente, é a beleza o que mais encanta um homem. Uma cobra encantada pelo faquir. De flauta em punho e tudo. O que você gosta de fazer nas horas vagas? Quantos quilos você têm? Você gosta do Arpoador e de música? O que você gosta de ouvir? E assim depois de cada resposta precisa e uma baforada de cigarro, eu me apaixonei. Liguei pra ela. E ela disse que queria me ver (um dia) e sentir a brisa fresca da manhã abraçada a mim, perto da praia. Havia o céu e o azul e a nuvem e um monte de coisas bonitas que pensamos em fazer junto. E eu com aquela foto dela na cabeça e me masturbando enquanto fazíamos sexo virtual. Eu ligava para ela e ouvia sua voz bonita e ela me falava flores. Me dizia flores até o dia em que – sem conhecê-la – mandei flores virtuais pra ela e ela disse que não abriu as flores porque estas poderiam estar com vírus. Eu não lhe conheço direito. Não sei do que você gosta. Escolhi um tema para o nosso amor que estava apenas começando. Era uma música batida. Mas eu gosto de músicas que tocam no rádio. Gosto mais do meu passado que do meu presente e do meu futuro. Na verdade só temos o passado e eu não gosto de perder memória e o que eu vi nela além da beleza era uma coisa que me fascinava: a sua inteligência. Mulheres inteligentes e bonitas são ainda mais inteligentes e bonitas.
Às vezes penso nas estrelas, nas constelações, nos planetas. Eu cheguei a descobrir uma estrela no céu do meu quarto e batizei-a com o nome dela. Não vou dizer aqui que meu quarto tem muitas estrelas. Mas coloco uma estrela no teto toda a vez que me apaixono e fico olhando aquelas estrelas todas e as estrelas lá fora e acho as do meu quarto mais bonitas. São estrelas cativas. Não podem fazer mal a nenhum planeta. Eu sou um planeta e ela é um planeta. Às vezes sou hostil com novos planetas que orbitam a nossa existência. Fumo um cigarro e teclo com ela no computador e vejo aquela foto linda, maravilhosa e quase um pôster que queria ter no meu quarto. Sorrindo com seus dentes divinos. Com sua boca de Angelina. Com sua bunda de Beounce. Com seus olhos de Ana Paula Arósio. Que mistura intrigante era aquela mulher.
Eu andava no deserto de uma existência meio fria – apesar do calor do deserto – até encontrá-la. Tudo estava tão perdido e sem fim. Passamos a nos ligar todo o dia. Como foi seu dia? O que você me conta de novo? Com quantas metáforas se faz um poema? Qual o papel do escritor na sociedade? Sim, ela era escritora também. Formada em letras. Mestrado. Doutorado. Professora. O que eu mais queria era ela. Passei a convidá-la insistentemente para sair. Passei a freqüentar novos silêncios quando ela dizia que depois e que era cedo e que tudo nos unia e ela não escondia nada de mim. Contou que foi mãe cedo e tinha 38 anos e era uma balzaquiana e as balzaquianas são à flor do mundo para um homem e eu queria aquele encontro como tudo.
Enfim, num dia frio no Rio de Janeiro onde as pombas defecam na existência e os porcos soltam pum molhados em suas cuecas. Num dia em que parecia tudo normal. Num dia como todos os outros. Um dia que não era especial. Uma quarta-feira. Numa hora par fui me encontrar com ela no metrô aqui perto de casa. Ela disse que estaria toda de branco e viria toda linda feito à música do Jorge Bem. Eu tirei os óculos. Me achava mais bonito sem óculos e sem óculos sou meio cego. Olhei ela e só percebi que era gordinhaa. Botei os óculos e veio a decepção. Aquela linda mulher não era linda. Era uma quimera e uma sombra. Ela tinha vinte anos há mais que na foto. Beirava os 60 anos e estava detonada, talvez por uma vida difícil, talvez por ter esquecido de se cuidar e eu broxei em mim. Meu sentimento de amor deu lugar ao ódio. Tirei do coldre meu trinta e oito. Eu havia sido enganado. Havia feito sexo com uma mulher que não era aquela e talvez fosse a filha ou a vizinha ou a prostituta mais próxima. Tudo não passava de uma ilusão. Uma ilusão que fez com que começasse a chover naquele exato momento. Eu, broxa. Completamente broxa e completamente apagado e com um revólver na mão.
Não segui o conselho de um amigo mais velho que sempre me dizia que boceta não se rejeita e desferi quatro tiros nela. Era a única coisa a fazer. Ela havia me enganado. Eu que só havia dado plumas para ela, que estava apaixonado: na verdade estava apaixonado por outra mulher. Por aquela da foto.
Cheguei em casa e abri o computador e o arquivo com a foto dela e bati uma punheta gostosa. Fui gozando tão devagar quanto havia desferido os tiros nela. Depois apontei o revólver para a minha cabeça e pensei em me matar. Pensei tanto que concluí que uma boceta não se rejeita e dei um tiro na própria cabeça do meu pau.

Wednesday, August 13, 2008

3 Comments:

yehuda said...

Rodrigo, seu texto é primoroso, acho que já o conhecia, talvez um telefonado, mas não importa, lido é de arrebenar. lirico como uma fantasia, cruel como é a realidade, humano até o final de uma estrada sem saida, ironico consigo mesmo, nos homens somos sempre vitimas, enganados,somos mais poetas que as mulheres, elas mentem poetando, nos amamos sem precisar escrever poesia,vivemos a poesia sem medo e acabamos atropelados e desfigurados,o amor verdadeiro onde encontra - lo?

Cássio Amaral said...

Brou,

Que escrito bacana. Muito bom, o fim é perfeito.

Abração.

Anonymous said...

Ela deu a ele a mulher que ele queria, ele não deu a ela o pau que ela queria

 
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