Bico de lacre.

Ana era um tesão. Mulher gostosa para homem nenhum botar defeito. Todo mundo na faculdade queria come-la. Não havia homem vivo que não fizesse reverência à beleza de Ana. Eu sempre gostei de mulheres que falassem algo de inteligente, pelo menos de hora em hora. Não cobrava uma mente brilhante o tempo todo: o que eu queria era um corpo brilhante como o de Ana. Possui-la seria algo muito especial com certeza.

Passei a sentar perto dela na sala de aula. Mas eu corava um pouco diante daquela mulher. Era tesuda. Linda demais para mim. Era tudo que eu queria; tanto que babo enquanto escrevo estas linhas mal traçadas. Além do tesão, fui construindo dentro de mim uma mulher maravilhosa: capaz de recitar Rimbaud de cor. Capaz de soletrar em alemão. Capaz de traduzir para o francês parte da obra de Joyce.

Ela só crescia em mim enquanto pessoa e enquanto mulher. Como pessoa mostrava-se militante da causa do mais pobres e como mulher estava cada vez mais maravilhosa em sua minissaia babante ao chão. Eu não agüentava mais o meu pênis e a minha cabeça. Meu corpo e minha mente estavam fascinados pela mulher maravilhosa chamada Ana.

- Ana qual è o seu nome?
Perguntei pra ela o nome dela que eu sabia. Que gafe. Vai me reduzir a esterco.
- Como sabe o meu nome?
- Todos sabem o seu nome.
- Todos?

A filha da putinha estava me dando mole. Vaca profana: toda mulher gostosa gosta de saber que é gostosa.

- Todos somos seu fã.
- E você vê: eu estou sem namorado há mais de um mês.

Não sei o que eu tenho, mas ela estava me dando mole. Enquanto falava gesticulava. Adoro mulheres que gesticulam. Elas passam uma verdade para a gente. Passa uma sensualidade toda própria. Adoro mulheres que sabem falar. Falar é primordial e Ana falava bem:

- Sabe, você fala tão bem!
- Quero ser professora de Português e escritora. Meu sonho sempre foi escrever um livro do tipo do Patavina Angústia.
- Patavina Angustia! – eu não conhecia porra nenhuma do Patavina – eu adoro Patavina – falei mentindo, óbvio.

E Ela ficou ali meia hora falando do Patavina Angústia e de como a linearidade discursiva poderia ser substituída pela tensão estrutural no texto do tal escritor. Fiquei gamado e nos dias que se seguiriam leria toda a obra do Patavina Angústia.

Era amigo de Ana. Um amigo distante e – com medo de ver o meu planejamento de aproximação – cair por terra, não fazia nada fora das dadas planejadas para que eu traçasse Ana ou não. Ana era tão gostosa que dei um prazo a mim de um ano para que comesse a mulher mais gostosa da faculdade, que eu saiba virgem indevassada ainda nas bocas das matildes da facu.

Fomos estudar junto o tal do Patavina na biblioteca quando ela pegou na minha mão. Havia uma barata andando perto da mesa e de sua bolsa. Eu tremi de medo. Se há uma coisa que detesto é barata, mas se eu mostrasse toda aquela minha porção viado a ela, meu deus! correria o risco de perder meu bem para sempre. Fui macho e matei a kafquiana. Ela, Ana me elevou momentaneamente a condição de herói grego e ainda bem que eu percebia que aquela mulher estava se afeiçoando a mim: porque estava chegando no final do meu prazo de varredura e eu não havia liquidado a promissória, sequer me aproximara dela. E o pior: estava apaixonado. Vivia o dia todo escrevendo Ana no caderno. Fazia balõezinhos com a palavra AMOR. Estava caído de amor. Quedado.

Passava horas a fio em busca de uma idéia salutar que me fizesse chegar a aproximação de minha deusa. Cantava aquela música; “Eu pensei em tanto pra dizer enquanto esperei pela chegada triunfal desta deusa”. Enquanto não a possuía maritalmente e enquanto ela não era a minha mulher e a mulher de meus filhos e a mulher mais perfeita quase a virgem Maria, eu me masturbava libidinosamente pensando em seu corpo. No que me falava. Na sua voz. Nas suas coxas. Na sua zona do agrião. Cheguei – de tanto descabelar o palhaço – a conviver com uma dor de cabeça tão forte que só vinha na hora em que o meu sexo tremia de amor mais sincero: a hora do gozo eufônico. Eu gozava recitando o soneto da fidelidade e minha vida era feliz.

Suficientemente perto do natal fui acometido de uma dor que me ofuscava a entranha, uma dor rimbauldiana mesmo: nós iríamos entrar de férias e resolvi partir com tudo antes que mais um fim de ano chegasse e eu ficasse a ver navios, ou melhor, a ler revistinhas do Hary Jone, a ver os filmes da coleção Sex Hot ou a fazer o plano total de aquisição da tv a cabo, só por causa dos quatro canais de sexo. Estava doido. Quicava dentro de mim. Era a última prova do ano. O tema da prova era Patavina Angústia. Pronto!

- Ana quer estudar o Patavina Angústia lá em casa?
- Tudo bem. Eu vou. Que horas?

Eu não acreditei. Ela iria. Ó Ana Júlia aahaahh ahhahhahahahha/Ó Ana Júlia ahahahahahahah”.

Preparei todo o ambiente da minha casa. Cheguei a chamar uma amiga decoradora – que tive de traçar por conta dos palpites que me deu – e decorei a casa com flores e fragrâncias florais. Botei um espelho no teto para dimensionar todos os ângulos do sexo selvagem que iria rolar. As tamancas vão quebrar, eu dizia a mim mesmo. Era que o meu pai dizia quando me levou pela primeira vez nas termas Santo Amaro.

Ting dong, tocou a campainha. Eu já estava puto de tanto esperar. Ela estava numa calça tão grudada que chegava a ver o âmago da sua xaninha. Meu pau logo endureceu. Eu era um garoto e tinha só vinte e poucos anos: o que potencializava a minha força sexual.

Ela era doce, meiga, bonita, gentil, delicada, bondosa e usava um Pierre Merdon: o melhor perfume do mundo. Sentamos e ela fez questão de ficar bem distante de mim. Li vinte e cinco páginas de um texto que havia feito sobre Patavina. Falei e falei. Dei aula do assunto. Dentro dela eu sentia que ela pensava: “COMO ESTE CARA SABE DE PATAVINA”.

Eu sabia de Patavina para caralho. Não gostava tanto do Patavina quanto da Rosecler Lisboa Prado de Almeida e Fragon, mas tudo pelo sexual.

Conversa vai e vem. A cada meia hora me aproximava vinte centímetros: o que deu no final de duas horas, uma quase coxa a coxa com Ana.

O tempo estava passando e o assunto se assuntando e se espargindo, indo pelo ar. Resolvi partir para o ataque. Botei minha mão sobre as coxas dela. Ana tirou as mãos. Toda a mulher recatada é mais gostosa. Depois de meia hora de tira e bota a mão pra lá e pra cá, eu resolvi parar tudo:

- Pára tudo!
- Por que?

Resolvi me declarar.

- O amor é o fogo que arde sem se ver.
- É ferida que dói e não sente.

Falei por meia hora e olhei por meia hora no azul piscina daqueles olhos e mergulhei na sua boca. Bingo. Vitória. Gol do Mengão no Maracanã.

Ficamos quinze dias saindo e levei dois meses para que fizéssemos amor. Eu não faço sexo. Eu só faço amor. Fizemos de tudo menos o tal do boquete: sexo oral. Ela alegou que exigia uma melhor “enturmação” com o meu ser e que um dia chegaria e nós faríamos o tal do boquete.

Eu estava amando e havia achado a deusa da minha vida e a mulher que iria guiar o meu carmanguia vermelho. A senhora do meu sono. A perfeita. A deusa. A formosa e a imaculada: Ana.

Passeávamos de mãos dadas na praia. Íamos ao cinema. Fizemos todo o roteiro de amor do Rio de Janeiro. Tudo vale a pena quando a pica não é pequena, dizia ela em seus momentos de maior aproximação... Só havia um problema: ela não fazia o boquete. Não chegava perto do Godofredo. Não beijava o bichinho.

- Um dia será o dia em que tudo se revelará e nós faremos sexo oral.


Aguardava este dia tanto que resolvi, pelo fato de ter encontrado a mulher de minha vida, a deusa de meus caminhos, resolver aquele problema com uma profissional. Aquilo não era traição. Era só uma fissura minha que estava aumentando e podia terminar prejudicando o amor da minha vida. Para o meu relacionamento não sucumbir em discussões de relação, procurei uma mulher no jornal. Eu era contra. Juro que sou um homem que preza o amor como algo superior. Não sou do tipo que só pensa em carne. A única carne que como é boi ralado. Com mulher eu faço amor. Desculpe meu bem, mas lá fui eu para a RAINHA DO BOQUETE, um antro de perdição mais conhecido como termas Copacabana.

- Quero conhecer a rainha do boquete. Falei a recepcionista que me olhava.

Pedi desculpas a Ana. O fiz internamente. O fiz por nós dois. Eu não iria beijar. Não iria fazer sexo. Eu não iria me prostituir às avessas e me entregar a luxuria. Era só uma chupadinha. Fui ao reservado e tirei a roupa enquanto pensava numa boca mecânica, numa dessas ordenhadoras de tetas de vaca automática. Eu estava fazendo aquilo pelo meu amor.

A barraca estava armada. O sangue pulsava. Só de pensar que o meu fetiche, algo que não fazia há muito tempo ia ser concretizado, me fazia babar.

Virei-me e fiquei de bunda para a porta e me olhando no espelho. A recepcionista chegou trazendo uma mulher à tira colo. Ela disse que a garota com o véu era a Rainha do Boquete.

Me aproximei. Olhei nos olhos dela e uma lágrima caiu. Tirei o véu e ela era Ana. Ana Júlia era a rainha do boquete. Meu pênis broxou na hora. Cai fulminado com um ataque cardíaco. Hoje me encontro no CTI sexual do céu. Fui condenado a viver de pau duro esperando Ana para consolidar meu desejo mais ulterior.

Tuesday, September 09, 2008

DEUS.

Sem mim não sou ninguém
Tenho um umbigo que só pensa em si
O nada só me comove
Quando se opõe ao tudo
Tudo que quero é ser eu
Ser tanto eu que suma de mim
Tão fartamente
Para existir em mais coisas
Para existir em tudo

Sunday, September 07, 2008

orquestra

som sob a estação
sobre
posição

sombra sobre sombra
orquestra
no ensaio de fellini
tomba

Thursday, September 04, 2008

VC.

Vc vai vivendo indo pronde não sabe
Vc vai com o bonde do abade
Vc e mais ninguém além de vc indo além
Vc não come o fim não corta a cena
Vc é de uma posteridade póstuma
Vc só cheira a uma vc q é igual
Vc quem sabe é bem pior do q pensei
Vc quem sabe sou eu também

Tuesday, September 02, 2008

POEMA.

prenhe de poesia
cataplasma

catapulta o poeta
sampleador

da rima

nasce o poema
e a armadilha

e dentro do alçapão
a poesia

Saturday, August 30, 2008

brincar.

1
a sinceridade das nuvens
que choram quando se encontram
comove meu olhar que transita hospedeiro
de algum azul que não tenho e quero

quando negra a manhã
açoita ainda a alvorada com espadas de sol

eu venho para brincar
com as nuvens que vejo nascer no dia
arrepiado de sombras
e sobras de cadáveres que guerrearam ontem

dizem que foram
para onde ninguém sabe onde vai quem não tem fim
aqui
ou quem tem um fim que não quis ter
pois ambos morreram na folia
e era carnaval
e se devoravam feito dois antropófagos
letrados
letárgicos
litúrgicos
se ofertando ao prazer demiurgo
de um beijo de florete ardendo entre o colo
e o reto

diziam que os índios americanos achavam que a maior humilhaçào
e pior que morrer
era verem seu cu tocado pela lança alheia
o que por muitas vezes acontecia
e fez com que milhares de índios morressem até entender
que uma bala perdida é igual a uma direcionada
e mata do mesmo jeito

2
jasmins descendo pela guela
via sangue arterial O positivo
e glóbulos
e hemácias e
leocemia a beira dos dias de fim de ano
índio de si
indiana jones e james bond e zumbi
fundando palmares nos tumores
covardes cavando covas no queixo de um morto
ou aquele afegão chutando um afegão
em rede
via televisão
ah, quanta cooperação
e eu só queria morrer na arena entre os leões
feito um gladiador suicida
pruridando sua última volúpia
arrancando os contornos das unhas
da primavera
incêndio em meu corpo e fogo no louco asilo
que velho escolho
como escopo
me esculpir do nada
as veias poluídas onde algas e fetos boiam
amalgamados pela vitrea chama
de meu cordão umbilical
vida, vida, vida, vida!
vomito tudo pra dentro de mim

Friday, August 29, 2008

CAFÉ EXPRESSO COM POESIA.

A poesia é só linguagem? Há muitos escritores que abrem mão do conteúdo em prol da linguagem e vice-versa. Talvez o mais difícil seja aliar um conteúdo apolíneo com uma forma dionisíaca. Este equilíbrio exige muito mais do poeta do que abrir mão de obter uma igualdade de forças no poema. Por isso valorizar e exaurir todas as possibilidades de uma peça poética seja o objetivo de todo o poeta. É a dificuldade de enfrentar a batalha entre essas duas aparentes dicotomias – hoje em dia – que impulsiona o bardo pós-moderno. Se tudo já foi feito, resta restaurar, religar os pólos que se apresentam como forças opostas dentro de um discurso em versos ou em poemas em prosa. Dar apenas um recado nunca aproximou nenhum artista da verdadeira arte, também amontoar palavras numa discursiva transmitindo nenhum sentido não irá levá-lo a um projeto literário sólido. A atmosfera idílica é tão importante quanto o interior da discursiva. Assim o bom poeta é aquele que consegue aliar e atrair para a sua poesia toda uma gama de aspectos que lhe propiciem alcançar o que deseja: cônscio das ferramentas necessárias para tal. Ter uma meta e partir em direção dela. Chegar a tudo aquilo que é necessário racionalmente e irracionalmente, por que não. Doses de loucura combinada com pitadas de realidade são bem-vindas a este habitat.

Neste cadinho tudo deve estar alquimicamente balanceado para que o poeta não embarque numa canoa furada e comece a encharcar seu barco poético com muitos recursos que não dirão nada a ninguém, correndo o risco de tornar-se mais um em meio à multidão e não um raro exemplo de quem sabe fazer versos inovadores e impactantes.

Pensando assim é que podemos avaliar a poesia de Greta Benitez. Ela tem o que dizer e o diz de forma inovadora e de uma maneira feminina. Também é necessário aqui afirmar que a tendência de mostrar o universo de mulher não enfraquece o trabalho da poeta, pelo contrário, mostra como funciona a mente criadora da artista em tempos de crise, em dias em que não é necessário mais debater se existe ou não escritura feminil. Aliás, este debate pode nos levar a lugares pouco interessantes. De que importa assinalar se é o escritor ou a escritora quem escreve o livro? O importante é saber se – através de seu repertório – o autor em questão consegue decolar e alçar um vôo nobre e um olhar arguto sobre os temas escolhidos ou eleitos para serem abordados em seu opúsculo.

Greta consegue e o faz de maneira ímpar mostrando que uma mulher não precisa escrever como homem e nem deve ser tratada como tal por ter uma estética forte. O conteúdo bem elaborado nos coloca em contato com um mundo onde a paixão e o amor são necessários e podem ser vistos por um olhar aguçado e exacerbado no que tange a diversas categorias do enamoramento. Desde paixões platônicas até amores perdidos em copos de cólera ou ainda desencontrados em esforços de tentá-los duradouros. Trata-se de um delicioso painel da vida romântica em dias onde vale quase tudo quando falamos da questão amorosa.

Ela lança luz sobre temas obscuros e também faz o contrário: elabora um relicário onde o desafeto conduz muitas vezes a uma solidão tão profunda quanto o sentimento de angústia tão comum nos nossos dias. Greta Benitez não está sozinha. Monta toda uma espécie de quebra-cabeça em seu Café Expresso Blackbird, que é freqüentado por uma gama de seres meticulosamente envolvidos ou ainda em desenvolvimento de afeto. A lírica amorosa é a praia da escriba que parece não se esforçar muito para colocar no papel o dia-a-dia ao qual estamos acorrentados. Benitez solta todos os grilhões e nos mostra com quanta metáfora e linguagem conotativa se faz um labor de nível alto.

Antenada com tudo de novo que está acontecendo, ela se insere numa espécie de fronteira onde o clássico e a invenção fazem detonar a mesmice que podemos encontrar em outras poéticas puramente estetistas. Não que a estética da artista fuja a noção cabralina de que um poema deve conter o necessário e nada mais que ele para alcançar patamares elevados de criatividade.

Vê-se também na autora uma forte ligação com o blues, no que tem de mais melancólica esta manifestação. Ela se ampara no canto dos negros americanos para construir seu próprio arsenal de melancolia irônica. É a fina ironia do cotidiano de bares onde os freqüentadores são seres estranhos que fazem de Café Expresso um livro muito original. Sem cair nas banalidades e com toques de sensibilidade rara vamos devorando cada um dos poemas, e é uma novidade após outra que não faz do conjunto desta obra algo desnivelado, pelo contrário: a coesão temática é que junto com o lirismo difunde o cantar blueseiro da moça. Tudo com leveza e propriedade de quem vive em Curitiba e num dos bairros onde a vida cultural e gastronômica é bastante intensa.

Engana-se quem ao dar de cara com este exemplo de poesia venha a acreditar que existe muita facilidade em concebê-la. Trata-se de um olhar todo próprio e que demanda vários recuos. Várias leituras dentro de uma leitura. É um livro intenso em sua sensualidade e erotismo. Isto sem cair no lugar comum. De um modo peculiar é traçada uma vida que muitas vezes esbarra na tristeza, mas de uma maneira sempre leve, como se a escritora se esforçasse em não criar o terror onde há espaço para celebração.

Com tudo isso, com todo este conteúdo poético, Greta Benitez se insere dentre as vozes mais criativas da poesia brasileira atual e levanta algumas questões salutares: existe ainda amor em tempos pós-modernos? Pode haver polifonia no lirismo amoroso? É possível ser simples e sofisticado ao mesmo tempo? Onde se encontra o apolíneo e o dionisíaco em doses homeopáticas e bem equilibradas?

A resposta está em Café Expresso Blackbird (Ed. Landy/2006).

Wednesday, August 27, 2008

Eu acho que estão me matando
Não acho: tenho certeza

Eu acho que tudo acaba
E o nó em minha mente desata

A morte é só mais um caminho
Para quem não tem nenhuma certeza

Já fiz das minhas e ponto
Não espero de ninguém o pranto

Sunday, August 24, 2008

CONSTATAÇÃO PRIMEIRA.

Há um colibri naquela flor
Há algemas para prender os animais?

Há camisas de força pra enforcar
E um varal cheio delas no meu quintal

E há ainda uma quinta-feira por viver
E talvez nada mais importe tanto assim

Do que o colibri naquela flor
Porque ela sabe dar e ele sabe receber

Se alguém (inclusive eu) soubesse disso
Evitaria internar alguém em um hospício

Saturday, August 23, 2008

DIAPASÃO.

Entre a tatuagem e a pele
Está a minha loucura

Às vezes se aproxima da pele
E eu me visto de louco

Vez se aproxima da tatuagem
E estou tomado de mim

Minha loucura vibra
No diapasão do corpo

Minha loucura é escriba
Sempre me imita

Sempre me irrita
Essa minha loucura

Wednesday, August 20, 2008

MACACOS.

Às vezes ele tapa o ouvido
Tapa o olho
Tapa a boca
E leva um tapa

Não quis ouvir
Não quis ver
Não quis falar

Às vezes é melhor às vezes

Monday, August 18, 2008

Eu não quero nenhum favor que te agrida
Todo mundo tem o direito de não gostar
Inclusive você. Rodrigo. E ela
Alguém me surge de repente num átimo
Ou poderia ser um simples átomo
Quem sabe alguém venha me socorrer
Talvez seja tarde demais
As angústias só se calam de manhã
Depois que como Eva e a maça
Talvez alguma massa no rosto
Venha desvendar o que digo
Mas o mundo é cheio de intrigas
E me chamo Rodrigo

Saturday, August 16, 2008

ILUSÃO DE ÓTICA.

Ela teclou comigo e me mostrou uma foto bonita. Era uma estrela. Um cometa. Uma galáxia e um furacão em forma feminina. Uma mulher bonita conquista o que quiser e geralmente, é a beleza o que mais encanta um homem. Uma cobra encantada pelo faquir. De flauta em punho e tudo. O que você gosta de fazer nas horas vagas? Quantos quilos você têm? Você gosta do Arpoador e de música? O que você gosta de ouvir? E assim depois de cada resposta precisa e uma baforada de cigarro, eu me apaixonei. Liguei pra ela. E ela disse que queria me ver (um dia) e sentir a brisa fresca da manhã abraçada a mim, perto da praia. Havia o céu e o azul e a nuvem e um monte de coisas bonitas que pensamos em fazer junto. E eu com aquela foto dela na cabeça e me masturbando enquanto fazíamos sexo virtual. Eu ligava para ela e ouvia sua voz bonita e ela me falava flores. Me dizia flores até o dia em que – sem conhecê-la – mandei flores virtuais pra ela e ela disse que não abriu as flores porque estas poderiam estar com vírus. Eu não lhe conheço direito. Não sei do que você gosta. Escolhi um tema para o nosso amor que estava apenas começando. Era uma música batida. Mas eu gosto de músicas que tocam no rádio. Gosto mais do meu passado que do meu presente e do meu futuro. Na verdade só temos o passado e eu não gosto de perder memória e o que eu vi nela além da beleza era uma coisa que me fascinava: a sua inteligência. Mulheres inteligentes e bonitas são ainda mais inteligentes e bonitas.
Às vezes penso nas estrelas, nas constelações, nos planetas. Eu cheguei a descobrir uma estrela no céu do meu quarto e batizei-a com o nome dela. Não vou dizer aqui que meu quarto tem muitas estrelas. Mas coloco uma estrela no teto toda a vez que me apaixono e fico olhando aquelas estrelas todas e as estrelas lá fora e acho as do meu quarto mais bonitas. São estrelas cativas. Não podem fazer mal a nenhum planeta. Eu sou um planeta e ela é um planeta. Às vezes sou hostil com novos planetas que orbitam a nossa existência. Fumo um cigarro e teclo com ela no computador e vejo aquela foto linda, maravilhosa e quase um pôster que queria ter no meu quarto. Sorrindo com seus dentes divinos. Com sua boca de Angelina. Com sua bunda de Beounce. Com seus olhos de Ana Paula Arósio. Que mistura intrigante era aquela mulher.
Eu andava no deserto de uma existência meio fria – apesar do calor do deserto – até encontrá-la. Tudo estava tão perdido e sem fim. Passamos a nos ligar todo o dia. Como foi seu dia? O que você me conta de novo? Com quantas metáforas se faz um poema? Qual o papel do escritor na sociedade? Sim, ela era escritora também. Formada em letras. Mestrado. Doutorado. Professora. O que eu mais queria era ela. Passei a convidá-la insistentemente para sair. Passei a freqüentar novos silêncios quando ela dizia que depois e que era cedo e que tudo nos unia e ela não escondia nada de mim. Contou que foi mãe cedo e tinha 38 anos e era uma balzaquiana e as balzaquianas são à flor do mundo para um homem e eu queria aquele encontro como tudo.
Enfim, num dia frio no Rio de Janeiro onde as pombas defecam na existência e os porcos soltam pum molhados em suas cuecas. Num dia em que parecia tudo normal. Num dia como todos os outros. Um dia que não era especial. Uma quarta-feira. Numa hora par fui me encontrar com ela no metrô aqui perto de casa. Ela disse que estaria toda de branco e viria toda linda feito à música do Jorge Bem. Eu tirei os óculos. Me achava mais bonito sem óculos e sem óculos sou meio cego. Olhei ela e só percebi que era gordinhaa. Botei os óculos e veio a decepção. Aquela linda mulher não era linda. Era uma quimera e uma sombra. Ela tinha vinte anos há mais que na foto. Beirava os 60 anos e estava detonada, talvez por uma vida difícil, talvez por ter esquecido de se cuidar e eu broxei em mim. Meu sentimento de amor deu lugar ao ódio. Tirei do coldre meu trinta e oito. Eu havia sido enganado. Havia feito sexo com uma mulher que não era aquela e talvez fosse a filha ou a vizinha ou a prostituta mais próxima. Tudo não passava de uma ilusão. Uma ilusão que fez com que começasse a chover naquele exato momento. Eu, broxa. Completamente broxa e completamente apagado e com um revólver na mão.
Não segui o conselho de um amigo mais velho que sempre me dizia que boceta não se rejeita e desferi quatro tiros nela. Era a única coisa a fazer. Ela havia me enganado. Eu que só havia dado plumas para ela, que estava apaixonado: na verdade estava apaixonado por outra mulher. Por aquela da foto.
Cheguei em casa e abri o computador e o arquivo com a foto dela e bati uma punheta gostosa. Fui gozando tão devagar quanto havia desferido os tiros nela. Depois apontei o revólver para a minha cabeça e pensei em me matar. Pensei tanto que concluí que uma boceta não se rejeita e dei um tiro na própria cabeça do meu pau.

Wednesday, August 13, 2008

CONSIDERAÇÕES SOBRE ESPAÇO E TEMPO.

Tatuagem como o enigma de uma lembrança que se repete e vira um trauma,
colada ao corpo como uma roupa de látex escura, quase-negra ou quase-branca,
decalque fácil de alguma figurinha de que me lembre quando criança,
dessas que estavam no chiclete bola e que me faziam criar uma lágrima toda a vez que explodia.
Marasmo envolto neste dia em que me lembro de lembranças que se repetem.
Alguns tatuís na mão do garoto que fui estão indo para a panela do sempre.
E estão a circular na memória passiva dos dias que virão.
Saudade é a palavra mais exata para este instante de criação. Já fui melhor em todos os sentidos vários.
Já fiz zigue-zagues imperdoável feito algumas moléculas de hidrogênio e oxigênio.
Hoje quero escrever nas águas do ontem e só apenas relembrar que fui um dia alguém.
Não sendo o nada e sendo o sempre o poeta pode olhar no espelho e não ver refletida nenhuma imagem.
Abre-se em alguma palavra alguma canção alguma nota de dez reais.
Fechado no oriente ocidental e tentando ser mais que uma quimera do hoje.
Sonâmbulos de alguma forma somos todos vampiros de emoções furtivas.
Há alguma avaria no cérebro que aqui escreve esta novidade sem novidade e
então é cair no ostracismo de mais uma manhã.
Talvez alguma estrela possa brotar do chão no céu do sol. Também esperamos que você se encontre em alguma noite dessas e feche o circulo.
Em algum idioma que não entendo minha lucidez está perdida.
Era como se eu quisesse falar as coisas que sempre falei de outras formas: na forma de um relâmpago ou da estática profunda que provoca um acordar sempre até o último dia.
Não entendo o que quis escrever, mas está escrito e se é algum enigma para mim e se o poeta não entender que estou falando dele, foda-se.
Interceder: ser ao mesmo tempo o ser e o não ser.

Monday, August 11, 2008

Há degraus de fora
Na sua coxa implume
Há abismos e ventres
Na ponta dos cabelos

Na sua coxa implume
Na ponta dos cabelos
Há abismos e ventos
Há degraus de fora

Tudo para colibri
Coibir com seu corpo
Qualquer sutileza
Ou mosca de sombra

Qualquer degrade
Que urtigue tua pele
Feito uma nuvem negra
Nunca puritana

Saturday, August 09, 2008

OLFATO.

Os acidentes do espelho e seus cacos de vidro e seus cactos que ferem e seus desertos que unem pontes podem possibilitar a mim um corte ou tornar-me alguma mulher que se movimenta despetalada nas minhas entranhas. Essa mulher sou eu no outro dia em que fui homem mastigando o delírio olfativo que um cigarro provoca: cheiro de merda.

Thursday, August 07, 2008

CATACLISMO POR TIÃO NUNES.

CATACLISMO EM BURACO NEGRO

O choque inicial provocado pela poesia de Rodrigo de Souza Leão é o embate entre o título, que sugere convulsões tremendas, e o tom quase intimista dos poemas. Basta ir ao dicionário para saber que “cataclismo” significa “grande inundação, revolta” ou ainda “convulsão social, grande desastre, derrocada”. Assim, o leitor começa sendo puxado para dentro de revoluções, sociais ou telúricas, pronto para se deparar com um Castro Alves aos berros, um Rimbaud se descabelando ou um Ginsberg clamando no deserto. Isso para ficar na poesia escrita e não procurar sarna pra coçar no mundo da música, que Rodrigo também freqüenta, onde o espetáculo exige convulsões tremendas, e quando mais tremendas, melhor.
Mas cataclismo, no caso, é outra coisa. Trata-se na verdade de uma convulsão tremenda, mas inteiramente silenciosa, instalada na cabeça do poeta, ou daquele que finge por ele, do poeta que se revela torturado. E cataclismo se torna tortura mental, a angustiante prova dos nove a que se submete o poeta em seus desvarios, obsessões, angústias.
Se cada louco é um universo fechado, podemos comparar o cérebro de um louco com o universo infinitamente maior das galáxias e buracos negros, mas não menos redundante, caótico, gratuitamente destrutivo. O pânico espreita, a morte bate à porta, as dentaduras sorriem cúmplices, o medo é uma constante. Serve de parâmetro este curtíssimo poema dedicado ao grande pintor inglês, que enxergava tempestade onde outros viam serenidade:

DENTADURA NO COPO

A Francis Bacon

Há uma escultura dentro do copo
Sorrindo pra mim

É um cataclismo intimista, freqüentemente em tom menor, lembrando a auto-ironia de Manuel Bandeira ou a aparente simplicidade de Mário Quintana. Vale dizer bem depressa, para evitar mal-entendidos, que menor, no caso, se refere ao propósito explícito do poeta por manter o ritmo baixo, por não elevar a voz, não se queixar aos gritos. Há quem prefira ser mais cantor que ator, mais Lennon que Dylan, mais Chico que Gil, para ficar entre meus contemporâneos e não ir buscar lã em berçário ou creche.

OS PSIQUIATRAS

No fundo são boas pessoas
Mas é preciso conhecê-los a fundo
Para fundá-los como amigos

Eu já tive um amigo assim
Ele conversava muito comigo
E eu gastava muito mais com cerveja

Do que dizer lá deitado no divã
Que sou uma mistura
De prozac com lexotan

É quando entram em cena os anti-heróis de Rodrigo: psiquiatras, prozac, lexotan e o resto da turma, com sua carga de terrores que todo bom maluco conhece de sobra. Enfim, essa é uma poesia do beco sem saída, da circularidade, do tentar enxergar através das brumas do invisível. Mas sempre, e olhando de banda, a morte espreita. Surpreende como Rodrigo, ao usar uma linguagem tão intimista, de palavras simples e claras, revele a profundidade da angústia que bate à porta dos cérebros em convulsão, e transforme essa simplicidade – agora sim – num cataclismo que dói fundo, e tão mais fundo quanto aparentemente mais leve.

Sebastião Nunes
Ex-poeta e eterno candidato a doido

Tuesday, August 05, 2008

VÍRUS.

Mármore
Anexado ao e-mail
Num sei quantos K bytes
E uma vírgula
Um hiato
Um sopro
E o computador foi pro espaço
E eu querendo ser astronauta
Ou voltar a pedra lascada

Alguns coturnos me cobrem de porrada
Algum urubu em sobrevôo
Tudo que eu disse virou fórmula
E a minha poesia só discorda
É uma corda
No pescoço
Que não me deixa ir
É um estilhaço na omoplata que é um beijo
Um buraco
Algumas baratas que resistirão?

Monday, August 04, 2008

Húmus do amor.

quando enquanto flor
você ainda for
seremos

Saturday, August 02, 2008

FUMAÇA.

Pedaços

De voz

Vem me dizer

Sobre nós


Alguma coisa

Está errada

Neste estilhaço


Algum maço

Fumo só


O outro os outros

berram

Friday, August 01, 2008

Guelras e silêncio. As formigas passeiam pelos peixes. Jonas e sua baleia estão expostos. À mostra, toda a tradição. Estandartes nas mãos. Crianças começam a cantar o estribilho do hino nacional. As bandeiras se masturbam no vento. Poetas discutem a complexidade do mundo sem complexidade. O hino é belo e a flâmula é verde e amarela. Eu só queria romper a bolha que me prende a esta casa e a estes metros quadrados. Eu iria à feira ver os peixes mortos. Sentir o odor fétido das sardinhas expostas. E não ler em algum lugar que tudo está à venda. Inclusive as cabeças dos líderes da oposição poética. Um a um decapitados por serem apenas diferentes.

Wednesday, July 30, 2008

PRONTUÁRIO.

Fico pensando nas pessoas que catalogam pessoas. Que dizem: este é isso e aquele é aquilo.

Fico pensando que sou um bicho-grilo na barriga de um jovem de quinze anos.

Eu engoli um grilo um dia desses, faz tempo. Foi a primeira vez que disseram: esse menino é doente e devia freqüentar uma escola especial para doentes como ele, que são um perigo para a ordem.

Fico pensando em quem disse que ele é esquizofrênico. Fico pensando se a doença está nele que viu ou nele que via.

Fico puto de a vida de duvidar de diagnósticos. Mas às vezes é melhor acreditar do que andar em círculos.

Porque as pessoas que catalogam pessoas não existem para o mal. No fundo catalogam para o bem.

Você, meu filho, é que é incatalogável.

Todo mundo sabe o fardo que você é para a família.

Precisamos de um nome de doença para pôr no prontuário. Que tal dizer que é síndrome de alguma coisa paranóide?

Que tal não esconder que não é letal?

Morre-se com isso e talvez morrer não uma má idéia.

Tuesday, July 29, 2008

AINDA BEM.

Hoje em dia, quando alguém está doente, a família chama a polícia.

A polícia vem e bate um papo com o cara. Se for preciso, colocam a camisa de força.

Eu não tinha como resistir: eram três tiras mais fortes do que eu.

Eles me levaram junto com o meu irmão. Acharam que eu não tinha nada, mas meu pai sentia um medo danado que eu fizesse alguma loucura.

Mas eu era um perigo só para mim mesmo.

Do meu começo podia sair o fim, mas eu não quero rimar pobre com nobre em versos de impacto, só quero um pacto entre mim e você.
Eu jamais poderia dizer que só faria mal a uma mosca. Eram centenas e centenas delas, e matei algumas por prazer.

Saturday, July 26, 2008

I JUST WAITING ON A FRIEND.

Minhas mãos são muitas mãos que vejo
Ali me jogo no próximo abismo
Enquanto você esmaga meus calcanhares
Tropeço em sua boca de miragem
Mas neste exato momento pinto um oceano
Com os restos da noite que virá
Tropeço em meus mindinhos de miniatura
E chupo o polegar como que ávido
Por pôr em você o meu sistema
Por colocar a seu serviço mecanismos que me aquecem
Nesta noite fria que virá
Com furacões nos lábios azulados de batom
Então me diga se é dessa vez pra eu me preparar
Com todos os infinitos ínfimos que tenho pra dizer
Porque de nada vale estar vazio e sem tempo
Com tanto tempo que o esperar me traz
Me traz algum doce em sua baioneta de saia
Digo que lamberei sua vulva acrílica
E que seu ventre cristalizado trará um filho
Feito de saliva e sêmen um pouquinho
Um pouquinho de adeus nisto tudo
É que não gostaria mais de falar com você sobre ele
Mas somos sem tão assunto que já falamos tudo
Sobre tudo que está a nossa volta
Se tudo gira e nós giramos na dança dos dias
Somos pegos por anzóis e vistos por submarinos nucleares
Há tanto botão para apertar em teu corpo
Que o amor de robô me atrai muitíssimo
Enquanto teclo me devoro: há um outro duplo para tudo
Me aguarda então farei as malas
E surfarei mais um trem para lhe ver chorar um pouco
Sentindo os espasmos e as contrações de todo o cosmos
Que iremos formar daqui pra frente
Que se foda a chuva muito forte
Que se foda o vento nos meus olhos claros
Estou vestido com a minha melhor roupa
A espera de uma amiga que nunca virá
A espera de um amor que nunca existiu

Thursday, July 24, 2008

CÓRTEX.

Comprei uma arma prateada para me matar. Era a mais bonita e a mais linda pistola e também a mais cara. Gastei todo o meu dinheiro na compra. Mas você não quis atirar em mim e como sou um covarde não puxei o gatilho. Preferi me jogar. Mas não sabia que eu tinha asas e naturalmente elas voavam ou me faziam voar. Tentei tantas vezes me matar que desisti por incompetência.

Certo dia bati numa quina de mesa e tudo foi-se quando não queria mais morrer. Eu não havia sido feliz, mas era um aquário com muitos peixes naquele momento. Foi como se uma baleia caísse dentro do aquário e se debatendo estourou meus tímpanos.

Não entendi.

Não levo nada.

Monday, July 21, 2008

A LOUCURA IMPACIENTE.

()
Ali
Onde há paciência
Mora o monge

Aqui
Onde moro eu
Mora a ciência
Que não mora em si

Voa pra longe
Bem-te-vi

()()
Voa pra perto morcegui-
nho

Voa pra dentro do sininho
q minha biza vai badalar

chamando pra tomar o remédio
antes de ir rezar

Sunday, July 20, 2008

abscesso.

não tenho
ou tenho

que dizer algo
diante de

alguma de
formação

na gengiva
alguma vulva

cresce em
minha boca

eu cresço
sempre ao

lambê-la
tanto

que explosão

Friday, July 18, 2008

MULHER BARBADA.

Teu corpo
É a escada por onde subo

São as digitais que deixo

Seu queixo

De gueixa
Tem alguma barba

Isso não lhe estraga

Thursday, July 17, 2008

VERDADE.

Tenho pena das mulheres feias
Delas é o reino de Deus

depois do depois
200 vidas depois

depor o rei depois
fazer sua cabeça feito flâmula
brisar
o sangue inócuo de depois
de todo o gole de vida que perdemos

pais e mães correndo
com a alma de filhos mortos depois
o rei vem a público e diz
que depois de decapitado
não adiantará nada ser emasculado
e correr um quarteirão de fúria depois
que estiver morto
pelo menos depois do rei

não adianta depor depois o rei
depois sempre é tarde

Wednesday, July 16, 2008

INEVITÁVEL.

Pra que fumar?
Pra que beber?
Pra que parar?

Tuesday, July 15, 2008

BALACOBACO.




O site do Balacobaco, graças a Andréa Augusto, está de volta no endereço http://balacobaco08.vilabol.uol.com.br/

Lá vocês encontrarão resenhas, entrevistas e poemas.

Monday, July 14, 2008

O SER E O NÃO.

acho
certeza não

sei
totalmente sim

talvez
sim e não

quando
tiver certeza

que quem pensa
sou eu

serei então
o ser e o não

Saturday, July 12, 2008

O GOZO ETERNO É O NADA.


Me bolino com o tempo
Ainda não aprendi a gozar

Do silêncio brotou a espera
Nunca esperma

Thursday, July 10, 2008

EU, HOJE.

Algum poema
Alguma palavra
Nenhuma poesia

MACACOS.

Às vezes ele tapa o ouvido
Tapa o olho
Tapa a boca
E leva um tapa

Não quis ouvir
Não quis ver
Não quis falar

Às vezes é melhor às vezes

Tuesday, July 08, 2008

Ler um poema difícil

É como apontar para própria cabeça

Um míssil

Monday, July 07, 2008

O JOGO DA AMARELINHA.

Remédios são azuis
Brancos
Ou amarelos
Os doentes são brancos
Negros
Ou amarelos
O Sol é amarelo
A gravata de Maiakovski
Era amarela
Em Van Gogh
Quase tudo era
De modo que o amarelo
É quase a cura
Um passo para o amarelo
É a serpente que se alça
Na conquista
De um terreno onde
Síndromes de
Todas as cores
Habitam
Um único amarelo

Sunday, July 06, 2008

http://virtualbooks.terra.com.br/osmelhoresautores/index04.htm

Alguns de meus livros. Alguns e-books grátis.

Saturday, July 05, 2008

Vou tirar você pra dançar
Vou tirar você
Pra você me tirar

Vou mandar você se foder
Sabendo que isso
É impossível de acontecer

Por isso vou fazer de você
O que você é
Um homem dentro de uma mulher

Friday, July 04, 2008

O PIOLHO.

O piolho numa folha de papel é um ponto (ponto).
Na cabeça é uma serra-elétrica.

A esteira é ergométrica e o piolho anda quando eu ando.
Sinto falta dos piolhos da infância e corto o cabelo curto.

Estou sempre em curto. Curto isso.
Estes seres abjetos (objetos abjetos) têm que viver (interrogação)?

Talvez seja um deles ou venha a ser já que não faço nada.
Como uma empada e arroto Coca. Deus é um piolho na toca.

Thursday, July 03, 2008

A língua se espalha
Feito uma navalha

O corte da palha
No rosto entalha

Tudo que falha
Está na mortalha

Agora me malha
Morto na calha

Wednesday, July 02, 2008

QUÍMICA CEREBRAL.

Bom dia Lexotan
Bom dia Prozac
Bom dia Diazepan
Bom dia coquetel
Bom dia amplictil
Bom dia fenergan
Bom dia sossega-leão
Bom dia eletrochoque
Bom dia Piportil
Bom dia Lorax
Bom dia Litium
Bom dia Haldol

Boa noite Rodrigo

Tuesday, July 01, 2008

OLHOS.

O infinito é tão lindo
que esquisito eu me sinto.

O infindo me aflige ao
saber que o que é lindo

também é findo e
tem o fim onde meu olhos

não podem tecer o horizonte:
olhos diante de minha fronte.

Sunday, June 29, 2008

A TORMENTA.

elemorrerá
eviráoutro
atormentar
a tormenta

ele viverá
e enquanto
ator o for
atormentar
áááááááááá

Saturday, June 28, 2008

cabra macho pra chuchu

O homem era só mais um homem qualquer até o dia em que quis virar mulher. Sua mãe chegou perto dele e cortou seu pinto. Seu pai passou mertiolate e ele era alérgico a mertiolate. Ficou com assaduras pelo corpo todo. Foi neste dia que ele virou mulher que eu o conheci como mulher. Era uma mulher bonita e um homem feio. Porque mesmo sem o pinto ele era homem. Um homem comum. Uma mulher bonita porque quando usava maquiagem, ela escondia as imperfeições de seu rosto redondo como uma lua ou um prato ou uma bola de futebol ou um ovo ou um disco voador. Sua mãe cortou seu pinto porque ele pediu. Sangrou tanto, mas cicatrizou. Ele já vinha com aquela idéia há muito tempo. Era um homem que queria ser mulher. Não encontrava utilidade para seu pênis. A utilidade que os homens dão. Era uma poesia aquele pênis. Uma inutilidade. Assim como o poeta abandona a poesia, ele abandonou seu pênis. Sem tristeza e com muita animação, pensando que ia ter vida nova. Passou a ouvir das pessoas coisas horríveis: que era chato, insuportável, imaturo, burro, ignorante. Tesouras rasgavam sua auto-estima. Tudo porque sua mãe cortou sua inutilidade. Se todos cortássemos as coisas inúteis da vida, íamos acabar nos matando. E foi assim que ele acabou... Enforcado... O outro homem dessa história, o outro ser humano que sou eu, gostava do cara que se suicidou. Tínhamos muita afinidade e cumplicidade na nossa amizade. Foi impossível não ficar triste com o fato de ele ter tirado a sua vida porque perdeu o pênis. Foi a mesma coisa que aconteceu comigo quando perdi a poesia. Fiquei triste e meu tempo ocioso era dedicado a procurar uma forma de me matar sem dor. E consegui num dia desses. Num dia em que o sol foi enorme e que o céu ilustrado de estrelas anunciava mais sol para o dia seguinte. Vi um cometa passar. Fiz um pedido e me joguei num vidro de Amplictil. Deixei uma carta para que me entendessem nesta hora. Não fui uma pessoa triste e sim despreocupada e sem pretensões na vida. Tudo me iludia e a poesia me filtrava. Deixei um último poema que dizia

Papai do céu foi um homem
um homem como outro qualquer
por que será que um homem não pode virar mulher?

O infinito está sempre num outro dia
e assim a flor nasce depois de uma morte
dentro do peito onde o poeta é mais forte

Sei que não vou entrar apra a história com um poema como este, mas quero dizer que o poema quando deixa de nascer no poeta é como um abismo que cai. E a última coisa que cai. É o inferno que não quer mais seu fogo. Mesmo sendo eu um poetastro. É diferente de abandonar a poesia e o poema e partir para ser feirante ou motorista de táxi ou médico ou engenheiro ou advogado ou michê. Quando a poesia abandona o poeta resta a morte. Foi o que restou a mim que sou só uma mulher comum. Que amava uma mulher e um homem: o poema e a poesia. Que era uma mulher dentro de um homem e um homem dentro de uma mulher.

Friday, June 27, 2008

Os olhos dela sempre brigam com os meus. Suas meninas parecem brincar com os brinquedos e luzes no teto. Se eu tivesse em mim tanta Marina quanto adrenalina, eu morreria todo o dia. Só para senti-la em mim eternamente.

Thursday, June 26, 2008

A mente mente muito
Diz algo q o corpo não sente

A mente pode ser um ente
Uma estrela cadente

Ou algo que não sei dizer
Vivo em minha mente

Na sua não posso viver

Tuesday, June 24, 2008

O tempo é
o tempo.
Faz do tempo o tempo
enquanto tempo.
É alguma coisa: tempo:
o temporal de momento
alguma coisa que
só o tempo sabe
o que é.

A falta de tempo
esconde
o sim: o não: talvez.
De vez a falta de tempo
esconde
um monumento:
um castelo que derrama-
mento:
o seu si-
lêncio e o meu escondem
um sentimento.

Monday, June 23, 2008

Rodrigo de Souza Leão e Paulo de Toledo

Rimbaud comia Verlaine
Que comia Rimbaud
Eu li os dois
Sem comer ninguém

Alface era comida boa
Ela vestia verde
Eu comia vento
E colhia às vezes

Todos os garotos
Foram perdigotos
Perdidos em algum esgoto
Fiz dela meu coice

Meu coito

Saturday, June 21, 2008

meu e de Paulo de Toledo

OUTRO CALIBRE DE DEUS.

uma lente acende a folha
sob o sol

sobe o sol no Japão
entra aqui

no Brasil desce o sol
assim é

nasce e morre o sol
todo dia

como eu

Thursday, June 19, 2008

Plácido.
O sol plácido sob o ácido
de asfalto flácido:
estruturas que se formam
e bordejam o vento.
O vento eqüino de alguma crina.
Passeia sobre a menina:
enguias pélvicas.
Vive Elvis na sua nevoa.
Escuta a escuna na nuca
e um arrepio lhe come
o chão
e a bolha faz o cachorro
latir e engolir a explosão.

Wednesday, June 18, 2008

DUCHAMP.


meu e de Paulo de Toledo

ONG.

Eu vou formar uma ong
Para jogar ping-pong

Com o neurônio de algum
Cérebro importante

Chutarei os miolos
De algum líder qualquer

Um desses caras que
Trata mal sua mulher

Trata mal os seus filhos
Trata mal o seu povo

E só se da bem
Quando tem alguém novo

Pra seguir suas ordens
Pra lhe dizer amém

Eu vou formar uma ong
Pra eu jogar ping-pong

Tuesday, June 17, 2008

ã.

ter possuir destru-
ir

rir prescindir par-
ir

são flechas equi-
nó-
cio(s)

estrobolábios e b-
oc
a(s)

a festa esta bomba-
ando

o sexo flui a-
roma

Sunday, June 15, 2008

HÍMEN. HOMEM.

O homem é só um pedaço de carne.
Aquele homem é só um hímen.

O hímen é só um pedaço de carne.
Aquele hímen é só um homem.

(Qualquer coisa dita além disso
pode ser simplificar o simples):

(Assim como esquecer de um hífen).
(O hífen é só um homem-hímen).

Saturday, June 14, 2008

meu e de Paulo de Toledo

pteroframes surgem
na imagem

logo se vê o fantasma.
e além disso
se dissolvem
os chuviscos

alguns seres
orgânicos que
me causam náusea
como o carrapato-azul
e a lampreia e
os vagalumes
com lâmpadas
na ponta de
suas bundas
piscam
estroboscópicas

mas os piores
são os homens com
monitores voltados
para o seu próprio cu
e o umbigo colado
no ego

sabendo que
todos acabaremos lá:
sete palmos abaixo

Thursday, June 12, 2008

meu e de Paulo de Toledo

Wednesday, June 11, 2008

de pérolas.

os porcos fartos ainda mastigam
e trituram ao vento
expandindo a distância
entre os beijantes casais corpulentos

perplexos
ficam os versos que o vento esculpe
nas encostas recalcitradas de macacos
e lesmas
caminham rapidamente

as tartarugas
tardam a morrer

quantos porcos matar
até encontrarmos as pérolas?

Aranhas e cavalos são sombras perpétuas. A minha sombra não fala de mim. Sequer posso vê-la. Na escuridão/com uma vela acesa/acendo minha mão.
Na imensidão do olho dela posso vê-la. Quem é? Quantos anos?
Tudo me devora até meu ápice e volta devagar como se o dragão que eu cavalgo cuspisse em mim cem mil bocetas azuis.

Monday, June 09, 2008

NOMES TROCADOS.

Peço uma linha de sentido
ao meu ser dividido
: entre o opúsculo e o
músculo que nasce másculo
dentro de sua válvula.

Aceito o inquieto retrato:
ela e sua sombra na parede
do quadrado. Ali onde os
mortos ficam pra sempre
vivos e enterrados.
Aqui onde nós tentamos
ter os nomes trocados.

MENOS UM POEMA.

1.número um:
algo que lhe faça
um vestígio de ventre
um ângulo entre as pernas
2.pra q números?
servem para mudar
de assunto e continuar
nele como se não fosse nada
3.detesto número
mas sinto vontade de
numerar um poema errado
(este poema é um erro inevitável)
4.está na hora
de o programa terminar
Mickey Mouse vai partir e
a verdade está toda fora do poema

Saturday, June 07, 2008

MY ONLY FRIEND: THE END.

Aquele número telefônico. De vinte anos atrás. Aquela série de seis números. Aquela esperança de te encontrar um dia. Voltou tudo. Mexia nas gavetas e encontrei aquele guardanapo. Pedaço. Ponte entre mim e você. História que não aconteceu. Um beijo apenas que nos separou. Tudo voltou. Por um segundo. Por um minuto. Tudo apareceu de novo. Como se existisse algo ainda entre nós. Algo como aquele beijo. Aquela noite de beijos. O número estava lá para ser digitado e liguei e você não estava lá. E o telefone não era mais seu e por que eu havia encontrado aquela memória naquele dia? Aquela circunstância. Eu liguei de novo. Percebi que não sabia seu nome. Você podia ter filhos. Família. Marido. Namorado. Percebi que tudo só podia ser lembrança. E fogo ardendo agora para que o nunca mais esteja entre nós. Eu queimei o guardanapo e enquanto via o azul do fogo e o amarelo Gogh consumindo o meu passado com você, percebi que você era minha musa. A mulher que sempre quis. A mulher que não falou comigo. Só me beijou ardentemente enquanto uma banda de roque tocava. Uma banda que eu gostava e você também. Será que você ainda gosta? Eu não gosto mais. Tudo mudou e nada mudou. Os cabelos brancos no peito que estão subindo pela barba e descendo pelo púbis. Tudo é o nosso desencontro. Como se nunca existisse um nós. Não. Existiu. Por uma noite. Algumas horas. Éramos tão jovens que nem percebemos que aquela seria a nossa primeira e última vez. Finito como um eletro-choque. Puro. Fim. In.

Friday, June 06, 2008

Crispim Duarte era uma menina doente. Pelo menos era o que ela descobriu depois de fazer alguns exames de rotina. A rotina eram os exames de rotina. Até ser abduzida e curada por um et. O et se casou com ela e eles foram felizes até ele morrer dois dias depois de ela ter sido curada. A doença passou pra ele. Ele passou. Hoje ela ta casada com um elefante que lhe dá banho todo o dia. Assim ela vive com uma tromba: duas trombas, pois nasceu na sua boceta um pau em formato de tromba. Eles se comem e são felizes. Pelo menos foram felizes até o elefante morrer de cirrose. Casou de novo e ficou grávida de um pterodátilo. Que saiu de seu corpo voando. Levou-a para Terra do Nunca. O Peter Pan se apaixonou por ela e a Sininho fugiu com o pterodátilo. Crispim Duarte aguardou o nunca como sempre. Até que o nunca aconteceu e eles foram felizes. Pra sempre foi muito tempo. Todos morrem. Inclusive quem me contou esta história morreu ontem de algum mal ingrato. De alguma dor que aconteceu do nada. Morrer do nada é a melhor morte. É como se nunca tivesse existido nada aqui ou nunca aqui. Cacofonia é o nome do caqui que como agora entre uma palavra e outra.

Thursday, June 05, 2008


meu e de Paulo de Toledo

Wednesday, June 04, 2008

Carie.

Dentro de mim há algo podre
algo
algas verdes que flutuam
na química cerebral

Alguma coisa estranha nisso tudo
como um dente com chip
que a CIA colocou

Aquela dentista era minha amiga
era
e hoje ela me telefonou

Disse coisas com sentido
q a vida era um perigo
era
e isso eu já sabia

O que ela não me disse foi o q me deixou triste
Não disse que eu estava podre
Mas sei tudo isso tão bem
q não acredito em mim

Gostaria que existisse
a pílula
anti-paranóia

Assim eu estaria
curado
Seria a Glória

Tuesday, June 03, 2008

ANTIPENSAMENTO.

Às vezes o que a pessoa pensa é só uma coisa que a pessoa pensa e só ela pensa. Outras vezes outras pessoas pensam outras coisas sobre o que existe. E ainda muitas vezes todos pensam a mesma coisa: o que de fato dá mais força para a coisa em si. Mas a coisa em si não fica mais forte quando há uma unanimidade. Somente quando um pensa e aquele que pensa sobre a coisa em si é uma pessoa especial para a flor da espécie, somente aí o que a pessoa pensa sobre o objeto em si valoriza o objeto em si. Mas não penso sobre o que pensam de mim. Não importo muito com o que pensam, mas o pensamento nulo é chato. Talvez seja fundamental não pensar. É o que busco mais no meu dia a dia. Viver não é pensar. Há um tempo para tudo. Tempo de viver. Tempo de pensar. Nem sempre estes tempos caminham juntos. Quase nunca há um caminho em comum. Por isso procuro não pensar: sou quase sempre antipensamento.

Monday, June 02, 2008

PIERROT

Escorrendo sangue de tinta óssea
Olhos que choram uma inexistência

Punhado de confetes e serpentinas azuis
O carnaval tem cores de felicidade curta

Escuta-se um berro uníssono canto
Sobrancelhas verdes de quem já foi um et

Aqui ali borrões que podem ser tristeza
Um sobrevivente triste feito uma pilastra

Uma tela em branco seria tão expressiva
que a formiga motorizada dirige o ocaso

Tudo flutua no limite de cada cor inacabada

Sunday, June 01, 2008

Nuvens de Gardelona
Algum sagüi joga purrinha
Na minha mão digo lona

Enquanto enquantos crio
Palavras surgem pelos olhos
Mastigo meus dentes

Alguns entes do meu lado
Insistem em brigar com o cuidado
E aparecem como lobótomos

As cores insistem em a si pintar
E o infinito aqui não é azul
Um dromedário corcunda defeca

As flores no vaso nascem crocantes
Mastigo junto com ossos
Petróleo no mar: não há fossos:

a fórceps fósseis

Friday, May 30, 2008

ORÁCULO.

De novo Proust vem me indagar:
o
q
é
pó-
ética?

Eu respondo a Proust:
pô-
Emma

Thompson dá um caldo

Descon-
verso/mudo/inconvexo
Afinal/ele é Proust e deveria
Saber tudo sobre tudo

CÍRCULOS.

meu e de Paulo de Toledo

Thursday, May 29, 2008

O CAÇADOR.

Dê-me mais uma dose
Mais uma dose de fim

Para que tudo possa começar
É preciso que acabe

Para que outro em mim nasça
É preciso que eu desabe

E assim se faça
O dia natural da caça

Wednesday, May 28, 2008

alt-
a
r

algum Ogum e
proust e seu quarto:

cor
tição:
cura pode ser ler

cura pode ser tudo
inclusive você

só não pode o não
em uma fôrma redonda
assim dita fora da boca

como quem só pensa
in-
censo indo pelo a-
roma de vulcano
(vc e seus k-
belos curtos)
pode me beijar os tímpanos
com um
sin-
o

Monday, May 26, 2008

meu e de Paulo de Toledo.

DE CIMA PRA BAIXO.

Sou o melhor que posso
Possuo o melhor que sou

De mim sei não restará nada
Nenhum caroço, nenhuma empada

Às vezes me jogo do sexto andar
Às vezes me jogo do quinto

Mas nunca passo do chão
Do chão onde um fogo extinto

De um mendigo que me acudiu
É aceso toda noite

Toda noite um anjo cai
E um outro abismo cospe labaredas

Talvez o dragão seja hoje
O melhor amigo do fogo

Talvez seja o deus pra quem rogo
O último ateu suicida

Sunday, May 25, 2008

meu e de Paulo de Toledo

Saturday, May 24, 2008

de dia me lembro
o quanto setembro
freqüentou os dias

é que quando rosas
os dias choram
na iniqüidade da vida

a vida é um osso
ou um espinho na pata
de um cão albino

a vida é um eqüino
um cavalo alado
bunda chamada desejo

Friday, May 23, 2008

meu e do Paulo de Toledo

Thursday, May 22, 2008

O CHÃO.

Soco naquela parede
Aquela parede branca que não me fez nada

Agora a parede está um pouco vermelha
E há sangue na minha mão

Então aquela parede que não me fez nada
Me fez sangrar a primeira vez

Me jogo no abismo entre os apartamentos
O chão nunca me fez nada

Wednesday, May 21, 2008

DO CAIS AO CAOS.

vitória régia flor
regendo a orquestra

maestro régio: o tempo
das flores é o da chuva

regendo o silêncio: os
filósofos: os filólogos

abrem os guarda-napos
os perdigotos são troca-

dos: algum beijo via ar
elevado à potência de

Won Kar Wai dirige
entes lentos de seres-

teiros: boleros e la
barca: todos partem

Monday, May 19, 2008

GOGH.

A aparição por si
nequan
on(m)
só fez desligar

O andador anda só

Volta no quarteirão

Algum(a) en-ig
nigção

outra

qualquer poema paira
sob
o sol a si desbota
tbm terra: cor do ofício:
amarelo

Sunday, May 18, 2008

THIS IS OUR SONG.

Ontem ela me disse que
me ama
mas eu não acredito mais

A chama de uma vela
só se inflama
com o amor que o fogo faz

O fogo baila bailarina
nos olhos
tão azuis desta menina

Quando me diz que ama
só reclamo
porque não a amo

Quando digo eu amo
minto
porque não é o que sinto

TELA.


Friday, May 16, 2008

Krâneo e seu neurônio no programa roNca roNca.

Quem quiser conhecer o meu trabalho musical, é só ir no site da Oi FM. Uma música nossa (PORTAS FECHADAS) tocou no programa roNca roNca, de Maurício Valladares. Foi uma surpresa. Por volta das onze e meia da terça passada, estava com o meu radinho de pilha ouvindo o programa: que é de uma desorientação sonora total. De súbito sem falar nada escuto minha voz anunciando PORTAS FECHADAS. Foi uma puta surpresa. A Gizza Negri - que é quem faz este trabalho musical comigo -, já está preparando material para um video clip demo e também vai montar uma página no My Space para a gente. Fica o agradecimento ao Mau Val. Quem quiser ouvir o programa é só ir no site da Oi Fm e clicar em roNca roNca no menu a esquerda. O endereço é este http://www.oifm.com.br/

SE JOGAR.

Matei um homem e
Uma mulher
Comi-os de colher
E vomitei um poema
Outro dia também me mataram
Mas me comeram de garfo e faca
Saí pelas fezes
Calmamente
Como quem nasce
Lentamente
Usando um disfarce
De gente
Vestia Negro como a noite era negra
Me confundia com ela
Até que viramos a cadela
Que defecava no tapete
Um bilhete
Ela me veria de estilete
Um outro Valete
A queria de sapatos altos
Alguns fatos são menos exatos
A poesia é um fetiche
Quando ela existe
E o poema é só o princípio
De um precipício

Wednesday, May 14, 2008

CANÇÃO PARA UM AMOR NAUSEABUNDO.

Inspira um segundo o ar da manhã
Sente o olfato dos carros passando
Daqui de cima não dá pra lhe ver direito
Você é tão minha que é quase a ponte inteira
Um abismo de leões e dragões rugindo
Um caminhão de suicidas pedindo auxílio
Um beijo que o chão me deu aos sete anos
Depois: algum flanelinha flanando o amarelo
Dizendo pr`eu botar meu carro aqui
Bato parado carreiras de insanidade
Me dizem para pular em mim mas é um lugar tão deserto
O escuro da noite sobe pelas escadas
As sirenes do bombeiro
O escudo da tropa de choque
O choque que já levei um dia
Tudo isso lhe circunda e você foge de mim como de uma locomotiva
Eu venho vindo em direção contrária
Ainda encontro tempo para sentir o seu perfume
Dedico um segundo a guardar o seu cheiro
Depois vomito tudo antes que me beije
Tão decentemente que me enjoe

Tuesday, May 13, 2008

TELA & CIA.

O inferno é o sinônimo
De manicômio

O homem é o homônimo
Eu, só Rodrigo Antonio

Monday, May 12, 2008

BISCOITOS MIRABEL.

Lá depois das seis
Começa o meu tormento
Me sinto tão bem
Que nem em mim me agüento

Logo vem a memória
E a memória vem com o mamute
Atormentar-me com sua carícia
Que me açoita a cicatriz

Se o tempo parasse agora
Diria que está tudo bem
Dentro de sua pegada
Há uma banheira

Dentro da banheira
Na forma de um oito
Meu corpo morto
Comendo biscoito

Friday, May 09, 2008

TRECHO DE TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS.

Tudo ficou Van Gogh


Engoli um chip ontem. Danei-me a falar sobre o sistema que me cerca. Havia um eletrodo em minha testa, não sei se engoli o eletrodo também junto com o chip. Os cavalos estavam galopando. Menos o cavalo-marinho que nadava no aquário.
Ele tem um problema mental. Será que tem alguma seqüela? No fundo deste meu mundo, lá no quarto escurecido por doses de Litrisan, veio um psiquiatra e baionetou uma química na minha celha esquerda. Enquanto outro puxava a minha banha, esticando e esticando para que não sentisse a injeção de Benzetacil.
Benzeta.
Benzeta.
Uma dor imensa na bunda. Tudo girando ao meu redor e eu girando também. Tiro uma meleca e coloco na mesa do canto, bem longe da escuridão no quarto. A escuridão é asséptica. Só o pessoal de branco pode freqüentar aquela linha impura. Seguram-me de novo. Recebo o beijo de minha mãe. Deve ser dia de visita. Acordo e como uma lasca de goiabada com o sanduíche de atum que mamãe trouxe para mim. Escuto uma música tão alta que não entro nos meus pensamentos e estou fora, agora a cocaína não vai chegar. A conexão foi interrompida.
Mamãe mal chega, mal vai.
Ele continua achando que engoliu um chip.
Ela diz que tudo começou há uns dez anos, quando eu achei que havia engolido um grilo.
Quantos grilos você me fez engolir, filho.
Minha mãe disse isso afagando meus lábios e me dando um beijo na bochecha. Por alguns segundos lembrei-me de algo que havia acontecido no dia anterior. Eu havia quebrado toda a casa com uma fúria gigantesca. Nunca mais tomo Haldol na minha vida.
Foi por você não ter tomado o Haldol que você ficou assim, diz o chip. E eu começo a falar: Só no Anhembi é tupi. Só no Anhembi é tupi.
O engolidor de espadas engole uma nesga de fogo por vez. Tá todo mundo engolindo alguma coisa neste exato momento. É hora do jantar. Mamãe se foi. A música volta a me colocar fora de mim.
Entro no quarto. Tiro o pau pra fora e começo a bater uma punheta. Dança da motinha. Dança da motinha. Eu engoli um grilo quando tinha meus 15 anos de idade. Foi a primeira vez que consegui conviver comigo mais intensamente. Salvei uma casa do cupim maldito que queria destrui-la. Eram cupins gigantes. Tenho certeza de que salvei aquela casa. Tenho certeza de que por alguns segundos fui Jesus Cristo.
Ainda continuo na jaula. A minha boca está fechada com uma mordaça. Meus pés estão presos.

CONSIDERAÇÕES ALEATÓRIAS SOBRE ANIMAIS E HOMENS.

azul veludo sobre azul piscina
olhos que piscam o caribe inteiro
outro meteoro
outra crina de cavalo que voa sozinha
ele segura a cabeça de alguém
olhando mais de perto podemos ver o vírus
matamos seres vivos quando tomamos banho
ah, as bactérias e os mínimos seres que habitam a nossa pele
rubro olhar que exorciza o ritual
maconha e veias dilatadas do olho esquerdo
a tecla delete do computador
tem certeza que deseja deletar tudo ou
salvar como
ou cuspir na tela
ou ouvir Mozart
mais uma vez antes das cinco
que é a hora que você desmaia todo o dia
e não sabe se volta
com costeletas estranhas
estas de porco
o porco berra tanto quando é castrado
o porco berra e berra o porco que berra
e o homem ri e enquanto sorri se ferra
quem é a fera?

Thursday, May 08, 2008

soul.

“Listem to Marvin all night long”
True, Spandau Ballet

trôpego
te dou
um abraço

amaço
a fumaça
fumo

um maço
fumava
o que faço

cantava
bebia
o espaço

em mim
existia
o palhaço

hoje
traço
traças

transas
tranças
ondas

mansas
mudei
mudou

o que
sou
soul

fui

Wednesday, May 07, 2008

ELA.

ela fez lipo na vaidade
era um hipopótamo

ela tirou as rugas
era um maracujá

ela fez ginástica
era uma cardíaca

ela ficou bela
pegou febre
a amarela
e desbotou
até morrer

Monday, May 05, 2008

Rir.

Dente tende
A virar músculo

Antes varo
Vara e másculo

Depois frouxo
Roxo e carne

Antes branco
Total Mármore

Sunday, May 04, 2008

ERAM SÓ COTOVELOS.

Silêncio. Ela está falando pelos cotovelos.
Cada cotovelo diz uma coisa. O esquerdo
diz que não. O direito diz que sim. Apesar
de ser um segredo o que os cotovelos pensam.
Existe um segredo ainda maior dentro dela.
Ela diz que me ama e isso seria o suficiente.
Mas como preciso de enquantos vários. Vou
enquanto fogo me queimando de silêncio.
Enquanto água vai deixando que o contorno
de meu corpo vá se aproximando e tocando
aos poucos as bocas dos cotovelos e vendo
que assim evito um pouco que ela fale que
ela diga o que quer porque sai do cotovelo
para fora. Para dentro há o fogo que consome.
Há os filhos de um outro homem que também
lhe fala melhor. Os cotovelos têm ouvidos
também. E os tambéns não têm sentidos iguais.
Os cotovelos, os tambéns são as bocas dos
enquantos. Enquanto isso nasce um ventre do
chão. E o chão é onde começa a filiação.
Enquanto caibo em mim vou bem e o problema
é quando deixo meu cotovelo perto do dela e
ele menstrua um silêncio eterno contido num
dó de peito. Aí o cotovelo canta. É o fim.

Saturday, May 03, 2008

CHEIRO.

A arte do enfarte
Faz da morte um desastre

Um desastre de cigarros
E pressão alta

Algo escuro me ataca
A dor do peido

Que dilata
É só uma cola na lata

Friday, May 02, 2008

HOSPÍCIO.

Eu não vou tomar o remédio
Pra que me chamem de louco

Só louco toma estes remédios
Eu prefiro os meus infernos

Quando um louco é um fardo
Eles querem internar

Que me internem quando há mar
E uma maré com ondas altas pra surfar

Eu que odeio este lugar
É o lugar preu piorar

Preu melhorar chama o abismo
E não me chama de louco

Quando eu me jogar

Thursday, May 01, 2008

 
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