INSPIRAÇÃO X TRANSPIRAÇÃO.

Esse mês eu acho que num vai ter resenha. Pelo menos dentre as coisas que eu recebi e comprei, falo de livros, nada me deu a inspiração para escrever. Não que eu seja um resenhista totalmente movido pela inspiração, mas acredito em bruxas por que não acreditar em musas. Se é que lãs hay, hay.

É necessário aquela brisa inspiradora para a movimentação interna e para que uma palavra puxe outra palavra e assim comecemos a escrevinhar alguma coisa no papel. O que eu chamo de brisa é a inspiração. Eu como poeta e resenhista tinha tudo para ser o do tipo construtor: aquele que soergue o texto lapidando-o, moldando-o a ferro e fogo, mas não o faço. Escrevo sempre num jorro contínuo. Como se uma cachoeira entrasse dentro de mim e fosse me banhando a ponto de me misturar tanto a enxurrada que acabo virando a própria enxurrada.

João Cabral de Mello Neto era um poeta inventor que combatia muito a idéia de inspiração. Ele planejava tudo desde o número de poemas ao número de páginas de um livro. Cabral me influenciou em muita coisa. Mas eu acredito na inspiração. Para mim a inspiração não morreu. Ela ainda vive. É o insight. É o momento que antecede ao transe.

É muito comum em mim a pergunta: fui eu quem escrevi isso? E a pergunta vem de espanto tanto pelo fato de achar que a coisa escrita por mim é ruim ou de achar que o objeto da inspiração, o poema acabado, é belo. Sendo um bom poema ou não este sentimento de desorientação em relação ao próprio é uma sensação inspiradora. Quantas vezes eu sentei diante de um computador para escrever alguma coisa e não consegui escrever sobre o tema em questão. A necessidade de se escrever um tema ou uma peça específica me causa um bloqueio incrível.

É claro que quem quer construir uma carreira não pode e nem deve depender de inspiração para fazer uma simples resenha que seja. Não depender – o ato de não acreditar na inspiração – é muito mais salutar a um escriba. Quem não depende deste insight não tem problemas em escrever sobre qualquer coisa que lhe venha à mente em qualquer hora, ao passo de que o escritor inspirado é dependente da inspiração. Qual postura então deve ser a postura mais correta?

Não há postura correta. Acho que existe o transe, aquilo que te carrega de linha para linha e de poema para poema. Existe também o desabandonar-se para que flua algo de superior e tome a mente de assalto. Mas não podemos é mistificar o processo da inspiração. Creio que as coisas não devem ser nem tanto ao mar e nem tanto a terra. Nem tão inspiradas e alcandoradas e nem tão construtoras e desérticas.

O ideal para mim é que haja um processo de construção e que o poeta abra o espaço para um outro toma-lo, mas que seja este outro sempre um escravo do poeta. Que o poeta não perca nunca as rédeas de um poema. Que o poema seja puxado ou conduzido pela inspiração, mas que depois o poeta burile e faça daquele objeto inspirado um objeto acabado.

Com isso chegamos a conclusão de que tanto a inspiração e a transpiração devem andar juntas para se construir um bom poema.

Tuesday, March 24, 2009

2 Comments:

yehuda said...

cada um com sua versão(inspiração), ouço uma frase numa conversa, num filme não muito importante, leio um fato pouco escandaloso no jornal, me lembro de algo do passado...e me sento ao computador e escrevo sem pensar muito, depois aparo e encurto, em seguida me livro do supérfluo, releio mais cinco vezes, se o que escrevi foi bom ou ruim quem me lê que julgue e com certeza passadas umas semanas se ler o que escrevi não reconhecerei eu ser o autor

Nydia Bonetti said...

Rodrigo
"O verdadeiro poeta é aquele que encontra a ideia enquanto forja o verso" - Alain.
Sera!?
É mesmo misterioso todo este processo criativo, tanto nas artes como na literatura.
Achei perfeita a colocação da construção: inspiração + transpiração = poema edificado.
Lendo teu texto, descobri que preciso aprender a controlar o impulso e a transpirar mais... muito mais.
Um abraço

 
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