E-MAIL DE UMA LEITORA.

Olá... ainda não sei como usar um vocativo apropriado, visto que ainda não nos conhecemos, embora eu saiba seu nome, mas creio que não seria apenas o nome o suficiente para me dirigir a você com intimidade. Quero apenas dizer isto: engoli um livro! O nome dele é "todos os cachorros são azuis". Foi uma atitude um tanto quanto esquisita, visto que não é do meu feitio fazer isso com este tipo de objeto, não assim, em um quarto de hora, como diz nosso mestre Saramago. Engulo, sim, livros. E sempre. Mas não sem mastigá-los. Tudo começou assim: na escola em que dou aula (Lá no Pedro II de S. Cristóvão) encontrei, sobre a mesa da sala dos professores, o livro mencionado. Achei o título digno de uma excelente experimentação. Então, perguntei a alguns colegas de quem era aquele pertence. Surpreendentemente, ouvi de uma professora de matemática que aquele livro foi trazido por ela e deixado sobre a mesa de professores, para que o mesmo fosse adotado por alguém que tivesse algum interesse. Ela mesma não o seria. Eu o quero, disse. Posso levá-lo? Claro! Disse-me ela. Peguei-o e o pus na minha bolsa. Confesso que o título provocara em mim, de imediato, uma louca vontade de iniciar a leitura ali mesmo, naquele momento. Mas eu estava repleta de provas, redações e trabalhos de Literatura para serem corrigidos. As notas deveriam ser entregues o mais rápido possível e “euzinha” não poderia me atrasar, furar os prazos. A DIREÇÃO não iria gostar nada disso. Foi então que tive que adiar a leitura do título instigante. Foi então que o fenômeno aconteceu hoje, quero dizer, ontem (escrevo "demadrugada" e me refiro ao episódio da noite de 29 de novembro de 2008). Engoli o livro! Não sei como. Simplesmente aconteceu. Assim do nada. Como o EU do livro engoliu um grilo na adolescência e depois um chip. Eu engoli o livro. Comecei a lê-lo exatamente às 21:12, na mesa do Sobrado das Massas (no bairro de S Teresa, onde levo minha vida), enquanto aguardava, ansiosa, a vinda de um Fetuccine a 4 queijos ( eta coisa que vem quente!...). Desci o morro e cheguei à Lapa, mais precisamente no Clube dos Democràticos, na Rua do Riachuelo, no. 91, onde continuei a leitura e a finalizei- ali mesmo, não sei, e nem se sabe como, mais ou menos por volta das 3:00 da matina. Confesso que não tive como mastigar nada. Apenas engolia, num único fôlego e de modo inexplicável. Digo como foi: sou professora de Língua Portuguesa e de Literatura brasileira, mas trabalho junto à produção dos grupos musicais "Anjos da Lua" Orquestra Republicana", há seis anos. Por isso mesmo, tive que findar a leitura ali, engolindo cada frase, sílaba, morfema ou fonema, enquanto recebia os “festivos”, entre uma cobrança e outra de bilhetes de entrada. Engoli numa ânsia estranha a mim mesma, sem mastigar nem solver, sequer, a prosódia. Apenas foi! Findei o livro!. E queria muito dizer-te, humildemente, que fiquei fascinada pelo Eu que fala, que conta sua história, que sofre porque se acha um caco e que precisou quebrar tudo para se livrar dar dor de se sentir cacos. Que quebrou a casa dos pais e foi parar no hospício, que tem como amigos imaginários o Rimbaud e Baudelaire. Que engoliu um grilo e depois um chip. Que é gordo e gosta de goiabada, por ser a melhor comida daquele lugar. Que é acusado de matar o Temível e que sabe que é inocente, mas se angustia. Que, enfim, fez-me chorar e sorrir, quase gozando de estar descobrindo aquela história.
Obrigada, VOCÊ, por me propiciar este doce delírio, assim, de maneira inusitada, depois de um dia dormindo, sob a chuva incessante, para trabalhar descansada durante a noitada adentro. Que delícia de viagem! Que doce e leve loucura!...
Vai adiante Rodrigo! E nunca perca esta reticência que nos leva longe, longe, muito além de Pasárgada, Paracambi ou do próprio Caju.
Um grande abraço, Gilda.
Amei descobrir esta linda história! E como amo agora aquele gordo garoto me apresentado por você.
Abraços “santateresianos” e daqui a pouco tem Krassik no Parque das Ruínas (de graça, a partir das 18h.) Preciso, pois, mimir...

Sunday, November 30, 2008

3 Comments:

Victor da Rosa said...

que bacana o e-mail, rodrigo! adorei a idéia de engolir o livro. um abraço,

yehuda said...

é a opinião de todos seus leitores
lindo!

Pucheu said...

que mensagem linda, ein, rodrigo!! muito linda!! parabéns a você, sempre, e à Gilda. fiquei comovido com o livro e agora com a mensagem. abração

 
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