OVERDOSE DE CACHORROS. MAIS TRECHOS.
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:15 AM 1 comments
RESENHAS.
Há duas resenhas no cyberespaço sobre o meu livro Todos os cachorros são azuis:
A primeira em Cronópios:
O céu está mortoO ensaísta Victor da Rosa estréia no Cronópios escrevendo sobre o livro Todos os cachorros são azuis, de Rodrigo de Souza Leão.http://www.cronopios.com.br/site/resenhas.asp?id=3604
A segunda em Amálgama:
http://www.amalgama.blog.br/ Clicar em literatura.
Visitem e o abraço amigo
do Rodrigo
Sunday, October 26, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:38 AM 1 comments
DIA 18. NO PLAY.
Inclusive há uma resenha escrita por Daniel Lopes sobre meu pequeno livro.
Coisa boa: NÃO PRECISEI TOMAR RIVOTRIL OU LEXOTAM. TINHA-OS NO BOLSO.
Wednesday, October 22, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 11:24 AM 1 comments
RELEASE DO LIVRO.
A escrita hábil de Rodrigo de Souza Leão permite que a leitura vá muito além da superfície, e apresenta, através do ponto de vista do paciente, uma visão apurada da sociedade, família, política e o tratamento dado aos internos dos hospícios.
Permeando os pensamentos do personagem, os flashes de sua infância e adolescência aproximam ainda mais o leitor de um mundo profundo e complexo, pouco tratado na literatura com tanto talento e seriedade.
A primeira liberdade é sair do cubículo. A segunda liberdade é andar pelo hospício. Liberdade, só fora do hospício. Mas a liberdade mesmo não existe. Estou sempre esbarrando em alguém para ser livre. Se houvesse liberdade o mundo seria uma loucura com todo mundo. Eu podendo sair por aí com Rimbaud e Baudelaire. Viajando pra Angra dos Reis.
ISBN 978-85-7577-519-6
80 páginas R$ 25,00
Tuesday, October 21, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:47 AM 1 comments
ORELHA DE “TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS”.
O humor é um traço a ser destacado, um humor freqüentemente desabusado, cuja inspiração são as histórias em quadrinhos e as comédias antigas, como as do Gordo e o Magro. Todos os homens e todas as culturas convivem no hospício, um lugar amplo e florido, mas que longe está de ser paradisíaco: é lindo como um cemitério. Ali, entre numerosas citações literárias, cenas de filmes e telenovelas, clichês, grosserias e delicadezas, deparamos, num dos pontos altos do livro, com uma alegoria carnavalesca, carioca: o hospício é a modernidade “louca”, a América Latina de hoje. Baudelaire, um dos personagens mais sombrios deste texto, assiste, mas “não deixa seu olhar fundar a modernidade” – já estamos na pós-modernidade terceiro-mundista.
Num tom cada vez mais alucinado e contagiante, a narrativa conclui com chave de ouro: entre ficção científica e fábula nonsense, Rodrigo cria uma impagável linguagem inumana, digna de Lewis Carroll. É a língua que um promissor líder religioso, curado ou ainda mais louco, divulga para seus infinitos adeptos, cada vez mais fervorosos: os humanos e os não-humanos da América do Sul enfim se irmanam – e uma catástrofe sobrevém. Como o leitor descobrirá.
Sérgio Medeiros
Monday, October 20, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 5:50 AM 0 comments
HOJE É O LANÇAMENTO DE MEU LIVRO.

Botaram tubos em mim e começaram a fazer sucção. Fui abduzido por extraterrestres.
Eu via uma luz passando pelo meu corpo de menino de cinco anos e segurei meu cachorro azul. Desmaiei por alguns segundos. Depois Fronsky estava lá.
Voltaremos para te buscar quando você tiver 18 anos.
Macas por todo o campo. Gente andando com soro dependurado. Tubos saindo da boca de extropiados. Tudo ali era Acneton. Da minha veia, tiraram o meu sangue. Eu agora estava indo tirar uma chapa torácica. Como é que um cara gordo como eu pode sofrer com algum problema que não seja obesidade? Eu deveria estar num spa, e não no Miguel Couto com aquela crise de dengue. Uma samambaia começou a crescer do meu lado, feito um pé de feijão. Eu fui subindo as escadas, ancorado por dois médicos fortes e gordos como eu. Havia toda aquela gente pobre, superpobre: aquilo era o Brasil. Uma zona total. Gente caída no chão. Gente chegando morta. Gente morrendo. Uma fileira de corpos deitados com etiquetas nos pés. Todos munidos de seus prontuários. E aqueles médicos tão jovens, que não sabem muito mais do que eu sei de biologia, fazendo gozação com a sua cara.
Olha que cara gordo!
Que homem gordo!
Que baleia!
Saturday, October 18, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:31 AM 0 comments
TRECHO DE TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS.
Andava pela casa e me sentia um ser livre. A liberdade estava nas pequenas coisas: ver os e-mails, abrir a geladeira. Agora era preciso ser mais saudável. Abrir as coisas. Fui abrindo a caixa de fósforos. Abri o gás. Abri o fogo. Abri a caixa com incenso. Fui abrindo, abrindo, abrindo como se estivesse abrindo e descobrindo as coisas pela primeira vez. Parecia que tinha ficado um século fora de casa. Estava tudo igual, mas diferente.
Era uma borboleta borboleteando pelo campo minado, pela zona de força, pelo local onde ocorreram todos os meus escândalos. Estava de volta à minha vida.
Botei uma pizza no forno. Finalmente, ia comer alguma coisa que me apetecia. Devorei a pizza feito um viking comedor de codornas assadas. Depois, deitei-me pra dormir.
Os remédios me faziam tremer e babar.
A noite chegou veloz. Bati um prato de legumes e salada, de lanche. Fui para o meu quarto e dormi.
Friday, October 17, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:37 AM 0 comments
O TEMÍVEL LOUCO E OS CACHORROS.
Eu sempre dava um cigarro para um louco que, na hora do almoço, dava cabeçada nas paredes. Imagina se esse doido fosse jogador de futebol. A cabeçada dele ia ser poderosa. Acostumado a cabecear paredes, ele ia estourar todas as bolas que cabeceasse. Quem sabe a seleção brasileira não o convocaria?
Toma um cigarro. Fuma o cigarro todo. Vê se não dá mais cabeçada na parede.
Wednesday, October 15, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:53 AM 2 comments
MAIS TRECHOS DE TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS.
O bom do cachorro azul era que ele não crescia e não morria. O negócio era eu cuidar para que ele não envelhecesse. No ano 2000, vou ter 35 anos. Estarei tão velho que mal saberia disso. Eu escovava a pelúcia do bicho. O cachorro azul era a minha melhor companhia. E se existisse mesmo um cachorro azul? Seria do grande caralho ter um. Será que se ele tivesse um filho, nasceria azul também? Se ele pudesse latir e pudesse comer, o que comeria um cachorro azul? Alimentos de sua cor? E quando adoecesse, tomaria remédio azul? Muitos remédios são azuis, dentre eles o Haldol. Eu tomo Haldol para não ter nenhuma ilusão de que morrerei louco, um dia, num lugar sujo e sem comida. É o fim de qualquer louco. Uma oligofrênica, dos seus setenta anos, uniformizada, surge diante dos meus olhos e me dá um beijo na boca. Vejo estrelas cor-de-rosa. Elefantes carregando Rimbaud na África. Verlaine comendo sua mulher, mas pensando em Rimbaud. Eu estou pensando em Nastassja Kinski e seus seios pequeninos em flor. Eu estou no lado escuro e mal posso me mover, mas dá para eu me masturbar muito devagarinho. Eu gozo e minha mão fica toda branca, tomada de sêmen. Minha mão vira uma luva branca. Eu acordo às cinco horas da manhã com o esporro colossal de um enfermeiro. Durmo mal. Acordo mal. Não sei qual dos dois pesadelos é o pior: acordado ou dormindo. Saio da jaula. Já estou na jaula há um bom tempo. Quando me tirarão de lá e me deixarão ficar com os outros? Entro na fila para tomar um café da manhã. É um café com leite que tem mais água do que leite e um pão com uma passada de manteiga na ida. Eu pago para estar neste lugar, mas só a ida da faca com manteiga no pão está nos custos. Hoje eu acordei querendo dizer coisas bonitas. Aproveitei um pouco de tempo que me deixaram livre do lado de fora e apanhei uma flor no jardim. Levei a flor para o quartinho. O enfermeiro encrencou com a flor. Deu-me outro esporro.
Tuesday, October 14, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:38 AM 1 comments
SEMANA DE LANÇAMENTO DO MEU LIVRO TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS.

Tudo ficou Van Gogh
Engoli um chip ontem. Danei-me a falar sobre o sistema que me cerca. Havia um eletrodo em minha testa, não sei se engoli o eletrodo também junto com o chip. Os cavalos estavam galopando. Menos o cavalo-marinho que nadava no aquário.
Ele tem um problema mental. Será que tem alguma seqüela? No fundo deste meu mundo, lá no quarto escurecido por doses de Litrisan, veio um psiquiatra e baionetou uma química na minha celha esquerda. Enquanto outro puxava a minha banha, esticando e esticando para que não sentisse a injeção de Benzetacil.
Benzeta.
Benzeta.
Uma dor imensa na bunda. Tudo girando ao meu redor e eu girando também. Tiro uma meleca e coloco na mesa do canto, bem longe da escuridão no quarto. A escuridão é asséptica. Só o pessoal de branco pode freqüentar aquela linha impura. Seguram-me de novo. Recebo o beijo de minha mãe. Deve ser dia de visita. Acordo e como uma lasca de goiabada com o sanduíche de atum que mamãe trouxe para mim. Escuto uma música tão alta que não entro nos meus pensamentos e estou fora, agora a cocaína não vai chegar. A conexão foi interrompida.
Mamãe mal chega, mal vai.
Ele continua achando que engoliu um chip.
Ela diz que tudo começou há uns dez anos, quando eu achei que havia engolido um grilo.
Quantos grilos você me fez engolir, filho.
Minha mãe disse isso afagando meus lábios e me dando um beijo na bochecha. Por alguns segundos lembrei-me de algo que havia acontecido no dia anterior. Eu havia quebrado toda a casa com uma fúria gigantesca. Nunca mais tomo Haldol na minha vida.
Foi por você não ter tomado o Haldol que você ficou assim, diz o chip. E eu começo a falar: Só no Anhembi é tupi. Só no Anhembi é tupi.
O engolidor de espadas engole uma nesga de fogo por vez. Tá todo mundo engolindo alguma coisa neste exato momento. É hora do jantar. Mamãe se foi. A música volta a me colocar fora de mim.
Entro no quarto. Tiro o pau pra fora e começo a bater uma punheta. Dança da motinha. Dança da motinha. Eu engoli um grilo quando tinha meus 15 anos de idade. Foi a primeira vez que consegui conviver comigo mais intensamente. Salvei uma casa do cupim maldito que queria destrui-la. Eram cupins gigantes. Tenho certeza de que salvei aquela casa. Tenho certeza de que por alguns segundos fui Jesus Cristo.
Ainda continuo na jaula. A minha boca está fechada com uma mordaça. Meus pés estão presos.
Monday, October 13, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:37 AM 1 comments
O PUMA.
1
criar é espetar o silêncio
ouvi-lo gritar de dor e continuar
a tirar do ar: o silêncio
nunca me ouço quando escrevo
a não ser quando não sou, sou
se sou alguma coisa não é pra mim
eu sou um nada cheio de nadas
e cortes e nervuras e tonturas
que me torturam e a quem me lê
escravo do que digo: não me esquivo
no que sei pois se sei nada: tudo serei
breve encanto no olhar do puma
breve vôo de chão da pluma
2
no olhar do puma
há um desejo enorme
pelos bolos pullman
no olhar do puma
algo que me guia
como um ima-
nhã
no olhar do puma
um desassossego
como um olhar fóssil
filho do inexato
no olhar do puma
que me olha dócil
mente
quer olhar pra mim
para burilar-me
no infinito suado
daquela chuva
pois quando me atacar
que azar
darei asas ao quasar
fugirei do puma
sairei dessa para uma
mônada melhor
Friday, October 10, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 11:04 AM 3 comments
NU.
Sobre tudo
o sobretudo
não sabe nada
Sunday, October 05, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 6:08 PM 3 comments
ALGUNS.
Não adianta nada
Ser
Uma grande
Pessoa
E um péssimo
Artista
Não adianta nada
Ser
Uma péssima
Pessoa
E um grande artista
Adianta menos ainda
Ser
Um péssimo artista
E uma péssima
Pessoa
Saturday, October 04, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:38 AM 0 comments
O NADA AO QUADRADO.
Roubaram os óculos de D.
Na praia ele já não vê o mar.
Também, por que está de costas
para as ondas ou meio de lado?
D. está de pernas cruzadas q
se misturam como se fossem
uma só. Que se desequilibram
equalizando: toda madrugada é
uma só. Passo por ele e sento ao
seu lado. Dou uma topada numa
pedra portuguesa quando levanto
e digo tchau. Empresto-lhe meus
óculos. Mesmo assim ele não me vê
e nem o mar que é todo você.
Thursday, October 02, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:02 AM 2 comments
OVO.
Ela eu nunca disse
Algo raro enigma
Talvez apenasmente
Possa saber agora
Que o que circunda
A noite azul é outra
Coisa como ela é
Talvez ouvir seja a
Parte que lhe falta
Mas só estar lendo
Já parece algo novo
Agora é colocar pêlo
Em cabeça de ovo
Tuesday, September 30, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:48 AM 2 comments
OLHOS.
O infinito é tão lindo
que esquisito eu me sinto.
O infindo me aflige ao
saber que o que é lindo
também é findo e
tem o fim onde meu olhos
não podem tecer o horizonte:
olhos diante de minha fronte.
Sunday, September 28, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 9:30 AM 1 comments
poeira.
na tomada fico bem
o led vai e vem
vermelho ascende o branco
mente
quando não tem o pó
do tempo
Saturday, September 27, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 12:43 PM 1 comments
comi.
como
luar desesperado em engolir o fim das escarpas
como
habitat do dinossauro que engolia flores
tudo
está esquálido na tela de meus olhos
tudo
esqueleto de computadores fazendo a minha engrenagem
fim
Thursday, September 25, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:52 AM 1 comments
ana conda anda sobre as ondas.
alguém como
não sabe quem
pode dizer
o que quer
somente só
poderá querer
um falar
tubular
feito onda
feito mantra
ana conda
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:44 AM 1 comments
abril.
a lâmina percorre entra e depois perfaz algum hiato cândido que outrora ressaca de si já foi para outro mar de ardósia arder nefastos crimes como quem teceu sua troca
a lâmina ardeu urdiu semipousou na mão do alicate que a manuseando como uma pinça foi incisiva ao ponto g e futucando arrancou-lhe as orelhas poros ventas e ventanias que colocou no colo de um tigre de bengala
a lâmina tinha só o dom de percorrer aqui e ali aquele bigodinho de casimira que se abria em meio à boca de uma pica nua de si e sem perdigotos brancos por perto e algum escarro verde ou lacrimogênio desterro em fezes se acabou
a lâmina serviu para dar o principal caminho para as balas perdidas que refletidas em si despencavam bolinhas de sabão e saíam gotas cristalizadas de algodão doce
Falou para o que só ouvia:
— Escuta espelho. Abril entrou pelas pupilas trazendo um jogo cedo do vento que invadia que dizia que tremia muito pelas cortinas de enguias e volts e palavras na testa do ontem. Alguma notícia circundou o jornal, mas não entrou ali de última hora somente a manchete escarrando o sangue no café da manhã melita: medito editando sempre as faíscas de pensamento que surgem com aquele homem detrás do outro e além do outro. É a verdade e a outra verdade e a outra verdade — sem se comunicar não dão um samba bom o positivo punque de boutique que seja um pouco positive punk. Agora o agora sucumbe ao inerme e exato circo dos sistemas e dilemas como se a angústia decalcada e podre fosse somente só somente angústia só somente só somente só assim vou lhe chamar assim você vai ser melita e mais café no leite e leite quente na refeição que é bom: e o queijo no café e no café o queijo fétido e aquele queijo com o verde do escarro e aquela verde cor-de-palmeiras e da cor do sistema brasileiro de emblemas — o sbe. Sonho de uma noite. Sete de abril de 2000. Acordo e idéias subtraem idéias. A gente vive muitas angústias na vida. Se uma mulher que se diz minha não quer beijar a minha boca porque se diz triste e porque diz que estou fedendo quando tomei um banho por ela para vê-la e receber seu beijo. Será que a morte me beijará antes que você? Quanto será que custa um beijo na boca? Não consigo entender por que uma mulher não quer beijar a minha boca. Devo eu estar com problemas e será que os problemas são meus ou ela estará fingindo que se apaixona pela pessoa certa e só se apaixona pela pessoa errada. Acho que é hora de romper com uma amizade que está sendo o que o outro quer, mas não o que eu quero. Tudo muito marasmo, muito coisas assim: totalmente liberdade pra ela e nenhuma liberdade pra mim. Ela me prende e não deixa que eu saia de mim mesmo eu não me iludo e eu sei que não há futuro para nós e muito menos para mim. Será que juntos vamos viver mais ou menos ou será que este discurso louco é louco demais para o meu tempo louco? Eu me sinto muito pequeno quando quero pedir um minuto de sexo e não sei se eu sou tão pequeno porque penso em sexo se eu gosto de sexo e se é no sexo que eu me sinto bem com ela. Já não tenho assunto pelo telefone. Não sei mais conjugar os verbos e eu fico pensando se ao invés de falar ela estivesse me usando sexualmente porque quero ser usado desordenadamente como esta fala mal falada, entende?
— Entendo.
— Entende o quê?
— Sou pago para entender.
Então o que falava levantou-se e pegou o que só ouvia pelo braço e deu-lhe um beijo na boca. Saíram camundongos pela orelha do que só ouvia que disse:
— Caralho do céu. Saiu um bacuri morto do meu ouvido.
— No seu ouvido só entra — disse o que só falava.
O que só falava sentou a porrada no que só ouvia que a esta altura falava:
— Eu não falei nada.
O espelho quebrou-se. O que só falava e o que só ouvia eram a mesma pessoa. 13 anos de azar porra.
tudo o uvirou sangue ouvirá impávi doqnem sangue
a lâmina percorre entra e depois perfaz algum hiato cândido que outrora ressaca de si já foi para outro mar de ardósia arder nefastos crimes como quem teceu sua troca
a lâmina ardeu urdiu semipousou na mão do alicate que a manuseando como uma pinça foi incisiva ao ponto g e futucando arrancou-lhe as orelhas poros ventas e ventanias que colocou no colo de um tigre de bengala
a lâmina tinha só o dom de percorrer aqui e ali aquele bigodinho de casimira que se abria em meio à boca de uma pica nua de si e sem perdigotos brancos por perto e algum escarro verde ou lacrimogênio desterro em fezes se acabou
a lâmina serviu para dar o principal caminho para as balas perdidas que refletidas em si despencavam bolinhas de sabão e saíam gotas cristalizadas de algodão doce
Thursday, September 18, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:57 AM 1 comments
A cidade tem cheiro de puteiro
O puteiro tem cheiro de banheiro
O banheiro tem cheiro de esgoto
O esgoto tem cheiro de morto
O morto tem cheiro de rato
O rato tem cheiro de mato
O mato tem cheiro de bosta
E mesmo assim todo mundo gosta
O pão tem cheiro de mofo
O mofo tem cheiro de patrão
O patrão tem cheiro de estado
O estado tem cheiro de ladrão
O ladrão tem cheiro de roubada
A roubada tem cheiro de privada
A privada tem cheiro de bosta
E mesmo assim todo mundo gosta
Todo mundo gosta da própria bosta
Tuesday, September 16, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 12:12 PM 3 comments
A GOTA SUSPENSA PELO MEDO.
A concha guarda em si segredos
E todo o mar do mundo
Cabe dentro dela
A garrafa jogada ao mar
Leva uma carta
A mensagem veio anexada
Com um vírus
Que não tinha cura
A concha A garrafa A mensagem
Estão para o mundo
Assim como os devaneios estão para os medos
Sempre contendo algum segredo alguma onda
Outra agonia
Por isso há que se ter cautela com a navegação parada
De uma vaga suspensa pelo fogo
No fogo dessa lareira que nunca se apaga
Sunday, September 14, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:26 AM 2 comments
EXPLOSÃO.
Há uma porção de fritas sobre a mesa
E há colesterol
Há um cigarro a fumar
E há a pressão alta
Tem umas pílulas azuis
Tudo pra estabilizar
Há uma voltagem a tomar
E um fio desencapado no chão
Há a coleira no cão
E uma volta no quarteirão
Só não há amor
Isto eu não sei o que é
Por isso vivo só e contente
Feliz com uma gengivite
Triste com uma dor
Que não dói na carne
Muita para uma alma
Pouca para um corpo
Friday, September 12, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:55 AM 1 comments
Bico de lacre.
Ana era um tesão. Mulher gostosa para homem nenhum botar defeito. Todo mundo na faculdade queria come-la. Não havia homem vivo que não fizesse reverência à beleza de Ana. Eu sempre gostei de mulheres que falassem algo de inteligente, pelo menos de hora em hora. Não cobrava uma mente brilhante o tempo todo: o que eu queria era um corpo brilhante como o de Ana. Possui-la seria algo muito especial com certeza.
Passei a sentar perto dela na sala de aula. Mas eu corava um pouco diante daquela mulher. Era tesuda. Linda demais para mim. Era tudo que eu queria; tanto que babo enquanto escrevo estas linhas mal traçadas. Além do tesão, fui construindo dentro de mim uma mulher maravilhosa: capaz de recitar Rimbaud de cor. Capaz de soletrar em alemão. Capaz de traduzir para o francês parte da obra de Joyce.
Ela só crescia em mim enquanto pessoa e enquanto mulher. Como pessoa mostrava-se militante da causa do mais pobres e como mulher estava cada vez mais maravilhosa em sua minissaia babante ao chão. Eu não agüentava mais o meu pênis e a minha cabeça. Meu corpo e minha mente estavam fascinados pela mulher maravilhosa chamada Ana.
- Ana qual è o seu nome?
Perguntei pra ela o nome dela que eu sabia. Que gafe. Vai me reduzir a esterco.
- Como sabe o meu nome?
- Todos sabem o seu nome.
- Todos?
A filha da putinha estava me dando mole. Vaca profana: toda mulher gostosa gosta de saber que é gostosa.
- Todos somos seu fã.
- E você vê: eu estou sem namorado há mais de um mês.
Não sei o que eu tenho, mas ela estava me dando mole. Enquanto falava gesticulava. Adoro mulheres que gesticulam. Elas passam uma verdade para a gente. Passa uma sensualidade toda própria. Adoro mulheres que sabem falar. Falar é primordial e Ana falava bem:
- Sabe, você fala tão bem!
- Quero ser professora de Português e escritora. Meu sonho sempre foi escrever um livro do tipo do Patavina Angústia.
- Patavina Angustia! – eu não conhecia porra nenhuma do Patavina – eu adoro Patavina – falei mentindo, óbvio.
E Ela ficou ali meia hora falando do Patavina Angústia e de como a linearidade discursiva poderia ser substituída pela tensão estrutural no texto do tal escritor. Fiquei gamado e nos dias que se seguiriam leria toda a obra do Patavina Angústia.
Era amigo de Ana. Um amigo distante e – com medo de ver o meu planejamento de aproximação – cair por terra, não fazia nada fora das dadas planejadas para que eu traçasse Ana ou não. Ana era tão gostosa que dei um prazo a mim de um ano para que comesse a mulher mais gostosa da faculdade, que eu saiba virgem indevassada ainda nas bocas das matildes da facu.
Fomos estudar junto o tal do Patavina na biblioteca quando ela pegou na minha mão. Havia uma barata andando perto da mesa e de sua bolsa. Eu tremi de medo. Se há uma coisa que detesto é barata, mas se eu mostrasse toda aquela minha porção viado a ela, meu deus! correria o risco de perder meu bem para sempre. Fui macho e matei a kafquiana. Ela, Ana me elevou momentaneamente a condição de herói grego e ainda bem que eu percebia que aquela mulher estava se afeiçoando a mim: porque estava chegando no final do meu prazo de varredura e eu não havia liquidado a promissória, sequer me aproximara dela. E o pior: estava apaixonado. Vivia o dia todo escrevendo Ana no caderno. Fazia balõezinhos com a palavra AMOR. Estava caído de amor. Quedado.
Passava horas a fio em busca de uma idéia salutar que me fizesse chegar a aproximação de minha deusa. Cantava aquela música; “Eu pensei em tanto pra dizer enquanto esperei pela chegada triunfal desta deusa”. Enquanto não a possuía maritalmente e enquanto ela não era a minha mulher e a mulher de meus filhos e a mulher mais perfeita quase a virgem Maria, eu me masturbava libidinosamente pensando em seu corpo. No que me falava. Na sua voz. Nas suas coxas. Na sua zona do agrião. Cheguei – de tanto descabelar o palhaço – a conviver com uma dor de cabeça tão forte que só vinha na hora em que o meu sexo tremia de amor mais sincero: a hora do gozo eufônico. Eu gozava recitando o soneto da fidelidade e minha vida era feliz.
Suficientemente perto do natal fui acometido de uma dor que me ofuscava a entranha, uma dor rimbauldiana mesmo: nós iríamos entrar de férias e resolvi partir com tudo antes que mais um fim de ano chegasse e eu ficasse a ver navios, ou melhor, a ler revistinhas do Hary Jone, a ver os filmes da coleção Sex Hot ou a fazer o plano total de aquisição da tv a cabo, só por causa dos quatro canais de sexo. Estava doido. Quicava dentro de mim. Era a última prova do ano. O tema da prova era Patavina Angústia. Pronto!
- Ana quer estudar o Patavina Angústia lá em casa?
- Tudo bem. Eu vou. Que horas?
Eu não acreditei. Ela iria. Ó Ana Júlia aahaahh ahhahhahahahha/Ó Ana Júlia ahahahahahahah”.
Preparei todo o ambiente da minha casa. Cheguei a chamar uma amiga decoradora – que tive de traçar por conta dos palpites que me deu – e decorei a casa com flores e fragrâncias florais. Botei um espelho no teto para dimensionar todos os ângulos do sexo selvagem que iria rolar. As tamancas vão quebrar, eu dizia a mim mesmo. Era que o meu pai dizia quando me levou pela primeira vez nas termas Santo Amaro.
Ting dong, tocou a campainha. Eu já estava puto de tanto esperar. Ela estava numa calça tão grudada que chegava a ver o âmago da sua xaninha. Meu pau logo endureceu. Eu era um garoto e tinha só vinte e poucos anos: o que potencializava a minha força sexual.
Ela era doce, meiga, bonita, gentil, delicada, bondosa e usava um Pierre Merdon: o melhor perfume do mundo. Sentamos e ela fez questão de ficar bem distante de mim. Li vinte e cinco páginas de um texto que havia feito sobre Patavina. Falei e falei. Dei aula do assunto. Dentro dela eu sentia que ela pensava: “COMO ESTE CARA SABE DE PATAVINA”.
Eu sabia de Patavina para caralho. Não gostava tanto do Patavina quanto da Rosecler Lisboa Prado de Almeida e Fragon, mas tudo pelo sexual.
Conversa vai e vem. A cada meia hora me aproximava vinte centímetros: o que deu no final de duas horas, uma quase coxa a coxa com Ana.
O tempo estava passando e o assunto se assuntando e se espargindo, indo pelo ar. Resolvi partir para o ataque. Botei minha mão sobre as coxas dela. Ana tirou as mãos. Toda a mulher recatada é mais gostosa. Depois de meia hora de tira e bota a mão pra lá e pra cá, eu resolvi parar tudo:
- Pára tudo!
- Por que?
Resolvi me declarar.
- O amor é o fogo que arde sem se ver.
- É ferida que dói e não sente.
Falei por meia hora e olhei por meia hora no azul piscina daqueles olhos e mergulhei na sua boca. Bingo. Vitória. Gol do Mengão no Maracanã.
Ficamos quinze dias saindo e levei dois meses para que fizéssemos amor. Eu não faço sexo. Eu só faço amor. Fizemos de tudo menos o tal do boquete: sexo oral. Ela alegou que exigia uma melhor “enturmação” com o meu ser e que um dia chegaria e nós faríamos o tal do boquete.
Eu estava amando e havia achado a deusa da minha vida e a mulher que iria guiar o meu carmanguia vermelho. A senhora do meu sono. A perfeita. A deusa. A formosa e a imaculada: Ana.
Passeávamos de mãos dadas na praia. Íamos ao cinema. Fizemos todo o roteiro de amor do Rio de Janeiro. Tudo vale a pena quando a pica não é pequena, dizia ela em seus momentos de maior aproximação... Só havia um problema: ela não fazia o boquete. Não chegava perto do Godofredo. Não beijava o bichinho.
- Um dia será o dia em que tudo se revelará e nós faremos sexo oral.
Aguardava este dia tanto que resolvi, pelo fato de ter encontrado a mulher de minha vida, a deusa de meus caminhos, resolver aquele problema com uma profissional. Aquilo não era traição. Era só uma fissura minha que estava aumentando e podia terminar prejudicando o amor da minha vida. Para o meu relacionamento não sucumbir em discussões de relação, procurei uma mulher no jornal. Eu era contra. Juro que sou um homem que preza o amor como algo superior. Não sou do tipo que só pensa em carne. A única carne que como é boi ralado. Com mulher eu faço amor. Desculpe meu bem, mas lá fui eu para a RAINHA DO BOQUETE, um antro de perdição mais conhecido como termas Copacabana.
- Quero conhecer a rainha do boquete. Falei a recepcionista que me olhava.
Pedi desculpas a Ana. O fiz internamente. O fiz por nós dois. Eu não iria beijar. Não iria fazer sexo. Eu não iria me prostituir às avessas e me entregar a luxuria. Era só uma chupadinha. Fui ao reservado e tirei a roupa enquanto pensava numa boca mecânica, numa dessas ordenhadoras de tetas de vaca automática. Eu estava fazendo aquilo pelo meu amor.
A barraca estava armada. O sangue pulsava. Só de pensar que o meu fetiche, algo que não fazia há muito tempo ia ser concretizado, me fazia babar.
Virei-me e fiquei de bunda para a porta e me olhando no espelho. A recepcionista chegou trazendo uma mulher à tira colo. Ela disse que a garota com o véu era a Rainha do Boquete.
Me aproximei. Olhei nos olhos dela e uma lágrima caiu. Tirei o véu e ela era Ana. Ana Júlia era a rainha do boquete. Meu pênis broxou na hora. Cai fulminado com um ataque cardíaco. Hoje me encontro no CTI sexual do céu. Fui condenado a viver de pau duro esperando Ana para consolidar meu desejo mais ulterior.
Tuesday, September 09, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:53 AM 1 comments
DEUS.
Sem mim não sou ninguém
Tenho um umbigo que só pensa em si
O nada só me comove
Quando se opõe ao tudo
Tudo que quero é ser eu
Ser tanto eu que suma de mim
Tão fartamente
Para existir em mais coisas
Para existir em tudo
Sunday, September 07, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:23 AM 2 comments
orquestra
som sob a estação
sobre
posição
sombra sobre sombra
orquestra
no ensaio de fellini
tomba
Thursday, September 04, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 9:24 AM 1 comments
VC.
Vc vai vivendo indo pronde não sabe
Vc vai com o bonde do abade
Vc e mais ninguém além de vc indo além
Vc não come o fim não corta a cena
Vc é de uma posteridade póstuma
Vc só cheira a uma vc q é igual
Vc quem sabe é bem pior do q pensei
Vc quem sabe sou eu também
Tuesday, September 02, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:04 AM 0 comments
POEMA.
prenhe de poesia
cataplasma
catapulta o poeta
sampleador
da rima
nasce o poema
e a armadilha
e dentro do alçapão
a poesia
Saturday, August 30, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:21 AM 1 comments
brincar.
1
a sinceridade das nuvens
que choram quando se encontram
comove meu olhar que transita hospedeiro
de algum azul que não tenho e quero
quando negra a manhã
açoita ainda a alvorada com espadas de sol
eu venho para brincar
com as nuvens que vejo nascer no dia
arrepiado de sombras
e sobras de cadáveres que guerrearam ontem
dizem que foram
para onde ninguém sabe onde vai quem não tem fim
aqui
ou quem tem um fim que não quis ter
pois ambos morreram na folia
e era carnaval
e se devoravam feito dois antropófagos
letrados
letárgicos
litúrgicos
se ofertando ao prazer demiurgo
de um beijo de florete ardendo entre o colo
e o reto
diziam que os índios americanos achavam que a maior humilhaçào
e pior que morrer
era verem seu cu tocado pela lança alheia
o que por muitas vezes acontecia
e fez com que milhares de índios morressem até entender
que uma bala perdida é igual a uma direcionada
e mata do mesmo jeito
2
jasmins descendo pela guela
via sangue arterial O positivo
e glóbulos
e hemácias e
leocemia a beira dos dias de fim de ano
índio de si
indiana jones e james bond e zumbi
fundando palmares nos tumores
covardes cavando covas no queixo de um morto
ou aquele afegão chutando um afegão
em rede
via televisão
ah, quanta cooperação
e eu só queria morrer na arena entre os leões
feito um gladiador suicida
pruridando sua última volúpia
arrancando os contornos das unhas
da primavera
incêndio em meu corpo e fogo no louco asilo
que velho escolho
como escopo
me esculpir do nada
as veias poluídas onde algas e fetos boiam
amalgamados pela vitrea chama
de meu cordão umbilical
vida, vida, vida, vida!
vomito tudo pra dentro de mim
Friday, August 29, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 11:04 AM 1 comments
CAFÉ EXPRESSO COM POESIA.
A poesia é só linguagem? Há muitos escritores que abrem mão do conteúdo em prol da linguagem e vice-versa. Talvez o mais difícil seja aliar um conteúdo apolíneo com uma forma dionisíaca. Este equilíbrio exige muito mais do poeta do que abrir mão de obter uma igualdade de forças no poema. Por isso valorizar e exaurir todas as possibilidades de uma peça poética seja o objetivo de todo o poeta. É a dificuldade de enfrentar a batalha entre essas duas aparentes dicotomias – hoje em dia – que impulsiona o bardo pós-moderno. Se tudo já foi feito, resta restaurar, religar os pólos que se apresentam como forças opostas dentro de um discurso em versos ou em poemas em prosa. Dar apenas um recado nunca aproximou nenhum artista da verdadeira arte, também amontoar palavras numa discursiva transmitindo nenhum sentido não irá levá-lo a um projeto literário sólido. A atmosfera idílica é tão importante quanto o interior da discursiva. Assim o bom poeta é aquele que consegue aliar e atrair para a sua poesia toda uma gama de aspectos que lhe propiciem alcançar o que deseja: cônscio das ferramentas necessárias para tal. Ter uma meta e partir em direção dela. Chegar a tudo aquilo que é necessário racionalmente e irracionalmente, por que não. Doses de loucura combinada com pitadas de realidade são bem-vindas a este habitat.
Neste cadinho tudo deve estar alquimicamente balanceado para que o poeta não embarque numa canoa furada e comece a encharcar seu barco poético com muitos recursos que não dirão nada a ninguém, correndo o risco de tornar-se mais um em meio à multidão e não um raro exemplo de quem sabe fazer versos inovadores e impactantes.
Pensando assim é que podemos avaliar a poesia de Greta Benitez. Ela tem o que dizer e o diz de forma inovadora e de uma maneira feminina. Também é necessário aqui afirmar que a tendência de mostrar o universo de mulher não enfraquece o trabalho da poeta, pelo contrário, mostra como funciona a mente criadora da artista em tempos de crise, em dias em que não é necessário mais debater se existe ou não escritura feminil. Aliás, este debate pode nos levar a lugares pouco interessantes. De que importa assinalar se é o escritor ou a escritora quem escreve o livro? O importante é saber se – através de seu repertório – o autor em questão consegue decolar e alçar um vôo nobre e um olhar arguto sobre os temas escolhidos ou eleitos para serem abordados em seu opúsculo.
Greta consegue e o faz de maneira ímpar mostrando que uma mulher não precisa escrever como homem e nem deve ser tratada como tal por ter uma estética forte. O conteúdo bem elaborado nos coloca em contato com um mundo onde a paixão e o amor são necessários e podem ser vistos por um olhar aguçado e exacerbado no que tange a diversas categorias do enamoramento. Desde paixões platônicas até amores perdidos em copos de cólera ou ainda desencontrados em esforços de tentá-los duradouros. Trata-se de um delicioso painel da vida romântica em dias onde vale quase tudo quando falamos da questão amorosa.
Ela lança luz sobre temas obscuros e também faz o contrário: elabora um relicário onde o desafeto conduz muitas vezes a uma solidão tão profunda quanto o sentimento de angústia tão comum nos nossos dias. Greta Benitez não está sozinha. Monta toda uma espécie de quebra-cabeça em seu Café Expresso Blackbird, que é freqüentado por uma gama de seres meticulosamente envolvidos ou ainda em desenvolvimento de afeto. A lírica amorosa é a praia da escriba que parece não se esforçar muito para colocar no papel o dia-a-dia ao qual estamos acorrentados. Benitez solta todos os grilhões e nos mostra com quanta metáfora e linguagem conotativa se faz um labor de nível alto.
Antenada com tudo de novo que está acontecendo, ela se insere numa espécie de fronteira onde o clássico e a invenção fazem detonar a mesmice que podemos encontrar em outras poéticas puramente estetistas. Não que a estética da artista fuja a noção cabralina de que um poema deve conter o necessário e nada mais que ele para alcançar patamares elevados de criatividade.
Vê-se também na autora uma forte ligação com o blues, no que tem de mais melancólica esta manifestação. Ela se ampara no canto dos negros americanos para construir seu próprio arsenal de melancolia irônica. É a fina ironia do cotidiano de bares onde os freqüentadores são seres estranhos que fazem de Café Expresso um livro muito original. Sem cair nas banalidades e com toques de sensibilidade rara vamos devorando cada um dos poemas, e é uma novidade após outra que não faz do conjunto desta obra algo desnivelado, pelo contrário: a coesão temática é que junto com o lirismo difunde o cantar blueseiro da moça. Tudo com leveza e propriedade de quem vive em Curitiba e num dos bairros onde a vida cultural e gastronômica é bastante intensa.
Engana-se quem ao dar de cara com este exemplo de poesia venha a acreditar que existe muita facilidade em concebê-la. Trata-se de um olhar todo próprio e que demanda vários recuos. Várias leituras dentro de uma leitura. É um livro intenso em sua sensualidade e erotismo. Isto sem cair no lugar comum. De um modo peculiar é traçada uma vida que muitas vezes esbarra na tristeza, mas de uma maneira sempre leve, como se a escritora se esforçasse em não criar o terror onde há espaço para celebração.
Com tudo isso, com todo este conteúdo poético, Greta Benitez se insere dentre as vozes mais criativas da poesia brasileira atual e levanta algumas questões salutares: existe ainda amor em tempos pós-modernos? Pode haver polifonia no lirismo amoroso? É possível ser simples e sofisticado ao mesmo tempo? Onde se encontra o apolíneo e o dionisíaco em doses homeopáticas e bem equilibradas?
A resposta está em Café Expresso Blackbird (Ed. Landy/2006).
Wednesday, August 27, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 9:25 AM 2 comments
Eu acho que estão me matando
Não acho: tenho certeza
Eu acho que tudo acaba
E o nó em minha mente desata
A morte é só mais um caminho
Para quem não tem nenhuma certeza
Já fiz das minhas e ponto
Não espero de ninguém o pranto
Sunday, August 24, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 4:37 PM 3 comments
CONSTATAÇÃO PRIMEIRA.
Há um colibri naquela flor
Há algemas para prender os animais?
Há camisas de força pra enforcar
E um varal cheio delas no meu quintal
E há ainda uma quinta-feira por viver
E talvez nada mais importe tanto assim
Do que o colibri naquela flor
Porque ela sabe dar e ele sabe receber
Se alguém (inclusive eu) soubesse disso
Evitaria internar alguém em um hospício
Saturday, August 23, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:57 AM 1 comments
DIAPASÃO.
Entre a tatuagem e a pele
Está a minha loucura
Às vezes se aproxima da pele
E eu me visto de louco
Vez se aproxima da tatuagem
E estou tomado de mim
Minha loucura vibra
No diapasão do corpo
Minha loucura é escriba
Sempre me imita
Sempre me irrita
Essa minha loucura
Wednesday, August 20, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 6:39 PM 2 comments
MACACOS.
Às vezes ele tapa o ouvido
Tapa o olho
Tapa a boca
E leva um tapa
Não quis ouvir
Não quis ver
Não quis falar
Às vezes é melhor às vezes
Monday, August 18, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 9:45 AM 3 comments
Eu não quero nenhum favor que te agrida
Todo mundo tem o direito de não gostar
Inclusive você. Rodrigo. E ela
Alguém me surge de repente num átimo
Ou poderia ser um simples átomo
Quem sabe alguém venha me socorrer
Talvez seja tarde demais
As angústias só se calam de manhã
Depois que como Eva e a maça
Talvez alguma massa no rosto
Venha desvendar o que digo
Mas o mundo é cheio de intrigas
E me chamo Rodrigo
Saturday, August 16, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:26 AM 2 comments
ILUSÃO DE ÓTICA.
Às vezes penso nas estrelas, nas constelações, nos planetas. Eu cheguei a descobrir uma estrela no céu do meu quarto e batizei-a com o nome dela. Não vou dizer aqui que meu quarto tem muitas estrelas. Mas coloco uma estrela no teto toda a vez que me apaixono e fico olhando aquelas estrelas todas e as estrelas lá fora e acho as do meu quarto mais bonitas. São estrelas cativas. Não podem fazer mal a nenhum planeta. Eu sou um planeta e ela é um planeta. Às vezes sou hostil com novos planetas que orbitam a nossa existência. Fumo um cigarro e teclo com ela no computador e vejo aquela foto linda, maravilhosa e quase um pôster que queria ter no meu quarto. Sorrindo com seus dentes divinos. Com sua boca de Angelina. Com sua bunda de Beounce. Com seus olhos de Ana Paula Arósio. Que mistura intrigante era aquela mulher.
Eu andava no deserto de uma existência meio fria – apesar do calor do deserto – até encontrá-la. Tudo estava tão perdido e sem fim. Passamos a nos ligar todo o dia. Como foi seu dia? O que você me conta de novo? Com quantas metáforas se faz um poema? Qual o papel do escritor na sociedade? Sim, ela era escritora também. Formada em letras. Mestrado. Doutorado. Professora. O que eu mais queria era ela. Passei a convidá-la insistentemente para sair. Passei a freqüentar novos silêncios quando ela dizia que depois e que era cedo e que tudo nos unia e ela não escondia nada de mim. Contou que foi mãe cedo e tinha 38 anos e era uma balzaquiana e as balzaquianas são à flor do mundo para um homem e eu queria aquele encontro como tudo.
Enfim, num dia frio no Rio de Janeiro onde as pombas defecam na existência e os porcos soltam pum molhados em suas cuecas. Num dia em que parecia tudo normal. Num dia como todos os outros. Um dia que não era especial. Uma quarta-feira. Numa hora par fui me encontrar com ela no metrô aqui perto de casa. Ela disse que estaria toda de branco e viria toda linda feito à música do Jorge Bem. Eu tirei os óculos. Me achava mais bonito sem óculos e sem óculos sou meio cego. Olhei ela e só percebi que era gordinhaa. Botei os óculos e veio a decepção. Aquela linda mulher não era linda. Era uma quimera e uma sombra. Ela tinha vinte anos há mais que na foto. Beirava os 60 anos e estava detonada, talvez por uma vida difícil, talvez por ter esquecido de se cuidar e eu broxei em mim. Meu sentimento de amor deu lugar ao ódio. Tirei do coldre meu trinta e oito. Eu havia sido enganado. Havia feito sexo com uma mulher que não era aquela e talvez fosse a filha ou a vizinha ou a prostituta mais próxima. Tudo não passava de uma ilusão. Uma ilusão que fez com que começasse a chover naquele exato momento. Eu, broxa. Completamente broxa e completamente apagado e com um revólver na mão.
Não segui o conselho de um amigo mais velho que sempre me dizia que boceta não se rejeita e desferi quatro tiros nela. Era a única coisa a fazer. Ela havia me enganado. Eu que só havia dado plumas para ela, que estava apaixonado: na verdade estava apaixonado por outra mulher. Por aquela da foto.
Cheguei em casa e abri o computador e o arquivo com a foto dela e bati uma punheta gostosa. Fui gozando tão devagar quanto havia desferido os tiros nela. Depois apontei o revólver para a minha cabeça e pensei em me matar. Pensei tanto que concluí que uma boceta não se rejeita e dei um tiro na própria cabeça do meu pau.
Wednesday, August 13, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 9:39 AM 3 comments
CONSIDERAÇÕES SOBRE ESPAÇO E TEMPO.
Tatuagem como o enigma de uma lembrança que se repete e vira um trauma,
colada ao corpo como uma roupa de látex escura, quase-negra ou quase-branca,
decalque fácil de alguma figurinha de que me lembre quando criança,
dessas que estavam no chiclete bola e que me faziam criar uma lágrima toda a vez que explodia.
Marasmo envolto neste dia em que me lembro de lembranças que se repetem.
Alguns tatuís na mão do garoto que fui estão indo para a panela do sempre.
E estão a circular na memória passiva dos dias que virão.
Saudade é a palavra mais exata para este instante de criação. Já fui melhor em todos os sentidos vários.
Já fiz zigue-zagues imperdoável feito algumas moléculas de hidrogênio e oxigênio.
Hoje quero escrever nas águas do ontem e só apenas relembrar que fui um dia alguém.
Não sendo o nada e sendo o sempre o poeta pode olhar no espelho e não ver refletida nenhuma imagem.
Abre-se em alguma palavra alguma canção alguma nota de dez reais.
Fechado no oriente ocidental e tentando ser mais que uma quimera do hoje.
Sonâmbulos de alguma forma somos todos vampiros de emoções furtivas.
Há alguma avaria no cérebro que aqui escreve esta novidade sem novidade e
então é cair no ostracismo de mais uma manhã.
Talvez alguma estrela possa brotar do chão no céu do sol. Também esperamos que você se encontre em alguma noite dessas e feche o circulo.
Em algum idioma que não entendo minha lucidez está perdida.
Era como se eu quisesse falar as coisas que sempre falei de outras formas: na forma de um relâmpago ou da estática profunda que provoca um acordar sempre até o último dia.
Não entendo o que quis escrever, mas está escrito e se é algum enigma para mim e se o poeta não entender que estou falando dele, foda-se.
Interceder: ser ao mesmo tempo o ser e o não ser.
Monday, August 11, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:51 AM 2 comments
Há degraus de fora
Na sua coxa implume
Há abismos e ventres
Na ponta dos cabelos
Na sua coxa implume
Na ponta dos cabelos
Há abismos e ventos
Há degraus de fora
Tudo para colibri
Coibir com seu corpo
Qualquer sutileza
Ou mosca de sombra
Qualquer degrade
Que urtigue tua pele
Feito uma nuvem negra
Nunca puritana
Saturday, August 09, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:16 AM 1 comments
OLFATO.
Thursday, August 07, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:12 AM 3 comments
CATACLISMO POR TIÃO NUNES.
O choque inicial provocado pela poesia de Rodrigo de Souza Leão é o embate entre o título, que sugere convulsões tremendas, e o tom quase intimista dos poemas. Basta ir ao dicionário para saber que “cataclismo” significa “grande inundação, revolta” ou ainda “convulsão social, grande desastre, derrocada”. Assim, o leitor começa sendo puxado para dentro de revoluções, sociais ou telúricas, pronto para se deparar com um Castro Alves aos berros, um Rimbaud se descabelando ou um Ginsberg clamando no deserto. Isso para ficar na poesia escrita e não procurar sarna pra coçar no mundo da música, que Rodrigo também freqüenta, onde o espetáculo exige convulsões tremendas, e quando mais tremendas, melhor.
Mas cataclismo, no caso, é outra coisa. Trata-se na verdade de uma convulsão tremenda, mas inteiramente silenciosa, instalada na cabeça do poeta, ou daquele que finge por ele, do poeta que se revela torturado. E cataclismo se torna tortura mental, a angustiante prova dos nove a que se submete o poeta em seus desvarios, obsessões, angústias.
Se cada louco é um universo fechado, podemos comparar o cérebro de um louco com o universo infinitamente maior das galáxias e buracos negros, mas não menos redundante, caótico, gratuitamente destrutivo. O pânico espreita, a morte bate à porta, as dentaduras sorriem cúmplices, o medo é uma constante. Serve de parâmetro este curtíssimo poema dedicado ao grande pintor inglês, que enxergava tempestade onde outros viam serenidade:
DENTADURA NO COPO
A Francis Bacon
Há uma escultura dentro do copo
Sorrindo pra mim
É um cataclismo intimista, freqüentemente em tom menor, lembrando a auto-ironia de Manuel Bandeira ou a aparente simplicidade de Mário Quintana. Vale dizer bem depressa, para evitar mal-entendidos, que menor, no caso, se refere ao propósito explícito do poeta por manter o ritmo baixo, por não elevar a voz, não se queixar aos gritos. Há quem prefira ser mais cantor que ator, mais Lennon que Dylan, mais Chico que Gil, para ficar entre meus contemporâneos e não ir buscar lã em berçário ou creche.
OS PSIQUIATRAS
No fundo são boas pessoas
Mas é preciso conhecê-los a fundo
Para fundá-los como amigos
Eu já tive um amigo assim
Ele conversava muito comigo
E eu gastava muito mais com cerveja
Do que dizer lá deitado no divã
Que sou uma mistura
De prozac com lexotan
É quando entram em cena os anti-heróis de Rodrigo: psiquiatras, prozac, lexotan e o resto da turma, com sua carga de terrores que todo bom maluco conhece de sobra. Enfim, essa é uma poesia do beco sem saída, da circularidade, do tentar enxergar através das brumas do invisível. Mas sempre, e olhando de banda, a morte espreita. Surpreende como Rodrigo, ao usar uma linguagem tão intimista, de palavras simples e claras, revele a profundidade da angústia que bate à porta dos cérebros em convulsão, e transforme essa simplicidade – agora sim – num cataclismo que dói fundo, e tão mais fundo quanto aparentemente mais leve.
Sebastião Nunes
Ex-poeta e eterno candidato a doido
Tuesday, August 05, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:56 AM 0 comments
VÍRUS.
Mármore
Anexado ao e-mail
Num sei quantos K bytes
E uma vírgula
Um hiato
Um sopro
E o computador foi pro espaço
E eu querendo ser astronauta
Ou voltar a pedra lascada
Alguns coturnos me cobrem de porrada
Algum urubu em sobrevôo
Tudo que eu disse virou fórmula
E a minha poesia só discorda
É uma corda
No pescoço
Que não me deixa ir
É um estilhaço na omoplata que é um beijo
Um buraco
Algumas baratas que resistirão?
Monday, August 04, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:42 AM 1 comments
Húmus do amor.
quando enquanto flor
você ainda for
seremos
Saturday, August 02, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:02 AM 1 comments
FUMAÇA.
Pedaços
De voz
Vem me dizer
Sobre nós
Alguma coisa
Está errada
Neste estilhaço
Algum maço
Fumo só
O outro os outros
berram
Friday, August 01, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:52 AM 1 comments
Guelras e silêncio. As formigas passeiam pelos peixes. Jonas e sua baleia estão expostos. À mostra, toda a tradição. Estandartes nas mãos. Crianças começam a cantar o estribilho do hino nacional. As bandeiras se masturbam no vento. Poetas discutem a complexidade do mundo sem complexidade. O hino é belo e a flâmula é verde e amarela. Eu só queria romper a bolha que me prende a esta casa e a estes metros quadrados. Eu iria à feira ver os peixes mortos. Sentir o odor fétido das sardinhas expostas. E não ler em algum lugar que tudo está à venda. Inclusive as cabeças dos líderes da oposição poética. Um a um decapitados por serem apenas diferentes.
Wednesday, July 30, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 9:19 AM 3 comments
PRONTUÁRIO.
Fico pensando nas pessoas que catalogam pessoas. Que dizem: este é isso e aquele é aquilo.
Fico pensando que sou um bicho-grilo na barriga de um jovem de quinze anos.
Eu engoli um grilo um dia desses, faz tempo. Foi a primeira vez que disseram: esse menino é doente e devia freqüentar uma escola especial para doentes como ele, que são um perigo para a ordem.
Fico pensando em quem disse que ele é esquizofrênico. Fico pensando se a doença está nele que viu ou nele que via.
Fico puto de a vida de duvidar de diagnósticos. Mas às vezes é melhor acreditar do que andar em círculos.
Porque as pessoas que catalogam pessoas não existem para o mal. No fundo catalogam para o bem.
Você, meu filho, é que é incatalogável.
Todo mundo sabe o fardo que você é para a família.
Precisamos de um nome de doença para pôr no prontuário. Que tal dizer que é síndrome de alguma coisa paranóide?
Que tal não esconder que não é letal?
Morre-se com isso e talvez morrer não uma má idéia.
Tuesday, July 29, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:16 AM 1 comments
AINDA BEM.
A polícia vem e bate um papo com o cara. Se for preciso, colocam a camisa de força.
Eu não tinha como resistir: eram três tiras mais fortes do que eu.
Eles me levaram junto com o meu irmão. Acharam que eu não tinha nada, mas meu pai sentia um medo danado que eu fizesse alguma loucura.
Mas eu era um perigo só para mim mesmo.
Do meu começo podia sair o fim, mas eu não quero rimar pobre com nobre em versos de impacto, só quero um pacto entre mim e você.
Eu jamais poderia dizer que só faria mal a uma mosca. Eram centenas e centenas delas, e matei algumas por prazer.
Saturday, July 26, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:35 AM 1 comments
I JUST WAITING ON A FRIEND.
Minhas mãos são muitas mãos que vejo
Ali me jogo no próximo abismo
Enquanto você esmaga meus calcanhares
Tropeço em sua boca de miragem
Mas neste exato momento pinto um oceano
Com os restos da noite que virá
Tropeço em meus mindinhos de miniatura
E chupo o polegar como que ávido
Por pôr em você o meu sistema
Por colocar a seu serviço mecanismos que me aquecem
Nesta noite fria que virá
Com furacões nos lábios azulados de batom
Então me diga se é dessa vez pra eu me preparar
Com todos os infinitos ínfimos que tenho pra dizer
Porque de nada vale estar vazio e sem tempo
Com tanto tempo que o esperar me traz
Me traz algum doce em sua baioneta de saia
Digo que lamberei sua vulva acrílica
E que seu ventre cristalizado trará um filho
Feito de saliva e sêmen um pouquinho
Um pouquinho de adeus nisto tudo
É que não gostaria mais de falar com você sobre ele
Mas somos sem tão assunto que já falamos tudo
Sobre tudo que está a nossa volta
Se tudo gira e nós giramos na dança dos dias
Somos pegos por anzóis e vistos por submarinos nucleares
Há tanto botão para apertar em teu corpo
Que o amor de robô me atrai muitíssimo
Enquanto teclo me devoro: há um outro duplo para tudo
Me aguarda então farei as malas
E surfarei mais um trem para lhe ver chorar um pouco
Sentindo os espasmos e as contrações de todo o cosmos
Que iremos formar daqui pra frente
Que se foda a chuva muito forte
Que se foda o vento nos meus olhos claros
Estou vestido com a minha melhor roupa
A espera de uma amiga que nunca virá
A espera de um amor que nunca existiu
Thursday, July 24, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:13 AM 1 comments
CÓRTEX.
Certo dia bati numa quina de mesa e tudo foi-se quando não queria mais morrer. Eu não havia sido feliz, mas era um aquário com muitos peixes naquele momento. Foi como se uma baleia caísse dentro do aquário e se debatendo estourou meus tímpanos.
Não entendi.
Não levo nada.
Monday, July 21, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:37 PM 2 comments
A LOUCURA IMPACIENTE.
()
Ali
Onde há paciência
Mora o monge
Aqui
Onde moro eu
Mora a ciência
Que não mora em si
Voa pra longe
Bem-te-vi
()()
Voa pra perto morcegui-
nho
Voa pra dentro do sininho
q minha biza vai badalar
chamando pra tomar o remédio
antes de ir rezar
Sunday, July 20, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:53 AM 0 comments
abscesso.
não tenho
ou tenho
que dizer algo
diante de
alguma de
formação
na gengiva
alguma vulva
cresce em
minha boca
eu cresço
sempre ao
lambê-la
tanto
que explosão
Friday, July 18, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:10 PM 1 comments
MULHER BARBADA.
Teu corpo
É a escada por onde subo
São as digitais que deixo
Seu queixo
De gueixa
Tem alguma barba
Isso não lhe estraga
Thursday, July 17, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 5:27 PM 0 comments
VERDADE.
Tenho pena das mulheres feias
Delas é o reino de Deus
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:31 AM 4 comments
depois do depois
200 vidas depois
depor o rei depois
fazer sua cabeça feito flâmula
brisar
o sangue inócuo de depois
de todo o gole de vida que perdemos
pais e mães correndo
com a alma de filhos mortos depois
o rei vem a público e diz
que depois de decapitado
não adiantará nada ser emasculado
e correr um quarteirão de fúria depois
que estiver morto
pelo menos depois do rei
não adianta depor depois o rei
depois sempre é tarde
Wednesday, July 16, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:50 AM 2 comments
INEVITÁVEL.
Pra que fumar?
Pra que beber?
Pra que parar?
Tuesday, July 15, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 11:59 AM 0 comments
BALACOBACO.
O site do Balacobaco, graças a Andréa Augusto, está de volta no endereço http://balacobaco08.vilabol.uol.com.br/
Lá vocês encontrarão resenhas, entrevistas e poemas.
Monday, July 14, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:49 AM 0 comments
O SER E O NÃO.
acho
certeza não
sei
totalmente sim
talvez
sim e não
quando
tiver certeza
que quem pensa
sou eu
serei então
o ser e o não
Saturday, July 12, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:35 AM 2 comments
O GOZO ETERNO É O NADA.
Thursday, July 10, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 6:36 PM 3 comments
EU, HOJE.
Alguma palavra
Nenhuma poesia
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 9:58 AM 1 comments
MACACOS.
Às vezes ele tapa o ouvido
Tapa o olho
Tapa a boca
E leva um tapa
Não quis ouvir
Não quis ver
Não quis falar
Às vezes é melhor às vezes
Tuesday, July 08, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:32 PM 2 comments
Ler um poema difícil
É como apontar para própria cabeça
Um míssil
Monday, July 07, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:24 PM 4 comments
O JOGO DA AMARELINHA.
Remédios são azuis
Brancos
Ou amarelos
Os doentes são brancos
Negros
Ou amarelos
O Sol é amarelo
A gravata de Maiakovski
Era amarela
Em Van Gogh
Quase tudo era
De modo que o amarelo
É quase a cura
Um passo para o amarelo
É a serpente que se alça
Na conquista
De um terreno onde
Síndromes de
Todas as cores
Habitam
Um único amarelo
Sunday, July 06, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:38 PM 1 comments
http://virtualbooks.terra.com.br/osmelhoresautores/index04.htm
Saturday, July 05, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 9:40 AM 1 comments
Vou tirar você pra dançar
Vou tirar você
Pra você me tirar
Vou mandar você se foder
Sabendo que isso
É impossível de acontecer
Por isso vou fazer de você
O que você é
Um homem dentro de uma mulher
Friday, July 04, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:37 AM 1 comments
O PIOLHO.
O piolho numa folha de papel é um ponto (ponto).
Na cabeça é uma serra-elétrica.
A esteira é ergométrica e o piolho anda quando eu ando.
Sinto falta dos piolhos da infância e corto o cabelo curto.
Estou sempre em curto. Curto isso.
Estes seres abjetos (objetos abjetos) têm que viver (interrogação)?
Talvez seja um deles ou venha a ser já que não faço nada.
Como uma empada e arroto Coca. Deus é um piolho na toca.
Thursday, July 03, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:30 AM 2 comments
A língua se espalha
Feito uma navalha
O corte da palha
No rosto entalha
Tudo que falha
Está na mortalha
Agora me malha
Morto na calha
Wednesday, July 02, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:31 AM 1 comments
QUÍMICA CEREBRAL.
Bom dia Lexotan
Bom dia Prozac
Bom dia Diazepan
Bom dia coquetel
Bom dia amplictil
Bom dia fenergan
Bom dia sossega-leão
Bom dia eletrochoque
Bom dia Piportil
Bom dia Lorax
Bom dia Litium
Bom dia Haldol
Boa noite Rodrigo
Tuesday, July 01, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 10:00 AM 4 comments
OLHOS.
O infinito é tão lindo
que esquisito eu me sinto.
O infindo me aflige ao
saber que o que é lindo
também é findo e
tem o fim onde meu olhos
não podem tecer o horizonte:
olhos diante de minha fronte.
Sunday, June 29, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 6:47 PM 2 comments
A TORMENTA.
eviráoutro
atormentar
a tormenta
ele viverá
e enquanto
ator o for
atormentar
áááááááááá
Saturday, June 28, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 2:12 PM 1 comments
cabra macho pra chuchu
Papai do céu foi um homem
um homem como outro qualquer
por que será que um homem não pode virar mulher?
O infinito está sempre num outro dia
e assim a flor nasce depois de uma morte
dentro do peito onde o poeta é mais forte
Sei que não vou entrar apra a história com um poema como este, mas quero dizer que o poema quando deixa de nascer no poeta é como um abismo que cai. E a última coisa que cai. É o inferno que não quer mais seu fogo. Mesmo sendo eu um poetastro. É diferente de abandonar a poesia e o poema e partir para ser feirante ou motorista de táxi ou médico ou engenheiro ou advogado ou michê. Quando a poesia abandona o poeta resta a morte. Foi o que restou a mim que sou só uma mulher comum. Que amava uma mulher e um homem: o poema e a poesia. Que era uma mulher dentro de um homem e um homem dentro de uma mulher.
Friday, June 27, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 9:33 AM 1 comments
Thursday, June 26, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 9:48 AM 1 comments
A mente mente muito
Diz algo q o corpo não sente
A mente pode ser um ente
Uma estrela cadente
Ou algo que não sei dizer
Vivo em minha mente
Na sua não posso viver
Tuesday, June 24, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:19 PM 2 comments
O tempo é
o tempo.
Faz do tempo o tempo
enquanto tempo.
É alguma coisa: tempo:
o temporal de momento
alguma coisa que
só o tempo sabe
o que é.
A falta de tempo
esconde
o sim: o não: talvez.
De vez a falta de tempo
esconde
um monumento:
um castelo que derrama-
mento:
o seu si-
lêncio e o meu escondem
um sentimento.
Monday, June 23, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:13 PM 1 comments
Rimbaud comia Verlaine
Que comia Rimbaud
Eu li os dois
Sem comer ninguém
Alface era comida boa
Ela vestia verde
Eu comia vento
E colhia às vezes
Todos os garotos
Foram perdigotos
Perdidos em algum esgoto
Fiz dela meu coice
Meu coito
Saturday, June 21, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:23 PM 3 comments
OUTRO CALIBRE DE DEUS.
uma lente acende a folha
sob o sol
sobe o sol no Japão
entra aqui
no Brasil desce o sol
assim é
nasce e morre o sol
todo dia
como eu
Thursday, June 19, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:47 PM 2 comments
Plácido.
O sol plácido sob o ácido
de asfalto flácido:
estruturas que se formam
e bordejam o vento.
O vento eqüino de alguma crina.
Passeia sobre a menina:
enguias pélvicas.
Vive Elvis na sua nevoa.
Escuta a escuna na nuca
e um arrepio lhe come
o chão
e a bolha faz o cachorro
latir e engolir a explosão.
Wednesday, June 18, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:35 PM 2 comments
ONG.
Eu vou formar uma ong
Para jogar ping-pong
Com o neurônio de algum
Cérebro importante
Chutarei os miolos
De algum líder qualquer
Um desses caras que
Trata mal sua mulher
Trata mal os seus filhos
Trata mal o seu povo
E só se da bem
Quando tem alguém novo
Pra seguir suas ordens
Pra lhe dizer amém
Eu vou formar uma ong
Pra eu jogar ping-pong
Tuesday, June 17, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 9:01 AM 1 comments
ã.
ter possuir destru-
ir
rir prescindir par-
ir
são flechas equi-
nó-
cio(s)
estrobolábios e b-
oc
a(s)
a festa esta bomba-
ando
o sexo flui a-
roma
Sunday, June 15, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:41 PM 2 comments
HÍMEN. HOMEM.
O homem é só um pedaço de carne.
Aquele homem é só um hímen.
O hímen é só um pedaço de carne.
Aquele hímen é só um homem.
(Qualquer coisa dita além disso
pode ser simplificar o simples):
(Assim como esquecer de um hífen).
(O hífen é só um homem-hímen).
Saturday, June 14, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 6:48 PM 0 comments
pteroframes surgem
na imagem
logo se vê o fantasma.
e além disso
se dissolvem
os chuviscos
alguns seres
orgânicos que
me causam náusea
como o carrapato-azul
e a lampreia e
os vagalumes
com lâmpadas
na ponta de
suas bundas
piscam
estroboscópicas
mas os piores
são os homens com
monitores voltados
para o seu próprio cu
e o umbigo colado
no ego
sabendo que
todos acabaremos lá:
sete palmos abaixo
Thursday, June 12, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:29 PM 1 comments
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:24 PM 0 comments
de pérolas.
os porcos fartos ainda mastigam
e trituram ao vento
expandindo a distância
entre os beijantes casais corpulentos
perplexos
ficam os versos que o vento esculpe
nas encostas recalcitradas de macacos
e lesmas
caminham rapidamente
as tartarugas
tardam a morrer
quantos porcos matar
até encontrarmos as pérolas?
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 9:24 AM 1 comments
Aranhas e cavalos são sombras perpétuas. A minha sombra não fala de mim. Sequer posso vê-la. Na escuridão/com uma vela acesa/acendo minha mão.
Na imensidão do olho dela posso vê-la. Quem é? Quantos anos?
Tudo me devora até meu ápice e volta devagar como se o dragão que eu cavalgo cuspisse em mim cem mil bocetas azuis.
Monday, June 09, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:37 PM 1 comments
NOMES TROCADOS.
Peço uma linha de sentido
ao meu ser dividido
: entre o opúsculo e o
músculo que nasce másculo
dentro de sua válvula.
Aceito o inquieto retrato:
ela e sua sombra na parede
do quadrado. Ali onde os
mortos ficam pra sempre
vivos e enterrados.
Aqui onde nós tentamos
ter os nomes trocados.
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:46 AM 0 comments
MENOS UM POEMA.
algo que lhe faça
um vestígio de ventre
um ângulo entre as pernas
2.pra q números?
servem para mudar
de assunto e continuar
nele como se não fosse nada
3.detesto número
mas sinto vontade de
numerar um poema errado
(este poema é um erro inevitável)
4.está na hora
de o programa terminar
Mickey Mouse vai partir e
a verdade está toda fora do poema
Saturday, June 07, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:22 PM 0 comments
MY ONLY FRIEND: THE END.
Friday, June 06, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 7:23 PM 2 comments
Thursday, June 05, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:45 PM 2 comments
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:18 PM 0 comments
Carie.
Dentro de mim há algo podre
algo
algas verdes que flutuam
na química cerebral
Alguma coisa estranha nisso tudo
como um dente com chip
que a CIA colocou
Aquela dentista era minha amiga
era
e hoje ela me telefonou
Disse coisas com sentido
q a vida era um perigo
era
e isso eu já sabia
O que ela não me disse foi o q me deixou triste
Não disse que eu estava podre
Mas sei tudo isso tão bem
q não acredito em mim
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:44 AM 1 comments
Gostaria que existisse
a pílula
anti-paranóia
Assim eu estaria
curado
Seria a Glória
Tuesday, June 03, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 9:50 AM 0 comments
ANTIPENSAMENTO.
Monday, June 02, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:15 AM 1 comments
PIERROT
Escorrendo sangue de tinta ósseaOlhos que choram uma inexistência
Punhado de confetes e serpentinas azuis
O carnaval tem cores de felicidade curta
Escuta-se um berro uníssono canto
Sobrancelhas verdes de quem já foi um et
Aqui ali borrões que podem ser tristeza
Um sobrevivente triste feito uma pilastra
Uma tela em branco seria tão expressiva
que a formiga motorizada dirige o ocaso
Tudo flutua no limite de cada cor inacabada
Sunday, June 01, 2008
Posted by Rodrigo de Souza Leão at 8:37 AM 0 comments














